Terra Magazine

› Terra Magazine › Colunistas › Bob Fernandes

Quarta, 31 de outubro de 2007, 08h52 Atualizada às 13h11

"Não tenho medo do Estado chinês", diz transexual

Reprodução
A dançarina transexual Jin Xing com o ex-premiê britânico Tony Blair, em Londres. Estrela chinesa, Jin mudou de sexo aos 28 anos.
A dançarina transexual Jin Xing com o ex-premiê britânico Tony Blair, em Londres. Estrela chinesa, Jin mudou de sexo aos 28 anos.

Bob Fernandes
Direto de Shanghai

Ela é uma celebridade. Nasceu homem, sentia-se mulher. Dançarina desde criança no Exército de Libertação Popular, decidiu-se um dia, há 12 anos, se operar, tornar-se mulher. Voltou de New York para fazê-lo na China. Fez, e virou uma estrela.

Jin Xing, sexualidade à parte, tem talento nos passos, nos gestos seguros que emocionam a platéia do Shanghai Oriental Art Center.

Aos 40 anos demonstra a mesma firmeza quando está no palco e quando analisa, voz roufenha a lembrar quem já foi mas não quis mais ser, as relações entre arte e política.

Veja também:
» Acompanhe aqui o Diário da China
» Especial Olimpíadas de Pequim 2008
» Confira o calendário dos Jogos
» Veja dicas para ir à China
» Saiba quais brasileiros já estão classificados
» Terra vê a nova China em série de reportagens

Na China, Jin Xing conquistou um espaço que lhe garante liberdade para expor as idéias que transmite nessa surpreendente - pelo grau de coragem - entrevista ao portal Terra (leia aqui).

Nascida em Shenyang, Manchúria, em 1967, Jin Xing - em mandarim, "Vênus" - fez em Pequim a cirurgia para troca de sexo.

-... Às vezes brinco dizendo que me sinto como uma espiã, embaixo da coberta de um homem. Aprendi por 28 anos como é um homem e o que pensam os homens. E, como uma mulher, sei o que é uma sociedade dominada por homens.

Filha de coreanos, que fugiram nos anos 50 da Guerra da Coréia, seus estudos iniciais de dança se deram no Exército.

Em 1980, conquistou o maior prêmio numa competição nacional. Aos 19 anos, ganhou uma bolsa do governo para aprender dança moderna em New York.

Nas opiniões secas, diretas, definidoras de sua relação com o regime chinês, sinais desse aprendizado.

- Eu tenho liberdade artística para fazer o que faço. Mas, pelo preço que estou pagando por isto, me deixem. Sem censura. Na China, eles checam tudo, mas ninguém vem me checar. Eu também não dou ingresso de graça para ninguém do governo. Se quiserem me ver, paguem por isto.

Seu grupo de dança contemporânea, o Jin Xing Dancing Theatre, foi fundado em 1999, em Pequim. No início deste outono chinês de 2007, ela apresentou o espetáculo "Made in China - Return of the Soul", em Shanghai, onde mora há seis anos.

Não por ser quem é, carregar a história que carrega, um espetáculo comovente. Pela leveza nos gestos de Jin e sua trupe de dançarinos, pela sutileza cirúrgica ao rasgar e penetrar na alma das várias Chinas.

A partir de uma lenda, Jin dança uma crítica aos caminhos do povo chinês; em sua opinião, com a alma capturada pelos excessos materiais.

- Os chineses já não sonham. Poucos têm "sonhos". A China já se transformou em um grande país de produção.

Por ser uma artista reconhecida internacionalmente - montou, sozinha, um festival de dança -, arrancou do governo sua posta de liberdade; algo, creiam, incomum por aqui. Mas o diálogo com o Estado por vezes é tempestuoso. Jin Xing prefere ser deixada em paz.

- Não tenho medo. Há dois anos, desde 2005, o governo me empurra para representar a China, para falar da arte chinesa. E eu já perguntei ao governo por que me escolheram e eles dizem que é porque eu sou a pessoa perfeita para apresentar a cultura e a arte chinesa. Eu digo "tá bom". Eu sei que sou uma artista, mas muito do que faço é político.

Nesta entrevista, ela fala sobre os preconceitos enfrentados após a mudança de sexo, não poupa o olhar estrangeiro, que reprova a escassez de "democracia" na China. E revela os recados que manda aos governantes. Um deles:

- Eu digo para o governo que eles precisam de propagada, precisam de cultura, e precisam de espaço para a arte. Mas, na China, isso acaba parecendo a forma de um sanduíche - arte na base, acima dela a cultura, e sempre muitos elogios à nossa cultura, blá, blá, blá. Acima de tudo, a propaganda.

Leia a entrevista completa de Jin Xing:
» "Aos 6 anos, já sabia que deveria ser uma mulher"

Terra Magazine


Exibir mapa ampliado

Tags

O que Bob Fernandes vê na Web

Favoritos

Busque outras notícias no Terra

Terra Magazine América Latina, Veja a edição em espanhol

Argentina Chile Colômbia Equador Estados Unidos México Peru Venezuela