
Claudio Martini
Entre as muitas HQs expostas ou à venda durante o 5º FIQ (Festival Internacional de Quadrinhos) de Belo Horizonte, uma se destacava (e ao mesmo tempo se perdia) entre os excelentes e inúmeros fanzines e revistas independentes do stand do grupo Quarto Mundo: Música para Antropomorfos/Music for Antropomorphics.Para chegar até ela, o leitor precisa passar por várias etapas. Primeiro, uma cinta vermelha que envolve a obra e onde se descobre os responsáveis pelo trabalho: Fabio Zimbres, paulista vivendo em Porto Alegre, e o grupo Mechanics, de Goiânia. Vencida esta barreira, vem um cd com a trilha sonora/matéria de inspiração para as HQs. Depois, a sobrecapa, que se desdobra mostrando dois gigantes em meio a uma cidade inundada de edifícios - como dois monstros de filme japonês lutando em Tóquio - e com vários prédios em forma de robô cercando os personagens principais. No verso, as letras das músicas, em inglês, que estabelecem uma relação com cada um dos capítulos da HQ.
Finalmente, chegamos a um livro de pequeno formato, com capa preta, letras vermelhas, e com os dois gigantes apenas delineados em verniz sobre o fundo fosco. Nos quinze capítulos, distribuídos em 210 páginas de quadrinhos de Zimbres, vamos entrar em um universo estranho e cativante, que uma única leitura não vai conseguir mapear.
No prefácio, Márcio Jr., do grupo de rock Mechanics, nos conta como foi o desenvolvimento do trabalho. As músicas foram criadas sem as letras, depois repassadas ao artista, que criou os quadrinhos. Em seguida, os desenhos inspiraram as letras, e voltaram para Zimbres finalizar a HQ. Um alimentando e enriquecendo o outro.
No mundo desenvolvido por Zimbres/Mechanics, conheceremos SP (San Paolo) e SF (San Francesco): duas cidades-robôs ou fortalezas andantes. Eles evoluem em um mundo de pântanos, florestas, desertos e campos povoados por jacarés musculosos, vacas amáveis e cães sem cabeça. Outras histórias paralelas se desenrolam dentro e fora das fortalezas: complôs políticos, editoras dirigidas por vacas tirânicas, fantasmas dominadores usando pessoas como títeres, a dupla Primal e Tauba (que já freqüentaram a revista Ragú) construindo SF.
Com seu traço simples, mas que traz um profundo conhecimento das artes gráficas e narrativas visuais, Zimbres constrói um mundo rico, complexo e coerente, aliando os quadrinhos underground à experimentação dos graffitis e artes-plásticas, se equiparando a grandes criadores como: Alex Valauri, Leonilson, o norte-americano Basquiat e o espanhol Mariscal.
Música para Antropomorfos/Music for Antropomorphics é uma obra inovadora, potente e importantíssima para os quadrinhos, do Brasil e do mundo, pois esta junção música/hq é muito pouco explorada e que aqui foi muito bem sucedida.
Mergulhar no mundo de SP e SF é uma experiência única, onírica e caótica, regida pelos desenhos de Zimbres e pela música de Mechanics.
Terra Magazine
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Reprodução
Sobrecapa - a terceira etapa de Música para Antropomorfos, HQ notável no FIQ
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