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Quinta, 22 de novembro de 2007, 08h06

A França desconhecida de Tardi

Claudio Martini

Jacques Tardi nasceu em Valence, na França, em 1946. Tem uma extensa e premiada obra como quadrinista e ilustrador, e consegue, como nenhum outro, criar um universo gráfico único, retratando a França, e principalmente Paris, através dos séculos.

Agora, depois de uma pausa de quase dez anos, ele retorna com sua personagem mais famosa, Adèle Blanc-Sec, e acaba de lançar, pela Casterman, o 9º volume da série: Le Labyrinthe Infernal.

Fisicamente, a ruiva Adèle lembra, por suas sardas e boca, a francesa Marlène Jobert, famosa nos filmes anos 1960/1970 e mãe da atriz Eva Green, que está no último 007. Com uma personalidade forte e muita determinação, em suas "Aventuras Extraordinárias" ela se envolve em tramas complexas e delirantes, conduzidas como um folhetim, na Paris do princípio do século XX: pterodátilos e salamandras, personagens misteriosos e demônios assírios, cientistas loucos e máquinas fantásticas, múmias e monstros, subterrâneos e museus, polvos gigantes e trens descarrilados, cemitérios e pirâmides, em meio a assassinatos, segredos e complôs. E Tardi ambienta tudo isso na capital francesa, desenhando com grande naturalidade e virtuosismo as ruas, os edifícios, os monumentos, os veículos e os vestuários, como se tivesse embarcado em uma máquina do tempo e recuado até a Paris de 1920 para tomar notas e fazer seus esboços.

Essa qualidade de seus desenhos está visível em todas as épocas que ele retrata e traz à vida. Nestor Burma, sua outra famosa série, em conjunto com o escritor de romances policiais Léo Malet, tem como cenário os anos 1940/1950. O detetive Burma, que mistura características físicas de Jean Gabin e Gérard Depardieu, atravessa a capital, dos arrondissements centrais aos subúrbios, em suas investigações. Estações de metrô sombrias, avenidas submersas sob a neve, vielas castigadas pela chuva, pontes envoltas em neblina. A cidade, sempre debaixo de um clima pesado e lúgubre, determina o tom desta série primordial.

Em O Grito do Povo (Le Cri du Peuple) - a única HQ de Tardi publicada no Brasil, pela Conrad -, ele faz um retrato excepcional da Comuna de Paris, que em 1871 tomou a capital francesa com suas barricadas e passeatas.

A Primeira Guerra Mundial também é um dos temas preferidos de Tardi. Aqui ele consegue transmitir todo o horror e absurdo dos conflitos em desenhos e histórias como: 1914-1918 C'Était la Guerre des Tranchées (1914-1918 Era a Guerra de Trincheiras), Le Trou d'Obus (O Buraco do Obus) e La Veritable Histoire du Soldat Inconnu (A Verdadeira História do Soldado Desconhecido). Soldados afundados na lama das trincheiras, em meio a ratos, companheiros mortos e mutilados, rajadas de metralhadoras, vilarejos destruídos, tanques de guerra e aviões biplanos, cercas de arame farpado e granadas.

Tardi nasceu logo ao fim de II Guerra e viveu um tempo na Alemanha arrasada do pós-guerra. Começou a publicar suas primeiras histórias na revista Pilote, em 1970, e alguns anos depois também na Métal Hurlant. Teve uma importante participação na A Suivre, desde seu lançamento em 1977, onde pré-publicou a maioria de suas obras até a extinção da revista (desenhou a capa da número 0 e da última, a 239). Criou uma HQ em 1974, Le Démon des Glaces (O Demônio dos Gelos), onde homenageia, com um estilo de desenho minuciosamente trabalhado com hachuras, os gravuristas do século XIX, ilustradores de livros de ficção científica como os de Júlio Verne. Ilustrou uma infinidade de capas de livros e CDs, obras infantis, portifólios. Admirador da obra de Louis-Ferdinand Céline, ilustrou várias obras suas, e compartilha em suas HQs da visão niilista e repleta de anti-heróis do escritor.

Suas histórias em quadrinhos, com profundas raízes e referências à cultura francesa que não são divulgadas normalmente, com textos com muitas gírias e expressões do francês familiar, principalmente destinadas a um público adulto e literário, não encontram muitos fãs em países não francófonos. Uma obra que precisa ser descoberta por todos que apreciam narrativas gráficas, e que abrem as portas de uma França desconhecida, divertida, fantástica e emocionante.


Claudio Roberto Martini é designer gráfico e publisher da editora de HQs Zarabatana Books

Fale com Claudio Martini: claudio.martini@terra.com.br

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As "aventuras extraordinárias" da ruiva Adèle

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