Antonio Corrêa de Lacerda
O movimento de internacionalização das empresas brasileiras vem crescendo ano após ano. Embora faça parte de uma forte tendência internacional, no caso brasileiro há especificidades que carecem de uma avaliação mais aprofundada.A estratégia nacional de internacionalização precisa estar associada a condições macroeconômicas favoráveis. Conforme artigo publicado ontem "Dólar fraco faz Marcopolo reduzir as vendas externas" (Gazeta Mercantil, 28 de novembro de 2007, p. C5), a empresa de Caxias do Sul, conhecida por sua estratégia virtuosa de internacionalização, decidiu ampliar a nacionalização dos componentes e peças utilizadas nas montagens realizadas nos países nos quais atua. Na prática, está substituindo exportações potenciais a partir do Brasil, por fornecimento local das suas unidades localizadas no México, Colômbia, Índia e Rússia, entre outras.
Trata-se de um caso elucidativo da questão, em que mesmo uma empresa considerada referência na internacionalização de inquestionável competitividade não consegue compensar as desvantagens sistêmicas brasileiras, menos ainda com a valorização do real. As exportações, que representavam 55% do faturamento da empresa em 2005, representam hoje 42%.
Embora do ponto de vista microeconômico seja compreensível e justificavel que as empresas busquem maximizar o seu resultado, afinal, têm que prestar contas aos seus stakeholders, há questões mais amplas envolvidas. Cabe às políticas públicas não só incentivar a internacionalização das empresas, mas fazê-lo de forma virtuosa e que permita o aproveitamento de todo o potencial envolvido. Há vínculos importantes entre investimentos, comércio e tecnologia. Grande parte das transações mundiais nesses itens são realizadas por filiais estrangeiras de empresas. No caso em questão, não estamos aproveitando a oportunidade de alavancagem de exportações, uma das vantagens potenciais da internacionalização das empresas.
O Brasil, que há dez anos se coloca entre os cinco principais países em desenvolvimento absorvedores de investimentos diretos estrangeiros, convive com uma nova realidade na medida em que assume posição de destaque entre os maiores investidores no exterior. Há aspectos tanto positivos quanto negativos no processo.
Os positivos estão associados à maior robustez das empresas brasileiras, que adotaram estratégias ativas de inserção internacional por meio não apenas da exportação, mas da instalação de filiais no exterior. As vantagens estão associadas ao maior acesso ao mercado internacional de capitais, maior presença local nas várias regiões do mundo, superando barreiras tarifárias e não tarifárias. Adotando estratégias ativas de crescimento, deixam de ser alvo fácil de uma eventual aquisição por parte de um grande concorrente global.
No entanto, no caso brasileiro, o que também tem ocorrido é que devido à falta de condições mais favoráveis de competitividade, muitas empresas estão transferindo para o exterior suas operações. Fatores importantíssimos para a empresa competir em escala global, especialmente juros, financiamento, carga tributária, questões regulatórias, entraves burocráticos, e mais recentemente câmbio valorizado, têm inviabilizado a produção e exportação. São os mesmos fatores que afetam negativamente as decisões de investimentos externos no País. Isso provoca impactos negativos sobre as estruturas industriais, a cadeia de fornecedores, o emprego, a renda e o potencial de exportações, especialmente aquelas de maior valor agregado.
Há, portanto, uma diferença entre o movimento estrutural de internacionalização de empresas brasileiras, que de forma ativa ampliam sua atuação no exterior e a estratégia defensiva de empresas, que transferiram sua produção para outros países, em busca de condições mais favoráveis de competitividade. O primeiro movimento é agregador, o segundo, é substitutivo.
Como os fatores negativos podem ser revertidos, ao mesmo tempo em que os positivos podem ser potencializados, o futuro vai depender das estratégias adotadas. Isso vale não só para as empresas, agentes importantes, mas também e principalmente para políticas públicas que venham a favorecer as condições tanto para os investimentos de fora para dentro, quanto os de dentro para fora do País.