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Segunda, 5 de novembro de 2007, 08h07

Memórias da Copa: Raymond Kopa e Just Fontaine

Fernando Eichenberg

O Brasil foi oficializado na semana passada como país sede da Copa do Mundo de 2014. A final do Mundial da França de 1998, no Stade de France, em que os donos da casa saíram vencedores, é melhor esquecer. Bem como as derrotas para os franceses nas Copas de 1986, no México, e de 2002, na Alemanha. Mas nunca é demais lembrar encontros que tive aqui com duas estrelas do futebol nascidas nos gramados da França: Raymond Kopa, 77 anos, Just Fontaine, 75 anos.

A dupla de craques franceses se consagrou na Copa de 1958, mas, desta vez, foi o Brasil o algoz e o campeão.

RAYMOND KOPA
Raymond Kopaszewski, também chamado de "Pelé branco" ou "Napoleão do futebol" (apelido criado por um jornalista inglês), acabou conhecido nos gramados como Raymond Kopa ou, simplesmente, Kopa. O nome era a marca inconfundível de dribles desconcertantes. Raymond Kopa, polonês naturalizado francês aos 18 anos de idade, abandonou cedo as profundezas das minas de carvão, onde trabalhou dos 14 aos 17 anos, para brilhar na superfície dos gramados. É dele a primeira Bola de Ouro - principal prêmio do futebol europeu - para um jogador francês, em 1958. São dele três Copas da Europa consecutivas conquistadas pelo inesquecível Real Madrid de 1957, 1958 e 1959, aquele do trio infernal formado por Kopa, o argentino Di Stéfano e o húngaro Puskas. Foi o Brasil de Garrincha, Pelé e Didi o campeão na Suécia, em 1958, mas ele é que acabou eleito o melhor jogador do Mundial, quando fez dupla no ataque da seleção francesa com Just Fontaine, até hoje o maior goleador em uma só Copa do Mundo. Raymond Kopa e Michel Platini são lembrados como os dois grandes craques da história do futebol francês.

Aos raros críticos de suas constantes investidas contra os adversários, ele relembrava as ameaças de seu técnico no clube Reims e na seleção francesa, Albert Batteux: "Se você parar de driblar, o tiro da equipe". Kopa é considerado o primeiro jogador a ser transferido para o exterior a preço de ouro, o primeiro a engordar sua conta bancária com o futebol e o primeiro a explorar financeiramente sua notoriedade fora dos campos. Na França, também foi um dos pioneiros a defender os direitos dos jogadores. Seu artigo publicado na edição dominical do jornal France-Dimanche, em 1963, intitulado "Os jogadores são escravos", lhe valeu três horas de interrogatório na sede da Liga Nacional francesa, face a uma contrariada comissão.

Habilidoso como poucos com a bola nos pés, Raymond Kopa levou dois grandes dribles fora dos gramados. A morte de seu filho Denis, de três anos, no início de 1963, causada por uma sofrida leucemia, foi sua grande derrota na vida. No mesmo ano, cansado das constantes desavenças com o novo técnico da seleção, Kopa abandonou definitivamente a equipe nacional.

Raymond Kopa adora a cada vez que ocorre uma Copa do Mundo. Não só pelo fato de o futebol ser sua maior paixão, mas porque se sente rejuvenescer: "A cada quatro anos todo mundo me procura, as pessoas falam de mim!".

Quando você começou a jogar futebol, imaginava que poderia se tornar um dos grandes craques mundiais?
Não tinha nenhuma idéia do que poderia vir a acontecer. Depois de trabalhar três anos na mina de carvão, a única coisa em que pensava era sair de lá. O futebol foi a minha saída.

Você costuma dizer que sua carreira foram "vinte anos de férias maravilhosas". Era mesmo assim que você se sentia?
Jogar para mim nunca foi um trabalho. Era esporte, e era passageiro. Eu sempre pensava: "Depois que parar de jogar futebol, vou ter de começar a trabalhar". E foi o que aconteceu. Alguns empresários sugeriram o meu nome como marca de artigos esportivos e a minha imagem como marketing, e foi criado o grupo Kopa. Mas estou em férias para toda a vida.

