
Deolinda Vilhena
Um dos meus teatro favoritos em Paris é o Théâtre de la Ville. Nessa minha temporada parisiense, escreverei uma coluna dedicada a esse teatro, que já se chamou um dia Sarah Bernhardt. Pois foi fazendo minha assinatura anual para o Théâtre de la Ville, na temporada 2003-2004, que encontrei Laurent Laffargue. Na verdade, dos espetáculos oferecidos apenas três me interessavam realmente, mas para a assinatura precisava escolher um quarto. Optei assim meio que na brincadeira por Muito barulho por nada.Porque era um Shakespeare, e eu não tinha visto quase nada dele em Paris. Depois porque era em francês, e, na opinião de alguém assumidamente francófilo, muito mais bonito do que no original, quanto mais não seja porque francês eu entendo. E para minha surpresa, essa foi a melhor escolha da temporada.
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Numa matinê de domingo, de um mês de março do ano de 2004, descobri um jovem grande diretor, Laurent Laffargue, que hoje está na lista dos "dez mais" entre os diretores considerados indispensáveis na França.
No Théâtre de la Ville, templo e vitrine parisiense das novidades do teatro, Laurent me conquistou, assim como ao público de todas as idades graças à elegânica juvenil e a fantasia brilhante da sua concepção de uma das mais deliciosas comédias do bardo. Detalhe assustador: aos 34 anos, Muito barulho por nada era a décima-sétima peça que ele dirigia!
Nesse tarde havia um debate com a equipe artística e técnica do espetáculo. Encantada com o que vi, decidi ficar e fiz todas as perguntas a que tinha direito. Quase todas voltadas para o lado da produção. Ora, não se esqueçam que sou produtora !
Ele respondeu a todas delicadamente, com interesse e quis saber o porquê dessa minha atração pelos dados de produção. Expliquei então que era uma produtora brasileira - ele disse imediatamente que adoraria ser convidado para vira ao Brasil - e que estava em Paris preparando uma tese sobre o modelo de produção do Théâtre du Soleil. Disse que tinha um interesse especial sobre o modelo de produção francês por todas as especificidades que o compõem. Ele me propôs, ao final do debate, um encontro com Maria Claverie, administradora da sua companhia, Le Soleil Bleu (Sol Azul), dizendo ser ela a pessoa indicada para me dar todas as informações de que eu precisasse. Quase quatro anos depois, adivinhem quem enviou as fotos que abastecem a galeria da coluna de hoje: Maria Claverie. Preciso dizer mais?
Pois é, virei tiete do Laurent... E, chegando em casa, descobri que apesar de muito jovem, ele estava na luta desde 1992, quando criou no teatro do Port de la Lune sua companhia, Le Soleil Bleu. Foi rapidamente subvencionada, graças ao sucesso do espetáculo L'épreuve de Marivaux, que a colocou no ranking das mais importantes jovens companhias da Aquitaine. Entretanto, o reconhecimento nacional, chegaria com alguns anos de atraso.
Apaixonei-me pela trajetória clara e coerente do Laurent, na qual o fato de ser fiel ao teatro francês, logo, amante de Molière, Feydeau e Marivaux, não impede suas incursões pelo teatro anglófono. Passeia entre as obras de autores tão diversos quanto William Shakespeare, Harold Pinter, Edward Bond e Daniel Keene. Também não impede as oscilações complementares entre os clássicos e os contemporâneos.
Em 1995, em Cambridge, ele tem um encontro com Edward Bond, que será determinante em sua carreira. Sua montagem de Sauvés, texto de Bond, com nova tradução assinada por Jérôme Hankins, deu a ele o prêmio Rencontres Charles Dullin de direção. (Uma das característica de Laurent é de sempre encomendar uma nova tradução para os textos estrangeiros que dirige, como que numa tentativa de se apropriar um pouco mais da obra em questão).
