
Atualizada às 13h13 Bob Fernandes
Direto de Pequim
Pequim de dia. Árida, cinzenta, enevoada. Um terço dos guindastes do planeta estão por aqui, as estacas batem, a cidade é um ruído só.
Pequim à noite é The World of Suzie Wong Club. E aqui as estacas também batem.
Há anos o Reader Bar and Club Awards elege Suzie Wong Aquele, O bar-disco da mega-cidade de quase 15 milhões de almas; confucianas, mas sempre sedentas, porque almas.
Veja também:
Suzie, personagem do filme O Mundo de Suzie Wong, 1960, direção de Richard Quine, com William Holden e Nancy Kwan.
Em algum mundinho a novela de Richard Mason de mesmo nome se tornou cult e daí a febre asiática de casas noturnas homônimas. Mas quem é do ramo sabe que Suzie Wong é só uma e pode ser encontrada às noites no seguinte endereço:
Nº 1A South Nongzhanguan Lu, West Gate Chaoyang Park, Chaoyang District, Beijing.
Em algum lugar do clube - de dois andares mais terraço - está a long chair que excita e instiga a imaginação. O divã-símbolo de uma China de outros tempos, quando ingleses e franceses empanturravam os chineses com ópio para melhor domá-los.
Direto para o terraço, sem passar pelo divã, nicho de visitação; basta saber que existe e está por ali. Freud explicaria.
Anson Chang, três chinesas como sócias do Suzie Wong. Ele é o cara. Nascido em Hong Kong.
Às quartas, pelo menos uma das donas marca ponto. Quarta é lady's night. Das 21 às 23, só Elas, sem eles. Todas recebidas à porta com um coquetel e uma rosa.
Os coquetéis, de graça. A rosa quem entrega é o belo - como os demais garçons daquelas duas horas só Delas - Justin MacCloud. Australiano, recepcionista de apetite flex, a se crer no que indicam seus gestos e os olhares calientes, bi-direcionais.
Suzie... na madrugada de Pequim o ponto onde olhos rasgados e redondos se buscam.
No terraço, um bar, mesas altas com banquetas, sofás, iluminação por entre bambus, céu e lua quando a poluição permite. À meia luz, um espaço para os entretantos ou para o início dos finalmentes.
Andar de baixo. Djs, bar, pista, e desejos. O que toca? O mesmo que bate em Berlim, Amsterdam, New York, Rio, Hong Kong, Londres, Paris, São Paulo, Mossoró, Ipiaú, Vitória da Conquista ou Viamão... basta querer, saber e conectar.
- Toco aqui o mesmo que toco em Londres -, confirma Martin F, que chegou segunda e volta para a grande ilha a tempo do fim de semana no seu Soho.
Por "mesmo" entenda-se Trance... acid house... pumpin'house... house progressivo... variações sobre a mesma estaca.
Anson Chang, o dono, explica:
- Tenho três sócias... não, o governo não se mete no setor, não... aqui funciona assim... enquanto ninguém puser o olho, acharem que é só um negocinho, é fácil e você fica em paz, mas, se alguém achar que é coisa grande, pronto...
- Pronto o quê?
- Aí vem o governo, vêm as máfias, e você tem que ter boas parcerias...
Chang, hongkonês, saiu de Pequim em 88, aos 29 anos. Pulou de volta para sua Hong Kong. Talvez coincidência, pouco antes de o bicho pegar de vez na Praça Tiananmen e a estudantada ser esmagada pelos tanques do Exército de Libertação Popular.
Em Hong Kong, final dos 80, o sucesso na noite. No começo, uma disco. Quando Glória Gaynor se tornou cult e saiu da moda, um karaokê. Depois, indústria têxtil, negócios na Nigéria, pela África, até voltar a Pequim, em 2001.
Suzie Wong, no início era uma brincadeira, conta Chang:
- Cada um trazia seu CD e punha pra tocar... era um lugar para artistas, pra quem gosta da noite, mas deu certo, pegou, e aí...
Aí, a profissionalização. Sete Djs, segurança, porteiros, sócios, sucesso... e muita atenção à química.
Química na pista, no bar, não a química da anfetamina K, que rola como água na Coco Banana, mega-disco no complexo comercial e esportivo Worker Stadium, ponto da balada ultra-jovem. K que já invadiu também as noites da bela Shanghai.
As mulheres são mais liberais, tolerantes, ainda mais em Pequim e muito mais ainda em Shanghai, conta Anson Chang.
E os ricos, os milionários?
Os ricos, os milionários de Pequim, não gostam de Suzie, não freqüentam a noite, esta noite. Não se sentem bem com estrangeiros nestes momentos, não engolem o mix de olhos rasgados com amendoados, não dançam, entrega Chang.
Por aqui quem tem muito não entende o sentido de vir até um bar/disco como o Suzie, coalhado de belas e belos, estrangeiros ou não. Ricos e milionários, por essas bandas, preferem um bom karaokê com um telão.
Deus não dá asa a cobra, já dizia a velha Beatriz.
Casa cheia às duas. As estacas ressoam, Suzie ferve.
Cabelos cacheados, dourados, uma enlouquece na pista apinhada. Com ela outras cinco, copos nas mãos, olhos já embalados, linha modelos-de-passagem-pelo-oriente.
Homens. Chineses ou não. Cotovelos no balcão do bar, em forma de U, recostados nas paredes, em dois estágios. (Nas mãos, sempre, copo ou garrafa).
Estágio um. Alucinados, sem tirar os olhos, mãos a caminho, na pista.
Estágio dois. Blasé. Tipo não-tô-nem-aí, como se não estivesse a fim de devorar, estando.
Duas e meia.
Chineses, no começo dos 20, disputam num jogo de dedos quem bebe mais no gargalo. Eles três ou elas três?
Zhu Jiazi, uma delas, não apenas dança. Desliza, ondula no ritmo do que bate o Dj londrino. O cumprimento de Zhu, quase infantil, é um aceno. Mão espalmada e sacudida, à altura dos ombros.
Zhu desliza. Suzie ferve. Balada em Pequim.
Terra Magazine
» Dona Joana: Por quem os sinos dobram