
Luiz Gonzaga Belluzzo
As maledicências sobre economistas, suas teorias, crenças e previsões correm soltas, à velocidade da peste nos centros financeiros do mundo. Na famosa ária do Barbeiro de Sevilha, Rossini faz Don Bartolo cantar a perversidade da calúnia: começa como a brisa, logo depois se transmuta no furacão.
Nos tempos de turbulência financeira, uma das mais disseminadas maledicências do repertório econômico-financeiro relata as peripécias de Alan Greenspan e dois banqueiros amigos nas ruas de Nova York. Numa esquina da cidade, os três toparam com um famoso economista acadêmico que, regularmente, enviava ao ex-chairman do Federal Reserve e-mails laudatórios à sua habilidade de policy-maker.
Ao vislumbrar o fanzoca fervoroso, o velho Alan, desesperado, tratou de advertir os companheiros da alta finança: "Rápido, vamos atravessar a rua: lá vem aquele economista da universidade X (não vou revelar o nome da escola). Ele ainda acredita que o Fed manteve a inflação sob controle com a minha política monetária."
Às vésperas de sua saída da presidência do Federal Reserve, Greenspan escreveu um artigo na American Economic Review. Em sua linguagem enigmática, o "Maestro" chamava a atenção para as alterações provocadas pela globalização nas relações entre desemprego doméstico e inflação, formalizada na famosa "curva de Phillips". Ele dizia então que "durante as últimas décadas, a inflação caiu sensivelmente no mundo inteiro, assim como a volatilidade da economia. Ainda que o completo entendimento das razões (dessa mudança) não tenha sido alcançado, a globalização e a inovação parecem elementos essenciais de qualquer paradigma capaz de explicar os eventos dos últimos dez anos".
A piada maledicente, em sua crueldade, é tanto injusta com a labuta persistente dos economistas acadêmicos, sempre dedicados às questões monetárias e às políticas de estabilização do nível geral de preços. Constroem teorias e modelos sofisticados (lembro que sofisticado vem de sophoi, cognato de sofista) como os de Michael Woodford, de "determinação do nível de preços sob as regras de manejo da taxa de juro pelo banco central". Em seu livro Interest and Prices Woodford nos presenteia com uma requintada discussão teórica sobre o regime de metas de inflação. O propósito é definir a regra ótima de reação do banco central. Em português corrente: trata-se da regra que, ao longo do tempo, fortalece a confiança dos mercados no manejo da taxa de juro de curto-prazo entregue à responsabilidade dos BCs. Ao adequar suas decisões às expectativas (racionais) dos formadores de preços e dos detentores de riqueza, os bancos centrais tornam menos custoso o processo de manutenção da estabilidade, reduzindo a amplitude das flutuações da renda e do emprego.
Em artigo recente, publicado pelo National Bureau of Economic Research, o supracitado trata dos efeitos da globalização sobre a atuação dos bancos centrais. Conclui que a acelerada integração financeira e produtiva das economias nos anos 80 e 90 deixou tudo como antes no quartel de Abrantes. O modelo de Woodford nega relevância à integração dos mercados de bens e serviços, de ativos financeiros e de fatores de produção sobre as regras de atuação dos bancos centrais. Os testes realizados por Woodford garantem que as políticas monetárias nacionais foram e ainda são as maiores responsáveis pela estabilidade de preços, se atuam de acordo com as recomendações do regime de metas de inflação ou algo assemelhado.
Muita gente boa acha que as hipóteses de Woodford deixam escapar o que há de mais relevante nas transformações ocorridas na economia mundial nas últimas décadas. Assim pensa Cláudio Bório, o economista do Bank of International Settlements, o BIS.