Além disso, o encontro com Bond irá aproximá-lo das obras de Brecht e Shakespeare, ele montará Homme pour homme e depois Sonho de uma noite de verão e Othello. Com esse díptico, ele percorre a França durante três temporadas consecutivas, aclamado unanimemente pelo público e pela crítica que descobre nele muito mais que o entusiasmo de um jovem talento, mas um esteta, sem medo de ao optar pela quantidade de perder em qualidade. Caracterizado por uma espécie de bulimia criativa, mostrando-se um apaixonado pelo jogo em todos os sentidos do termo e, talvez por isso, seus encontros com Shakespeare tenham sempre resultado em um enorme êxito.
O jovem mosqueteiro do teatro, como é chamado por críticos como Fabienne Pascaud, da revista Télérama e Marion Thébaud do jornal Le Figaro, que eu acabara de descobrir já havia mesmo recebido, em maio de 2002, o prêmio Jean-Jacques Gautier. Outorgado pelos críticos de teatro, pelo conjunto de sua obra, coroado pelo sucesso da montagem de Terminus, do autor australiano Daniel Keene, encenado pela primeira vez na França.
Meu reencontro com o teatro de Laurent Laffargue se dará exatamente com um texto de Daniel Keene, Paradise. Em dezembro de 2004, com meia dúzia de três ou quatro amigos brasileiros, parto em direção a Aubervilliers, um subúrbio ao norte de Paris. O teatro do Centro Dramático da cidade foi transformado em night-club. O público é recebido pelo "dono do cabaré" e o espetáculo começa.
Daniel Keene assim apresenta os personagens de Paradise: "para se ter uma idéia, o dono do cabaré é um bebâdo, sua mulher está à beira de um ataque de nervos, o porteiro é cocainômano, a garçonete está convencida de que é a reincarnação da Rainha da Espanha, o DJ acabou de sair da prisão, as strip-teasers ameaçam fazer greve e entre os espectadores dessa noite, dois se preparam para cometer um crime..."
Paradise é um misto de carnaval do sexo e esquecimento de si mesmo, onde se misturam beleza e grotesco, ilusão e realidade, um lugar onde tudo pode acontecer. Segundo Laurent, foi a maneira que ele encontrou para poder falar da noção de limites, de ir até a fronteira entre tudo o que é possível e aquilo que não é.
Na época, Laurent Laffargue escreveu:
"Como a sociedade é o lugar de todas as subversões, elas são sempre tentadas a controlar a sexualidade: o retorno da ordem moral, que constatamos hoje, é a prova disso... O sexo nunca causou tanto medo. É este medo, e todos os sintomas que a ele estão ligados (perversão, vergonha, controle dos costumes etc.), que eu gostaria de explorar.
Queria propor uma temática que implica fortemente o espectador e o conduz a uma forma de experiência específica, diferente. Precisava encontrar uma forma de expressão direta, frontal, em ligação com o presente, o intímo, o universal... Aqui e agora. A sociedade instaurou códigos que nos servem para viver juntos, mas que impõem limites. A integração dos códigos é por conseguinte uma alienação, uma perda de liberdade e de identidade. Tranqüilizam o indivíduo, dão-lhe a impressão de dominar o mundo, mas criam também seus contrários: o medo do desconhecido, o desejo da transgressão.
Neste espetáculo, tenta-se criar novos códigos, ao mesmo tempo familiares e estranhos, e interrogamo-nos sobre os nossos: onde é o limite? Onde está a transgressão? Os assuntos ligados a experiência sexual são dos mais "codificados" - o Código penal serve de testemunha - e um dos mais incontroláveis: é onde o indivíduo questiona sua relação com o mundo, e a sua adesão à ordem social."
O resultado foi mais um espetáculo aclamado pela crítica. O público, limitado a 180 pessoas por apresentação, por conta da ambientação cênica, disputava os ingressos noite após noite. Armelle Héliot escrevia: "Laurent Laffargue é um artista que em poucos espetáculos se afirmou como um dos jovens artistas com os quais a arte dramática poderá contar nos próximos anos...". A estrela sobe...
