Terra Magazine

 

Quarta, 7 de novembro de 2007, 08h58 Atualizada às 01h28

Waldick Soriano: "Sou da universidade da vida"

Claudio Leal

Em shows pelo Nordeste, o cantor Waldick Soriano conta uma de suas técnicas para decifrar a alma de uma cidade. O método consiste em perguntar onde fica a igreja matriz. Pois bem. Do lado oposto, está o cabaré - e Waldick.

Ele tem borogodó. Chapéu Durango Kid, mas jeito de cavalheiro, o compositor de clássicos da música romântica - não concorda com o rótulo "brega" - volta a ser disputado em lojas de disco.

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O lançamento do CD e do DVD Waldick Soriano Ao Vivo, com direção artística da atriz Patrícia Pillar, intensificou a rotina de shows do autor de "Tortura de amor" e "Eu não sou cachorro, não". Aguarda ainda o lançamento de um documentário sobre sua vida, dirigido pela amiga Patrícia.

A palavra "resgate" soa mal para qualificar o novo disco. Serve apenas aos que saíram para comprar cigarro em Plutão, há quatro décadas. A voz de Waldick nunca deixou de amaciar as feiras nordestinas, as tendas de ciganos, os bares e as gafieiras de subúrbio. Donde o "resgate" é visto por quem - na contramão da lógica waldickiana - pergunta onde fica a igreja matriz para trancar-se nela.

Em entrevista a Terra Magazine, o filho de Caetité, no sertão da Bahia - conterrâneo do educador Anísio Teixeira -, rememora os cabarés, os cantores da Rádio Nacional, a zona à beira da estrada de ferro, as palavras do pai. E papeia sobre a amizade com o casal Patrícia e Ciro Gomes. Profissão de fé, aos 74 anos:

- Acontece uma coisa: honestamente, eu nasci para cantar música romântica. Principalmente o bolero, que, dentro do romantismo, é uma música imortal. E está voltando tudo porque o povo tá com saudade, tá sentindo falta daqueles bailes... De dançar de rosto colado, levar a namorada, a esposa, a amante...

O mérito das novas gravações é o de preservar, com aprumo técnico, a atmosfera de suas velhas músicas. O senso de ironia de Eurípedes Waldick Soriano torna difícil acreditar que não tenha vencido uma só vez no amor. Mas ele faz bossa.

- A gente é feliz e não sabe, a gente pensa que é feliz e não é. A vida do ser humano é amar, sentir saudade de alguém, de alguma coisa, de algum lugar. Sentir falta de alguém, ser enganado por alguém, enganar alguém também...

Atualmente reside em Fortaleza, no Ceará, mas o espírito inquieto o fez retornar à cidade natal - às lágrimas, aclamado. De lá saiu no final da década de 50, desacreditado por amigos e parentes. Até que sua voz ressurgiu no rádio: "Quem és tu/ Para querer manchar meu nome?".

- Saí da minha terra, onde era garimpeiro (...) e falei pro meu pai: "Vou embora". Me lembro que ele falou: "Você vai, mas volta". Eu disse: "Ó, meu pai, se eu não vencer, volto. Se eu vencer, não volto mais". Tudo bem. Na mesma semana, em São Paulo, sem conhecer ninguém, nada!, fui contratado pela gravadora. Sou da universidade da vida.

Antes que a dama de vermelho saia para dançar, leia a entrevista completa de Waldick Soriano.

Terra Magazine - Por que suas músicas têm feito mais sucesso no Nordeste?
Waldick Soriano - Porque eu convivo mais aqui. O povo nordestino gosta muito de música romântica. Ou é a música autêntica nordestina, ou é a música romântica.

O senhor já se aventurou por tango, bolero, samba canção, frevo... Qual é sua formação musical?
Mesmo antes de ser cantor profissional, no sertão da Bahia, sempre fui de música romântica. Eu sou... Eu sou, não, fui acordeonista. Acordeonista, não - no interior, é sanfoneiro. Com 10, 11 anos, tocava sanfona. E cresci tocando. Naquele tempo, a gente ouvia mais música romântica. Talvez tenha nascido com o sangue de música romântica, não sei por quê. Mas eu canto qualquer estilo. Até coco! Acontece uma coisa: honestamente, eu nasci para cantar música romântica. Principalmente o bolero, que, dentro do romantismo, é uma música imortal. E está voltando tudo porque o povo tá com saudade, tá sentindo falta daqueles bailes... De dançar de rosto colado, levar a namorada, a esposa, a amante... (risos). Aí, o que acontece? Tá voltando tudo.

