
Atualizada às 13h14 |
Terra Magazine
A dançarina transexual Jin Xing: desde cedo sabia que queria ser mulher
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Bob Fernandes
Direto de Shanghai
Leia a entrevista completa com Jin Xing.
Terra Magazine - Seu espetáculo é um caminhar por várias Chinas, a de hoje e a China milenar?
Jin Xing - Eu utilizei a personagem de uma lenda antiga chinesa chamada Du Li Niang, e utilizo uma jovem da antiga China, que nunca havia encontrado nenhum homem a não ser seu próprio pai. Um dia, ao entrar num jardim, acaba dormindo por lá, e tem um sonho. Nele faz amor com um homem, o amor dela foi encontrado/concretizado no sonho. Então, utilizo esta história e a personagem para comparar com as pessoas de hoje. Os chineses já não sonham. Poucos têm "sonhos". A China já se transformou em um grande país de produção. O nome do espetáculo é Made in China. Em meio a esta produção, o sonho já não existe mais. E assim comparo a China antiga com a vida moderna.
Aos olhos de um estrangeiro, a percepção não está errada, é isso? É uma coisa universal, mesmo para alguém que não conheça a lenda... Qual é sua formação?
Eu comecei na dança aos 9 anos. Fui escolhida na seleção nacional e fui enviada para o Grupo de Dança do Exército na província de Dong Bei (norte da China). A China é diferente de outros países - sendo grande, ela tem vários exércitos regionais. E cada exército local tem seu próprio grupo de dança e música. Há mais de 20 anos, o Exército tem as melhores escolas. Até atualmente, os melhores artistas, os melhores ginastas, os que competem nas olimpíadas, vêm do Exército.

Quando você saiu da China e foi pra New York?
Nasci em agosto de 1967, na Província de Liao Ning. E meus pais são coreanos que fugiram para China durante a guerra das duas Coréias. Meu pai é da Coréia do Norte e minha mãe, da Coréia do Sul. Se conheceram aqui na China e se casaram. Na minha documentação, tem a identidade de minoria étnica coreana. E desde criança aprendi balé clássico e russo, e danças clássicas chinesas. Fiz muitas apresentações. Em 1980, consegui o maior prêmio na competição nacional de danças. Com 19 anos, fui escolhida pelo governo para aprender dança moderna em NY. Isso foi em 1987. E antes disso, na China, não havia dança moderna.
SHANGHAI, A MULHER
Como é a relação com o Exército na China?
Sim, eu pertencia ao Exército, porém minha especialização era dança. Eu estudava dança, principalmente. O Exército regional ou da província tem o seu próprio grupo de arte, o qual inclui dança como uma das matérias. Aos 13 anos, fui transferida para a escola de arte do exército de Beijing. A competição nacional inclui escolas do Exército e outras que não são.
Qual a referência do tango em seu trabalho?
Por eu ter dançado o tango argentino, a minha percepção do tango é que existe nele algo muito confrontacional, o que é bastante atraente para mim. Amor, luta, sedução - todos juntos. Quando, no ano 2000, eu me mudei de Beijing pra Shanghai, sempre achei que, na China, Beijing está para o homem como Shanghai está para mulher. Shanghai é como uma mulher seduzindo o mundo.
Quando você chegou a Shanghai? Mora aqui?
Em 2000. E moro perto daqui.
E por que se mudou pra cá?
Boa pergunta! Todos os artistas de Beijing perguntam isso pra mim. E eu respondo que o centro de cultura e arte da China ainda continua em Beijing. Shanghai é o centro econômico. E me mudei pra Shanghai porque acho que a qualidade de vida de Shanghai é melhor que em Beijing.
ARTE E PRECONCEITO
Você se incomoda com o fato de a mídia usar seu personagem? Isso é um jogo que você também joga, de usar a vida pessoal?