Em outubro de 2005, mais uma vez atravesso Paris, dessa vez para chegar ao Théâtre de l'Ouest Parisien, em Boulogne-Billancourt, para ver a mais recente criação de Laurent Laffargue: Du mariage au divorce, quatro peças curtas do rei do "vaudeville" Georges Feydau. Podem torcer o nariz... Feydau? Exatamente, depois de Shakespeare e Daniel Keene, chegara a vez de ver Feydau.
Confesso que a depressão crônica tem sido a marca das temporadas parisienses. Laurent nos propõe uma dose de alegria revisitando Feydeau num tema que lhe era caro: o casal e a sua separação.
Com Feu la mère de Madame (1908), Léonie est en avance (1911), Mais n'te promène donc pas toute nue! (1911), Hortense a dit : Je m'en fous! (1916), Laurent nos presenteia. Um Feydau que desliza o seu olhar de entomologista da graça humana na intimidade doméstica envenenada no dia-a-dia, quando o fogo da paixão transforma-se em mera faísca. A crítica e o público aplaudem e comprovam que estes retratos de casais banais feitos por Feydau "não ganharam sequer uma ruga".
Que imaginação, que direção! Tudo é feito para nos deslumbrar. São os comentários à saída do teatro. E a sensação de que se Feydau desenhava o retrato dos casais de seu tempo, Laurent, servindo-se de elementos cenográficos e cercado por atores de primeiríssima qualidade, algo fundamental para esta máquina de representação que é o teatro de Feydau e uma constante nas criações de Laurent Laffargue, consegue com sua leitura dar atualidade aos temas abordados. Em cena o que vemos são os casais de hoje (de sempre?) com seus ideais, suas realidades mesquinhas.
Três espetáculos diferentes, três momentos de teatro e todos absolutamente geniais... Não por acaso Laurent Laffargue conquistou seu lugar no teatro francês num momento em que a renovação se faz sentir de maneira impressionante - falaremos dela em breve, para ver se bons ventos aportam ao Brasil. Afinal, com ele o teatro vive sob o signo da paixão e do instinto, não por acaso ele diz que seu teatro é uma festa, baseado numa enorme vontade de dividir. E cita a frase de Antoine Vitez, "um teatro elitista para todos", dizendo que é exatamente isso que busca fazer.
Janeiro de 2007, enquanto aguardo a data da minha defesa de tese, confiro a temporada 2006/2007. Espero com anisedade a estréia do novo espetáculo de Laurent, Os gigantes da montanha, de Luigi Pirandello. Dessa vez Laurent pegou pesado. Para mim, não se pode gostar de teatro e ser insensível aos Gigantes da montanha. Mas depois de Giorgio Strehler, é uma ousadia... Mas, para mim, é um momento de pura felicidade, para mim e para todos os que amam "teatro dentro do teatro". E nisso Pirandello é mestre. Quem mostra com mais ternura a grandeza e a miséria diária do trabalho teatral? E depois, o texto de Os gigantes nos permite questionar a existência da poesia no mundo moderno e as relações complexas entre o artista e o mundo, entre o real e o imaginário.
Além disso, o elenco de Os gigantes da montanha trazia a presença de Hervé Pierre, um dos maiores atores dessa geração e que há muito desejava conhecer. Parece que não apenas eu, pois Muriel Mayette, administradora geral da Comédie-Française, tratou de levá-lo para a Maison de Molière logo após o final da temporada de Os gigantes no Théâtre de la Ville.
Mais uma vez Laurent se superou, com uma direção poderosa, capaz de eliminar os limites entre a vida e o sonho. Talvez sua crença no teatro seja responsável por parte desse sucesso. Em entrevista à revista Avant-scène théâtre, ele afirmava crer "profundamente no teatro. Eu creio na escuta que nós ali temos. Eu creio na luz que se apaga e se reacendendo torna vísivel um mundo desconhecido. Mesmo se trabalhando sobre Os gigantes da montanha eu tenha duvidado disso tudo mais do que nunca!".