Ele diz nas conclusões de um cuidadoso trabalho econométrico que "nossas descobertas sugerem que os fatores globais se tornaram mais importantes do que os fatores domésticos". Bório se refere às transformações ocorridas nas condições da oferta na economia globalizada. Sem permissão do autor, eu arriscaria enumerar os processos mais importantes: 1) o deslocamento da grande empresa manufatureira para regiões onde o custo unitário da mão-de-obra é sensivelmente mais baixo; 2) a migração da mão-de-obra das regiões estagnadas da periferia para os Estados Unidos e Europa ou do campo para a cidade no interior da China; 3) as taxas de investimento espantosamente elevadas nos emergentes asiáticos de maior dinamismo; 4) a intensificação da concorrência entre os produtores nos mercados de bens comercializáveis; 5) a acumulação de reservas e os regimes cambiais destinados a manter a competitividade das exportações.
Trata-se de um "choque positivo de oferta", ocorrido depois da estagflação, a crise de "produtividade" dos anos 70 do século passado. A "expansão americana", iniciada em meados dos anos 80, depois do choque de juros de Paul Volker, só foi interrompida, até agora, por raros e passageiros episódios recessivos. Em sua evolução, o "novo regime de crescimento", não só impôs a liberalização financeira urbi et orbi, como também impulsionou a metástase produtiva para o Pacífico dos pequenos tigres e novos dragões.
A partir daí o mundo presencia um cataclismo na divisão internacional do trabalho. A Ásia se torna formidável produtora e processadora de peças e componentes baratos (sem exclusão dos bens finais). Constitui-se uma mancha manufatureira, grande importadora de recursos naturais, que pulsa em torno da China, reintegrada ao circuito capitalista desde as reformas do final dos anos 70.
As relações de troca no comércio mundial deixam de se inclinar a favor das manufaturas e contra os produtos primários. É no território dos asiáticos, de mão de obra barata, câmbio desvalorizado e abundância de investimento direto estrangeiro que se produzem as novas manufaturas competitivas. Na China os preços de exportação caíram 15% entre 1995 e 2002 e outro tanto no período posterior. Essa queda resulta principalmente dos ganhos de produtividade e da intensa concorrência entre os produtores, tanto no mercado interno como no externo. Já os preços das importações subiram acentuadamente. A divergência entre os preços provocou a queda de 28% nos termos de intercâmbio, entre 1998 e 2004.
O deslocamento das filiais em busca do global-sourcing obriga a economia nacional americana a ampliar o seu grau de abertura comercial e a gerar um déficit comercial crescente. Os produtores locais descarregam sobre os ombros dos cidadãos-trabalhadores as agruras da disciplina imposta pela concorrência estrangeira. Os rendimentos reais crescem no ritmo da lesma e os benefícios sociais oferecidos pelas empresas minguam. Mas, quando atarraxam a máscara de consumidores, os cidadãos americanos lavam a égua nos Wal-Mart da vida. Capturados pelo canto de sereias entoado pelos juros generosos do Dr. Greenspan, navegam perigosamente no maremoto de dívidas. Nas profundezas, os emergentes, com seus superávits em conta corrente e acumulação de reservas "financiam" os déficits públicos e privados do país mais poderoso do planeta.
A estratégia dos asiáticos, mais do que as proezas de Greenspan, garantiu inflação baixa e, até bem pouco tempo, sustentou a incolumidade do dólar como moeda reserva. Os Estados Unidos ganharam liberdade para a adoção de políticas monetárias e fiscais anti-cíclicas, fontes das taxas elevadas de crescimento e da inflação de ativos, esta propiciadora do efeito-riqueza, para fruição das famílias viciadas no endividamento e no hiperconsumo. A cada ciclo de expansão, eleva-se o déficit em conta corrente.
Os americanos conseguiram manejar com grande agilidade a sua política monetária, convertendo-a numa máquina de sucção de liquidez, de capitais e da "produtividade" dos trabalhadores asiáticos (e também centro-americanos) para sustentar o crescimento acelerado de sua economia, sem riscos de aceleração inflacionária. Na "outra" periferia, o controle da inflação fica por conta da valorização do câmbio, promovida pelos juros elevados e pelos mercados financeiros infatigáveis em sua busca de rendimentos.
Terra Magazine
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