Eu sempre pensei que minha arte era minha arte, e minha vida pessoal era minha vida pessoal. E que elas deveriam estar separadas. Mas agora me dou conta de que é impossível separar as duas coisas. E muitos bailarinos, muitos coreógrafos têm as duas experiências juntas. Mas ter isto junto, na China, só eu. Então, no início, eu mesma coloquei as duas coisas juntas e não sabia que isto teria este enorme impacto na minha vida profissional. Não estava preparada para isto, não me preparei para isto. Mas de fato isso criou um grande espaço para mim na China e me deu muito mais chances. Virou uma atitude. Com ela você enfrenta a sociedade normal da China e mesmo o governo. Foi um grande desafio para a sociedade e para mim, mas eu encarei o desafio. Eles todos dizendo: "Oh, Jin Xing mudou de sexo pela arte", e as duas coisas se tornaram uma. Agora, os artistas me chamam de Status libertário da China. Então, nesta sociedade, eu escolho o que quero fazer. Com muitas dificuldades, mas esta é a minha atitude.
Seu espetáculo tem a ver com esta história? Com a decisão de fazer a operação?
Acredito que sim. E acredito que todo artista, ao criar qualquer obra, está relacionado à sua experiência pessoal. Como artista, não posso usar a experiência de outra pessoa.
A visão que se tinha de sua vida era uma coisa preconceituosa, como ocorre no Ocidente, por exemplo? Porque nos parece que a China, pelo menos em parte, não tem aquele traço judaico-cristão.
Na China, antes de as pessoas acreditarem no comunismo, elas acreditavam em budismo e taoísmo. Acredito que a religiosidade na China talvez seja um pouco mais flexível. Portanto, a incompreensão da sociedade existe e sempre houve, em nível normal. Mas eu me preparei. Acredito que o tempo vai dizer a eles que a minha escolha pessoal é correta. De 1995 até agora, já se passaram 12 anos. Em 12 anos, a minha atitude já mudou a percepção dos chineses deste assunto. No começo, todo mundo é igual. Acham inaceitável e incompreensível. Há preconceito e desprezo, tem de tudo. Mas eles, ao mesmo tempo que não compreendem, por outro lado, por eu ser uma artista, ficam sem comentários. Isso me deu um ótimo espaço de tempo para convencê-los.
Tinha consciência de que, primeiro, esta era uma atitude política, independente de ser uma atitude pessoal? Que podia ter outra leitura aos olhos dos outros?
Essa questão eu não pensei, porque somente pensei em minha decisão. Mas não corri do questionamento da sociedade, fiz mais de 1000 entrevistas. No subconsciente social, a juventude chinesa questiona: como pode ter uma pessoa que pode viver com base na sua própria decisão e fazer a sua própria escolha? Isso afetou mais do que um espetáculo poderia alcançar. E eu faço na China a dança contemporânea, e em muitos sentidos é uma área com grandes desafios. Neste aspecto, criou-se uma influência muito grande na sociedade. Isso foi fora da minha expectativa e preparo.
QUESTÃO DE COPYRIGHT
Em que momento e que emoções a levaram a tomar esta decisão, que não é uma coisa tão simples?
Na verdade, minha psicologia sempre foi a mesma. Quando eu tinha 6 anos, já sabia que deveria ser uma menina, uma mulher. Mas a vida me fez menino. Por dentro eu nunca tive um período em que tomei a decisão. Sempre foi o mesmo. Fiz a operação aos 28 anos. E às vezes brinco dizendo que me sinto como uma espiã, embaixo da coberta de um homem. Aprendi por 28 anos como é um homem e o que pensam os homens. E como uma mulher, sei o que é uma sociedade dominada por homens. Como uma mulher deve sobreviver. Acho que tenho mais vantagens que outras mulheres.
Antes de sair da China pela primeira vez, eu não sabia que poderia fazer uma operação de mudança de sexo. Desde os 19 anos, comecei a juntar informações sobre isso. Comecei a acreditar que poderia retornar a mim mesma, e retornar a minha alma. E claro que não tomei uma decisão de uma hora para outra. Levei nove anos pensando sobre isso. Será que tenho condições para ser uma mulher bonita?...
Se eu tivesse nascido gorda e grande, eu não faria. Sendo artista, do ponto de vista da estética, eu precisava me aceitar primeiro. E daí poderia comunicar à sociedade. Dos 19 até os 28 anos, todos os dias, antes de dormir, eu me olhava no espelho e questionava: será que tenho condições para ser uma mulher? Concluí que tinha condições. Somente precisava de coragem e do momento certo. Quando cheguei aos 28 anos, tomei a decisão.