Suas músicas falam sempre de um amor simples, mas incapaz de dar certo. O senhor conseguiu alguma vez ser feliz no amor?
Eu não sei! Você nunca sabe quando é feliz. Às vezes, é aquele provérbio muito usado: eu era feliz e não sabia (risos). A gente é feliz e não sabe, a gente pensa que é feliz e não é. A vida do ser humano é amar, sentir saudade de alguém, de alguma coisa, de algum lugar. Sentir falta de alguém, ser enganado por alguém, enganar alguém também...

Já foi muito "enganado"?
Quem não foi, rapaz? Todo mundo...

Quando compõe uma música como "Eu não sou cachorro, não", por exemplo, o senhor pensa em alguma mulher em especial?
"Eu não sou cachorro, não" é uma música que veio assim de repente. Eu gostava muito de criar cachorro. No Rio de Janeiro, eu colecionava 11 cachorros. Então, quando eu chegava em São Paulo, para gravar, a primeira coisa que o maestro perguntava era: "Como é que vão os cachorros?". Era como se fosse uma família, né? E os cachorros, e os cachorros? Aquilo foi ficando na memória. Um dia, fui cantar em Natal. Saí do Rio de Janeiro pra Natal. Em Recife, o avião demorou uma hora. Quando cheguei em Natal, o empresário tava me esperando e abriu os braços, em tom de brincadeira: "Ô, rapaz, eu não sou cachorro, não! Lhe esperando aqui até agora?". Rapaz, você sabe que aquilo veio... No aeroporto, ele me disse: "Vamos passar na casa de mãe?". Eu disse: "Vamos". Do aeroporto à casa da mãe dele, eu fiz a música.

Quando vem uma letra dessa, anota logo em qualquer papel?
Não, não. Pra música eu tenho memória boa. "Eu não sou cachorro, não", você pode observar, é uma música romântica. Esse provérbio é muito conhecido, muito antigo. "Ô rapaz, cê tá pensando que eu sou o quê? Eu não sou cachorro, não, viu?". Em Goiás, é: eu não sou capacho seu. Capacho é aquele tapete que você põe na porta para limpar os pés, antes de entrar.

Conversei com um amigo seu de Caetité, na Bahia, e ele me disse o seguinte, com todo respeito: "Se entrevistar Waldick, pergunte aonde ele ia, em Brumado, antes de fazer um show no Cinema de Zuzu". Pode dizer?
Depois do show, a gente saía, né?

Ele falou que o senhor ia pras casas de Vavazinha, Preta...
Era pra zona na linha de ferro! (risos) Na linha de trem lá... Chegava, fazia farra, tomava a sanfona e tocava a noite toda. Eu amanhecia. Porque, naquele tempo, não tinha lugar pra você ir, né? Não tinha um restaurante pra você descansar um pouco... Hoje, não! Hoje é uma beleza. Brumado é uma grande cidade.

Não tinha e o jeito era ir para essas casas...
Em Vitória da Conquista, fazia a mesma coisa, não tinha outro lugar.

A zona?
Ir pra Zona! Hoje, Conquista é uma cidade de quase 400 mil habitantes.

Comprava muitas brigas nessas noitadas?
(risos) A idade, né? Às vezes, eu chegava no cabaré e, quando via alguém estranhar alguém, aí eu entrava no meio.

Em Caetité, o senhor curtia futebol?
Eu tive um time! (risos). Eu jogava na posição que queria. Era o dono da bola. Quando não me deixavam jogar, eu pegava a bola e ia embora. Era a maior confusão, acabava o jogo!

Em qual posição era melhor?
Qualquer uma, eu não tinha uma posição fixa.

Futebol total!
É, jogava bem. Mas time, mesmo, eu torci pelo Vasco, no tempo em que o Vasco era mais...

Na infância, qual tipo de música ouvia?
Ouvia muito os cantores românticos. Orlando Silva, Nelson (Gonçalves)... Ele morreu grande amigo meu, o que nunca pensei em minha vida!

