
Daniel Bramatti
É fato que está errado o IDH do Brasil anunciado hoje pela ONU, já que foi calculado com base no "PIB velho" do IBGE. E a ONU nem pode ser diretamente responsabilizada, já que usa dados do Banco Mundial. Mas qual é o IDH correto? Eis uma pergunta com várias respostas:
A lógica
Terra Magazine, por conta própria, atualizou os dados do Banco Mundial seguindo a lógica de que, se o PIB revisado pelo IBGE é 10,8% maior, então o PIB per capita PPC (que mede o poder aquisitivo em dólares) é também 10,8% maior.
Foi essa lógica que o FMI seguiu ao atualizar seu banco de dados com o novo PIB, no mês passado, depois de cometer uma mancada em abril (leia aqui).
E essa lógica é também a seguida por Roberto Luís Olinto Ramos, coordenador de Contas Nacionais do IBGE. Consultado por Terra Magazine, Olinto advertiu que o IBGE não calcula PIB per capita PPC e que essa área é como um "pântano estatístico", dada a falta de uma metodologia única. Mas ele avalizou a simples regra de três usada pela reportagem.
A conta também foi considerada correta pelo economista Fernando Prates, da Fundação João Pinheiro, especialista em IDH.
Por essa lógica, a renda per capita PPC do Brasil sobe de US$ 8.402 para US$ 9.318, e o IDH, de 0,800 para 0,806.
O pântano estatístico
Para o Banco Mundial, fonte oficial da ONU, a conta não é tão simples. A instituição atualizou o PIB brasileiro em 10,8%, mas o PIB per capita PPC em apenas 2,2%.
Consultado por Terra Magazine a respeito desse fenômeno, o economista Changqing Sun, responsável pelo cálculo, afirmou que a entidade estima o dado com base no ano referência de 1996, ou seja, o PIB PPC de 1996 é extrapolado para os anos seguintes com base no crescimento do PIB e na variação de preços no Brasil e nos Estados Unidos. "Assim, ainda que o tamanho do PIB nominal tenha sido revisado para cima, houve pouca mudança na taxa de crescimento real e nos preços entre 1996 e 2005, e não há mudança correspondente do PIB per capita PPC."
Admitindo-se a possibilidade de que o economista esteja certo, a revisão do PIB eleva a renda per capita PPC do Brasil de US$ 8.402 para US$ 8.586, e o IDH, de 0,800 para 0,802.
Outra referência
Assim como o Banco Mundial, o FMI também calcula a renda per capita PPC, com uma metodologia diferente. Até o ano passado, as duas entidades apresentavam resultados bem próximos, com uma diferença em torno de 2,5%. Mas, após o recálculo com o "novo PIB" brasileiro, abriu-se uma divergência de quase 11%, ou US$ 8.586 (Banco Mundial) contra US$ 9.547 (FMI).
O FMI não é usado como fonte da ONU, mas, se o seu cálculo de renda per capita PPC estiver correto, o IDH chega a 0,808.
Outras variáveis
A ONU não levou em conta, no relatório do IDH, a evolução da taxa de alfabetização no mundo entre 2004 e 2005. No caso do Brasil, o analfabetismo caiu de 11,4% para 10,9% no período, de acordo com o IBGE. Isso significaria uma elevação de 0,003 no IDH final.
Outro problema estatístico: a renda per capita de 2005 foi calculada com base em uma projeção de população de 184 milhões de brasileiros. Mas a Contagem Nacional da População, feita recentemente pelo instituto, revelou que apenas em 2007 chegamos a esse número.
Levando-se em conta um crescimento populacional de cerca de 1,15% desde o Censo de 2000, havia em 2005 cerca de 180 milhões de pessoas no país, ou 4 milhões a menos.
Consultado por Terra Magazine, o IBGE afirmou que pode revisar a renda per capita de 2005, mas somente após refazer as projeções de população para o futuro. Se isso acontecer, com menos gente para repartir o PIB, a renda per capita subirá, e o IDH ganhará um acréscimo de 0,002.
Terra Magazine
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