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Quinta, 1 de novembro de 2007, 08h52 Atualizada às 14h12

Protesto na Cidade Proibida

Andréa Martins/Terra
Uma das senhoras que, à entrada da Cidade Proibida, enfrentaram policiais aos gritos
Uma das senhoras que, à entrada da Cidade Proibida, enfrentaram policiais aos gritos

Bob Fernandes
Direto de Pequim

Pequim. A menos de um quilômetro do Congresso do Povo, sede do parlamento e abrigo dos braços do poder que se auto-define como Economia de mercado socialista, os gritos lancinantes:

- Podem me bater, podem me prender e me bater, seus porcos, seus ladrões...

Os gritos são de uma senhora, aparentes 60 anos. Pernas arqueadas como as de um vaqueiro, gimba pronunciada, calças roxas imundas como a camisa cor-de-rosa de manga curta.

Os gritos, puro ódio, ecoam, atraem dezenas de homens e mulheres, fermentam o que caminha para ser multidão. Cercada por guardas de farda verde, a senhora eleva o tom.

- Neto de pu*...! Neto de pu*...!

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Agora são berros e a velha senhora ganha companhia. Chapéu claro de palha, calça jeans, sapatilha chinesa preta, jornal dobrado na mão esquerda, uma outra senhora urra.

Na camisa marrom e bege salpicada por flores, um bóton com o rosto de Mao Tse Tung. A senhora, também ela na casa dos 60, toca o rosto de Mao com o indicador da mão direita e avança sobre os soldados, agora o dedo já em riste:

- Ladrões, bandidos, vocês roubaram o dinheiro do partido, roubaram o dinheiro do povo...

Mais policiais se aproximam, mais populares se aglomeram.

A 50 metros dali, de costas para as senhoras, o enorme retrato de Mao guarda uma das entradas da Cidade Proibida, no coração de Pequim.

IMPERADORES

Cidade Proibida. Um milhão de trabalhadores ergueram 890 edificações em 150 mil metros quadrados, 9.999 cômodos e meio (dez mil, um número mágico na China, só se admite para o Palácio Celestial) espalhados por uma área de 720 mil metros quadrados.

Isto no início do século XV, entre os anos 1406 e 1421. Hoje Museu Imperial, a Cidade Proibida abrigou por cinco séculos 24 imperadores das dinastias Yuang, Ming e Qing, o último deles, Aising-Gioro Pu-Yi.

Da dinastia Manchu, que reinava desde 1644, empossado aos 3 anos de idade e deposto pela Revolução Chinesa de 1911, Pu-Yi foi o último das linhagens de imperadores que já governavam a China dois séculos antes de Cristo.

Pu-Yi habitou a Cidade Proibida até 1924 e 10 anos depois se tornaria um títere do Japão, ao ser coroado Imperador da Manchúria.

Entre 45 e 50, prisioneiro das tropas soviéticas que explusaram os japoneses de parte da Manchúria, com a ascensão de Mao Tse Tung foi entregue à China, onde seria "reeducado" e terminaria seus dias como cultivador de crisântemos do jardim botânico de Pequim e assessor da Academia de Ciências Sociais para os estudos sobre a dinastia Qing.

Bernardo Bertolucci conta a história de Pu-Yi em O Último Imperador. Numa das cenas criadas pelo cineasta, o perplexo menino Imperador se depara pela primeira vez com a multidão.

O Portão Sul da Cidade Proibida, ponto de onde os olhos de Pu-Yi descobrem a miséria, no filme, é o mesmo onde as duas senhoras enfrentam a polícia neste início de outono de 2007.

"NÃO FOTOGRAFEM"

- Me prendam, batam em mim - berra a senhora de calças roxas.

Mochila às costas, arrasta pela mão direita, protegendo como se fosse um tesouro, o motivo para o cerco dos policiais: bugigangas para vender a turistas, guardadas na maleta de rodinhas.

Um pequeno carro amarelo da polícia tenta forçá-la a deixar a entrada do Portão Sul. Os guardas, pouco mais que meninos, se aproximam, mas recuam assustados com o berreiro.

O carro da polícia avança, buzina, cerca. A senhora se ajoelha no chão, torna a se levantar e arremete contra os guardas, sempre aos gritos.

Um dos jovens policiais sorri, outro tenta agarrá-la e a senhora cospe em seu rosto, gravíssima ofensa a um chinês.

Surgidos do nada, à paisana, homens ordenam a transeuntes, enquanto esticam braços e mãos diante das lentes deste Terra:

- Não fotografem, não filmem...

A outra senhora grita ainda mais alto, dedo indicador num vaivém entre o bóton de Mao e os policiais à sua frente.

A multidão de turistas, quase todos chineses, se adensa. Os guardas optam por bater em retirada. Em vão. As duas senhoras, cada uma delas por uma rota, seguem os guardas, sempre aos berros.

O séquito de populares acompanha, aguarda o desfecho. Os guardas apertam o passo, tentam escapar em direção ao portão onde Mao Tse Tung é um retrato na parede.

- Me prendam! Batam em mim...!

A senhora de calças roxas arrasta sua dor e seu carrinho de bugigangas na perseguição. Mais alto que ela brada a senhora de roupas claras e chapéu de palha. Não há como o cortejo e o tradutor de Terra Magazine não ouvirem:

- ...vocês corromperam o partido, levaram todo o dinheiro do povo, e agora, como vamos viver?

Braço direito erguido, dentes a rilhar, o bóton de Mao a sacudir no peito, a senhora discursa ante olhos e ouvidos atentos:

- ...vocês são bandidos ou líderes do povo? Como nós vamos viver, seus bandidos? O que o povo vai comer?

Os guardas apertam o passo, as senhoras não esmorecem:

- ...bandidos... ladrões... netos de pu*...!

Gritos, em coro, outra aglomeração a menos de 10 metros de distância das senhoras.

Numa grande guarita de vidro espelhado, visão apenas para os seguranças do lado de dentro, o aviso:

- Sala Espelhada de Verificação.

Mais gritos em coro. Na parede da guarita a mensagem do então presidente Jiang Zemin, em 16 de abril de 1996:

* Exército de Força.
* Atitude de Excelência.
* Disciplina Rigorosa.
* Garantia com Força.

A velha maoísta sobrevive da cata de lixo, se percebe quando ela se aproxima da enorme lixeira e a revira com intimidade. Cinqüenta soldados gritam ainda mais, sempre em coro. Outros 12 se enfrentam.

Do coro irrompe a pergunta:

- Tô atuando bem, ou não?

- Bem!!! - é a resposta da soldadesca.

O time azul vence o primeiro quarto da partida de basquete, 20 a 18. Aplausos e vivas de meia centena de soldados do Exército de Libertação Popular.

Leia os textos do Diário da China:
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