Como era o Real Madri de seu tempo?
Não há equipe equivalente hoje. Havia jogadores de grande classe. De todas as partidas que joguei em Madri, só perdi uma. Nos três anos que passei lá, a média de público foi 125 mil espectadores por jogo! Tive a chance de jogar ao lado de Di Stéfano, Puskas... Nós fazíamos a diferença. Quais são suas principais recordações da Copa de 1958? Nossa grande infelicidade foi ter pego o Brasil na semifinal. Éramos as duas grandes equipes daquela Copa, merecíamos ter feito a final. O jogo estava equilibrado até que perdemos um jogador. O Brasil ganharia de qualquer forma, mas não seria por um escore tão grande. Os brasileiros estavam impressionados com a nossa equipe. E, além do mais, fomos os primeiros naquele Mundial a fazer um gol no Gilmar, que estava invicto. Mas não havia jogador igual ao Garrincha. Ele e o Pelé eram os melhores.

Você acha que o a grande invasão do dinheiro e do marketing está tirando parte da magia do futebol?
Não vejo mal em um jogador ganhar muito dinheiro, desde que ele justifique em campo seu salário. O problema é que hoje o dinheiro no futebol é muito mal distribuído.

Você se arrepende de algo na vida?
Eu me arrependo de não ter permanecido cinco anos ou mais no Real Madrid, o melhor clube do mundo. Mas pensei no meu futuro e na oferta dos empresários que queriam criar o grupo Kopa.

JUST FONTAINE
Treze gols. Treze gols em seis jogos, em uma só Copa do Mundo. Treze bolas no fundo da rede e uma só assinatura: Just Fontaine. Just - assim batizado por causa de seu avô materno, um espanhol de nome Justo - Fontaine, dono de um recorde até agora imbatível, goleador incontestável de todas as Copas. A façanha, conquistada aos 24 anos de idade, foi desenhada em passes mágicos no Mundial de 1958, na Suécia. A Seleção Brasileira foi a campeã, mas não deixou de levar no troféu a marca indelével do goleador francês. Até as primeiras quatro rodadas da competição, a rede do gol brasileiro havia sobrevivido incólume, inerte, alheia à mínima brisa ou ao que se passava em campo. Então veio a França. E, com ela, aos oito minutos de jogo, a chuteira certeira de Just Fontaine, obrigando Gilmar, pela primeira vez na Copa, a ir buscar a bola na retaguarda.

Ele começou endiabrado: três gols na vitória de 7 a 3 contra o Paraguai. Ao final da partida, uma comemoração premonitória: foi erguido em triunfo pelos companheiros. Depois veio a derrota contra a Iugoslávia: 3 a 2. Os dois gols da França? Dele. Então mais um, nem que seja um, no placar favorável contra a Escócia: 2 a 1. Mais um, dois, sem perdão, contra a Irlanda do Norte (4 a 0). Cinco dias mais tarde, a decepção, mas, ao menos, o gostinho do gol pioneiro na eliminação contra o Brasil (5 a 2). Na disputa pelo terceiro lugar, a desforra: quatro bolas no alvo (França 6 a 3 Alemanha). Noves fora: 13. Estava sacramentado o recorde. Estava criada a lenda.

Ao todo, foram 30 gols em 21 jogos pela seleção francesa - "Nenhum deles de pênalti", ressalva. Just Fontaine foi ainda duas vezes goleador do campeonato francês, em 1958 (34 gols) e 1960 (28 gols). Mas o talento foi mais uma vez vítima da violência. Aos 27 anos, a tragédia. Sua genialidade foi anestesiada em uma cama de hospital, depois de duas fraturas seguidas na perna. Fim de carreira para o goleador. Depois de uma rápida experiência como treinador da seleção nacional e do Paris Saint-Germain, Just Fontaine tirou o time de campo e foi viver com a mulher em Toulouse, no sul da França. Passou a dispensar mais tempo aos dois filhos e dois netos, a administrar suas lojas de produtos Lacoste e, quando pode, descansa na sua casa de verão na Côte d'Azur.

O ídolo francês - que recebe cerca de 15 cartas de fãs por mês ("Nada mal, depois de décadas", diz) - confessa que, de vez em quando, faz uma viagem ao passado. Sozinho, assiste a vídeos do Mundial de 1958. Relembra, mesmo que não precise de imagens para fazê-lo, seus 13 gols registrados na Suécia. Treze, assim, quase de uma só vez.