E sua família, como reagiu?
No começo, eles não aceitavam. Mas acho que qualquer pai quer que a sua criança tenha uma vida feliz. Eles me disseram: esta é a sua vida, tome a sua decisão. Então, tive muita sorte. Eu sempre brinco com o seguinte: se há duas pessoas que se importam, estes são os meus pais. Posso listar outras pessoas, mas esta escolha é minha. Porque isto é uma questão de copyright. Eles são os criadores originais, então respeito a opinião deles. Se eu quero mudar o design e eles aceitam, aí eu não tenho nenhum problema.
Você é casada, tem filhos?
Sim. Isso tudo considero como presente. Quis me tornar eu mesma, e me tornar mãe e me casar. Foram presentes da vida.
TRÊS "F"
Pra alguém que teve a chance, a oportunidade de transitar por dois gêneros humanos, como é a China para você? Tendo vivido estas experiências todas.
Isso é uma pergunta muito difícil. Shanghai é Shanghai, não pode representar a China. As mudanças são rápidas demais. Por isso eu sempre digo que a China é os três F: Fascinante para os de fora, Frustrante para os que aqui vivem e Frightening (Ameaçadora) tanto para os de fora como para os de dentro.
Por que frustrante?
Porque pagamos um preço alto pelo PIB (Produto Interno Bruto). Porque sabemos que não fizemos muitas coisas apropriadamente. Então, quem vai pagar por isto? Os chineses. Que preço? O preço ambiental, o espiritual. A nova geração não acredita em nada. Só se importa com dinheiro. Até antes, e durante o comunismo, o povo acreditava nisto. E agora...
Deste ponto de vista, seu espetáculo é extremamente político.
Por isso, eu o chamo de Made in China. Porque Made in China tem tantos significados, são tantos produtos por todo o mundo. Mas "meu produto" está chamando o povo para retornar à alma. Olhem pra velha imagem da China. Eu utilizo um jeito artístico para chamar o povo de volta à alma, à velha China.
ALTO PREÇO
Pra onde vai a China?
Ninguém sabe. Eu acho apenas que a China transmitiu ao mundo uma estabilidade política. O governo é comunista, mas o País é muito mais capitalista. Apenas se usa o comunismo pra controlar o país. Comparada com a Rússia, a China fez uma bem sucedida transição. Mas para onde isto irá? Espere e verás. Depois de 2008, Beijing será a Beijing real e Shanghai, depois de 2010, será a Shanghai real. O numero do PIB para mim é uma bolha. Rápido demais, e as pessoas não estão preparadas. Elas não sabem se as mudanças são para uma boa ou má direção. Não sabem ainda. E não querem saber. Mesmo se eles descobrissem, não falariam. Não querem perder a fé. Eles pagam um preço alto por isto.
E você?
Ano passado, fiz o primeiro festival de dança de Shanghai e convidei uma companhia brasileira de Goiânia. Era o primeiro festival de dança de Shanghai. Estava esperando que o governo apoiasse, mas ninguém veio. Peguei todo meu dinheiro, coloquei no festival. Paguei tudo, ano passado foram 350 mil euros. Convidei brasileiros, senegaleses e alemães.
Como é organizado o festival?
Este é o segundo ano do festival. Ano passado, convidei as companhias, paguei tudo, a passagem, hotel, custos, etc. Este festival foi um grande desafio para o governo, de novo. Nunca existiu na China uma pessoa que organizasse um festival internacional. Eles não me deixaram usar a palavra "China" porque esta palavra pertence ao governo e também não poderíamos usar "internacional". Também pertencia ao governo. "Festival" não podia. Então, perguntei se poderia ser chamado de semana da dança ou estação da dança? Não. Chamei de Dança de Shanghai. É assim que as coisas funcionam na China. Não bloquear já é uma coisa boa. O governo não coloca dinheiro algum. Eu coloco meu dinheiro. Mas nem todos os artistas são assim. Porque já fiz nome e fama na Europa. O governo sempre me usa: Oh, a China é um país muito aberto, temos um artista livre como Jin Xing. Eles me empurram para a frente. E aí eu digo: Ok, vocês me empurram pra cá, e então me deixem por aqui. Eu tenho liberdade artística para fazer o que faço. Mas pelo preço que estou pagando por isto, me deixem. Sem censura. Na China, eles checam tudo, mas ninguém vem me checar. Eu também não dou ingresso de graça para ninguém do governo. Se quiserem me ver, paguem por isto.