Pois não é que serei outra vez obrigada a atravessar Paris, rumo a um outro subúrbio? Pois é, nos dias 29 e 30 de janeiro, Laurent apresentará pela primeira vez na região parisiense sua mais recente criação, Depois do ensaio, de Ingmar Bergman (filme de 1984), no Théâtre des Louvrais em Cergy-Pontoise.
Nos programas dos teatros que vão acolher Depois do ensaio, é dito que Laurent inscreve sua nova criação na continuidade dos Gigantes da montanha de Pirandello. Entre realidade e ficção.
Na sinopse de Depois do ensaio, consta que a peça é o sonho de um diretor que desfila sua vida. Que em apenas noventa minutos, Ingmar Bergman oferece-nos uma mostra de sua obra, fala da magia dos bastidores, da sua paixão pelo atores (e pelas atrizes!), do medo da morte, da velhice, dos casais dilacerados, do ódio de uma jovem mulher por sua mãe. Nesta reflexão meticulosa sobre a sua arte, o diretor reinterpreta os momentos fortes da sua vida, cercado por duas atrizes que não sabemos se reais ou parte de um sonho. Bergman reescreve os laços que unem o trabalho entre o diretor e sua atriz e que acabam por governar suas vidas. Eles se observam, detectam as falsas aparências, cada um se expõe e se protege, alternando os papéis de vítima um do outro.
O trio de atores escolhidos é composto por Fanny Cottençon, Céline Salette e Didier Bezace no papel de diretor. Ator, diretor do Centro Dramático Nacional de Aubervilliers, co-fundador do Théâtre de l'Aquarium, um dos cinco teatros da Cartoucherie de Vincennes, Didier Bezace é conhecido por um jogo de cena que contém ao mesmo tempo uma certa delicadeza, um encanto discreto e uma fantasia insuspeita.
Além de dirigir teatro, Laurent desenvolve desde 1999 uma carreira de diretor de ópera, graças a uma parceria com a Ópera de Bordeaux onde dirigiu sua primeira ópera, o Barbeiro de Sevilha de Rossini. Em 2002 seria vez da criação de Dom Giovanni de Mozart e em maio de 2005, a convite da Ópera de Strasbourg, dirige Les Boréades de Rameau.
Um dos projetos de Laurent Laffargue - e nele aposto todas as minhas fichas - é adaptação para teatro do único romance de Bernard Marie Koltès, La fuite à cheval très loin de la ville. Acabou sendo adiado por falta de "parceiros"... Como vocês podem ver, dificuldade não é um privilégio dos talentos brasileiros...
Um dos meus projetos é trazer Laurent Laffargue ao Brasil, seja com um espetáculo, seja para dirigir um espetáculo criado aqui, seja para dar uma oficina de direção. O importante é que ele venha.
Para isso, preciso convencer alguns parceiros do lado francês, para que eles compreendam que circo, novo ou velho, temos muito por aqui. O Brasil é ele mesmo um picadeiro. Mas que falta nos faz receber bons espetáculos de teatro, e a França nesse momento é celeiro de toda uma nova e talentosa geração que nós precisamos conhecer...
Au secours! Jean-Martin, Philippe, Dimitry, M. Colombier, Monsieur l'Ambassadeur, Olivier Poivre D'Arvor... Quem se habilita a nos oferecer o fillet mignon do teatro francês?
Queremos Laurent Laffargue, Olivier Py, Emmanuel Demarcy-Mota, Joël Pommerat, Marcial di Fonzo Bo, Jean-François Sivadier, Christophe Rauck, Stéphane Braunschweig. Artistas que têm entre 35 e 45 anos, que estão em plena maturidade criativa e são a mais perfeita tradução de uma geração francesa bem sucedida.
Pois é essa a França que esperamos receber não apenas em 2009, mas em 2008, 2010 e sempre. Afinal, depois do Théâtre du Soleil, estamos mais exigentes!
Terra Magazine
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Divulgação
Laurent Laffargue, diretor francês que montou, entre outras, Os gigantes da montanha, de Luigi Pirandello
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