Você se lembra com exatidão do primeiro gol que a Seleção Brasileira levou na Copa de 1958, obra sua?
Como se fosse ontem. Foi aos oito minutos de jogo. Vavá já tinha feito 1 a 0 aos dois minutos da partida. Raymond Kopa me deu um passe perfeito entre Orlando e Bellini. Eu passei na cruzada, driblei Gilmar, que havia saído ao meu encontro, e coloquei a bola no canto esquerdo. Não era fácil fazer gols nos brasileiros, mesmo naquela época.

Qual foi sua maior emoção em 1958?
Semifinal de uma Copa do Mundo é sempre uma emoção. Ainda mais contra o Brasil. Mas também foi emocionante o jogo contra a Alemanha, na disputa pelo terceiro lugar. Marquei quatro gols.

Que jogador mais o impressionou na equipe do Brasil?
Havia Pelé, é claro. Pensávamos: "Se ele já faz tudo isso com apenas 17 anos, o que não fará depois". Mas, para mim, o mais impressionante era Garrincha. Era um jogador fabuloso, atípico. Eu me lembro quando ele e Djalma Santos trocaram 10 passes seguidos contra a Suécia. O sueco Skoglund fez um gesto como se dissesse: "Assim eu vou embora, não jogo mais". Eu estava lá, vi tudo de perto. Garrincha provocava tanto medo nas defesas que, numa jogada, o zagueiro sueco foi recuando, recuando e quando viu estava fora do campo. A Seleção Brasileira de 58 foi melhor do que a de 70. No México, vocês tinham um bom ataque, mas o goleiro (Félix) não era dos melhores.

O que mudou no futebol nesses anos todos?
Pelo lado do espetáculo, hoje tudo é muito mais vistoso, colorido. Na tevê é possível ver tudo, de tudo o que é jeito. As bolas, as chuteiras, todo o equipamento utilizado, tudo é muito bonito. Na minha época era tudo muito pobre. Mas em relação ao jogo propriamente dito, não diria a mesma coisa. As equipes hoje jogam com poucos atacantes. É triste. Culpa dos treinadores.

Foi muito difícil ter sido obrigado, por lesão, a abandonar o futebol em 1961?
Terrível. Eu amava jogar futebol. Não se ganhava muito dinheiro na época, mas era minha vida. Havia acabado de marcar nove gols no campeonato nacional. Tinha 27 anos. Com essa idade, se tivessem sido obrigados a parar, Michel Platini não teria jogado na Itália nem Eric Cantona na Inglaterra.

Como foi sua breve carreira de treinador logo depois?
É outro recorde que será muito difícil de ser batido. Dirigi a seleção da França apenas por dois jogos. Perdi os dois. Fui colocado no cargo por um milionário comunista. Eu era o presidente do sindicato dos jogadores. Todos os presidentes de clube estavam contra mim. Tinha 28 anos. Pela lei, só poderia ser técnico com 35 anos. Todos os treinadores também estavam contra mim.

Você se arrepende de algo?
Não. Só lamento termos jogado com 10 jogadores contra o Brasil, em 1958. Teríamos perdido igual com 11, mas a diferença não seria tão grande. E sou orgulhoso de ter sido o único jogador francês a ter sido cobiçado por um clube brasileiro. O Botafogo, de Didi e Garrincha, tentou comprar meu passe.

Você tinha medo de que Ronaldo pudesse bater o seu recorde de gols em uma só Copa. Por que ele?
Porque ele nasceu no mesmo dia da minha mulher, 22 de setembro. E ela é a única mulher em relação a quem, algumas vezes, eu me inclino. A única que me faz abaixar a cabeça (risos).


Fernando Eichenberg, jornalista, vive há dez anos em Paris, de onde colabora para diversos veículos jornalísticos brasileiros, e é autor do livro "Entre Aspas - diálogos contemporâneos", uma coletânea de entrevistas com 27 personalidades européias.

Opiniões expressas aqui são de exclusiva responsabilidade do autor e não necessariamente estão de acordo com os parâmetros editoriais de Terra Magazine.
 

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