Você evita alguma dança, assunto ou posição que possa atrair a censura do governo?
Não, nada.
"NÃO TENHO MEDO"
Você tem algum apoio para isso? Patrocínio de empresas?
Impossível. Só este ano o governo está batendo na minha porta e dizendo: Nós temos uma fundação do governo. Mas, no segundo ano, eu convidei uma companhia israelense, uma companhia da Dinamarca, e todos os países patrocinaram seus próprios grupos. Então, na coletiva de imprensa eu falei pro governo: que vergonha pra vocês, uma vez que este é um evento internacional e metade das companhias foi patrocinada por companhias estrangeiras e vocês não deram nenhum patrocínio. Dêem mais atenção à cultura e à arte. Se vocês querem que Shanghai tenha um padrão internacional de cidade, vocês não podem ser assim. Vocês não falam no mesmo nível, ninguém vai comprar esta idéia. Vocês serão somente um centro econômico e industrial. Sou muito direta. Não tenho medo. Há dois anos, desde 2005, o governo me empurra para representar a China, para falar da arte chinesa. E eu já perguntei ao governo por que me escolheram e eles dizem que é porque eu sou a pessoa perfeita para apresentar a cultura e a arte chinesa. Eu digo "tá bom". Eu sei que sou uma artista, mas muito do que faço é político. Para mostrar ao mundo a imagem correta.
É fácil fazer apresentações em outras cidades da China?
Porque já sou famosa, então posso ir a qualquer lugar. Mas, para a dança contemporânea, as cidades para ir são Beijing e Shanghai, talvez Guangzhou, ainda se desenvolvendo.
Qual é seu próximo projeto?
No próximo mês, estou indo à Grécia. Na verdade, tenho um livro publicado em 2004 que já está em 15 línguas, inclusive em português. Estou indo à Grécia para uma palestra... O livro foi publicado em Portugal, mas não no Brasil. E também estou indo à Inglaterra para sessão de autógrafos.
PASSAPORTE
Você é muito conhecida na França, não?
Sim, tenho a minha companhia em Shanghai, mas todos os anos fazemos apresentações no exterior. Eu tenho que fazer muitas atividades na Inglaterra, França, Alemanha, e no próximo ano também vou à Espanha. Sei que o sucesso na Europa vai repercutir para a China. Eles aqui sabem que sou conhecida, mas as pessoas não sabem como reagir a isso... E eles não sabem como fazer um evento internacional.
É preciso ensiná-los a fazer um evento internacional?
Sim. Eu esperei pelo apoio do governo, esperei que fizessem os eventos internacionais, mas nada, nada... Então, eu faço sozinha. Talvez eles tomem o evento de mim, mas pelo menos que façam de uma maneira internacional. Eu digo para o governo que eles precisam de propagada, precisam de cultura, e precisam de espaço para arte. Mas, na China, isso acaba parecendo a forma de um sanduíche - arte na base, acima dela a cultura, e sempre muitos elogios à nossa cultura, blá, blá, blá. Acima de tudo, a propaganda.
Conhece o Brasil?
É um País que gostaria de visitar. País maravilhoso, dançarinos lindos, bons coreógrafos... Com certeza nos veremos no Brasil. É um País de paixão, muita paixão.
Conheço muitos travestis brasileiros na França e sei que eles fogem do Brasil porque não podem mudar lá. Mas na China a gente pode. Quando estou nos EUA, eles me falam das condições de Direitos Humanos da China, e eu digo: olha, eu te mostro o meu passaporte, e vocês vão me dizer o que é Direitos Humanos? Porque nos EUA e outros países vocês não podem. No seu País, você tem os seus direitos e no meu eu tenho os meus. A primeira frase que aprendi nos Estados Unidos foi: "Não é da sua conta". Portanto, cada País cuide dos seus problemas.
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