Lupicínio Rodrigues também?
É. Era esse o pessoal que eu ouvia e já fui me enquadrando na música romântica. No interior, o povo gosta mais.

Antes de ir para São Paulo, chegou a conhecer a capital da Bahia, Salvador?
Não. Na semana em que cheguei a São Paulo, fui contratado pela gravadora. Foi uma coisa de Deus. Saí da minha terra, onde era garimpeiro. Resolvi sair e falei pro meu pai: "Vou embora". Me lembro que ele falou: "Você vai, mas volta". Eu disse: "Ó, meu pai, se eu não vencer, volto. Se eu vencer, não volto mais". Tudo bem. Na mesma semana, em São Paulo, sem conhecer ninguém, nada!, fui contratado pela gravadora. Sou da universidade da vida.

É quando grava "Quem és tu"?
Foi a primeira música que o diretor escolheu. Mas eu tinha "Tortura de Amor", "Fujo de ti"... Tenho várias músicas gravadas fora do Brasil, mas com "Fujo de ti" recebi um diploma.

Depois o senhor entrou com mais facilidade na televisão?
Mas isso foi bem depois, com Sílvio Santos, Chacrinha, Flávio Cavalcanti...

Uma vez, caiu no palco com Sílvio Santos, não?
Isso... Nós acertamos antes, foi uma gozação!

Recentemente, o senhor voltou a Caetité e recebeu uma aclamação na cidade. Esse reconhecimento é antigo ou só veio agora?
Rapaz, foi um sucesso o meu show lá. Ainda ontem, eu falava com uma sobrinha que, por acaso, passou por Caetité. E ela me disse que só se falava em Waldick, Waldick... Lá, quando eu era pequeno, a gente escutava mais as rádios de fora: a Record, a Rádio Nacional. Ouvíamos Cauby Peixoto, Ângela Maria, no início da carreira. Eram as estrelas da época. Não era fácil entrar lá. Quando saí de Caetité, as pessoas ficaram sem acreditar. Eu era conhecido como "Eurípedes". Não era Waldick. Meu nome é Eurípedes Waldick Soriano. Então, quando minhas músicas começaram a ser tocadas na rádio, as pessoas começaram a acreditar que era eu mesmo. Quando voltei, já me conheciam. Não tenho do que reclamar.

Deixou de ser Eurípedes?
Quando fui gravar, disse meu nome e ouvi logo: "Você já nasceu com nome de artista. Só vai haver um Waldick: você!".

Concorda com o rótulo de "música brega", que é grudado em compositores como o senhor e Altemar Dutra?
Concordar, a gente não concorda. Porque "brega" é usado para falar de casa de prostituição. Nesses lugares, as pessoas ouvem música romântica, mas não só nos bregas. Faço música romântica, as pessoas gostam disso. E tá voltando porque as pessoas gostam de dançar em um cabaré...

Ainda existe cabaré?
É, hoje é difícil encontrar um bom cabaré. Mas existe, sim... Aqui no Ceará tem um bom.

Onde?
Bem escondido, né? (risos)

De algum modo, se sente injustiçado por não ter sido incluído, durante muito tempo, na lista de artistas censurados pela ditadura? Só lembravam de Chico Buarque, Caetano Veloso...
Não entendo por que fui censurado. Se você ler "Tortura de amor", é uma música romântica, não tem nada sobre tortura. E sempre fui amigo dos militares, nunca fui contra os militares, sempre me dei muito bem com eles. Agora, Chico e essa turma entravam pesado contra eles... Mas eu nunca fiz música política.

Nem se interessava por política?
Não, nunca. Não gostava.

O documentário de Patrícia Pillar já está pronto?
O documentário já tá praticamente pronto. Deve ser lançado no início do ano que vem. Foram feitas muitas entrevistas... Olha, rapaz, Patrícia foi um anjo que Deus mandou pra mim. Um anjo que caiu na minha vida. Não há dia que ela não me ligue! Eu digo sempre que tenho ela como a filha que não tive. Sabe, ela é muito simples, não é de se arrumar toda, se veste como uma qualquer. Ciro (Gomes) é outro cara humilde. Chega aqui em casa e se senta no chão mesmo, sem besteira. Patrícia é uma pessoa inteligente, simples. Além do mais, mulher metida a besta é burra.

 

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