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Sábado, 1 de dezembro de 2007, 12h02

O socialismo difuso do comandante Chávez

Gerhard Dilger, especial para Terra Magazine
Caracas, Venezuela

Na tarde ensolarada da sexta-feira, o ambiente no centro de Caracas era de festa popular. A "maré vermelha" tomou a avenida Bolívar mais uma vez. Dezenas de milhares de seguidores de Hugo Chávez participaram do encerramento da campanha eleitoral oficialista para o referendo sobre a reforma constitucional.

"Essa patética marcha da oposição de ontem foi a nossa maior motivação", diz Juan Martínez, 48. O membro de uma cooperativa de pequenos agricultores na região do Barlovento, a duas horas de Caracas, não tem dúvidas sobre a vitória do "sim", neste domingo.

A proposta de reforma apresentada por Chávez e o parlamento modifica 69 dos 350 artigos da Constituição atual, aprovada em 1999, no primero ano do governo chavista. Com ela, o presidente quer encaminhar sua "revolução bolivariana" rumo ao "socialismo". Mas, dessa vez, a história das nove votações populares que Chávez tem ganhado amplamente, em nove anos, não deve repetir-se tão facilmente. As críticas não se limitam à oposição conservadora e desacreditada.

"A reforma foi elaborada sem debate nas bases", lamenta Martínez. "Chávez nunca teve um projeto coerente, ele é um resultado da correlação de forças na sociedade. Eu gostaria de ver um socialismo participativo bem definido, mas tem uma dificuldade: a maioria dos venezuelanos não gosta do socialismo, somos o povo mais consumista do mundo." Ele faz uma comparação com os primeiros anos da revolução cubana: "Os revolucionários foram nos últimos recantos do interior, e não saíram até ter explicado todos os detalhes da sua proposta."

Intelectuais de esquerda como Margarita López Maya criticam a velocidade e a falta de transparência do processo: "Se nós não sabemos o que entender como socialismo do século 21, por que isso tem que ser introduzido tão afobadamente numa nova Constituição?" questiona a historiadora social.

"Se essa reforma for aprovada, teremos muitos problemas de inestabilidade política", diz López Maya. "Forçar processos sem convencer e negociar significará ingovernabilidade." Para ela, o movimento de estudantes oposicionistas que tem desafiado Chávez nos últimos meses é conseqüência duma "falta de representação e mediação": "Os partidos políticos são incapazes de expressar o mal-estar da sociedade".

"Não somos de direita, queremos pluralismo e igualdade de oportunidades", diz o estudante de ciências políticas Yoel Rojas, 20. Para ele, Chávez busca chegar ao "castro-comunismo". A sua colega Roa Aythanyady dispara: "A reforma é excludente. Uma constituição deveria ser para todos os cidadãos."

Essa não é a preocupação dos manifestantes na avenida Bolívar. Muitos chegaram em ônibus fretados por administrações municipais chavistas. Juan Peña, 18, de Mérida, tem se beneficiado dos programas educacionais do governo. "No nosso bairro, o jovens são formados e depois empregados em projetos para melhorar a infra-estrutura", conta. No marco da "Missão Ernesto Che Guevara", ele participa de um curso de seis meses em eletrônica automotriz.

O seu vizinho Pastor Moreno integra um "batalhão" do recém-formado Partido Socialista Unido da Venezuela. Ele minimiza as tendências autoritárias do projeto de reforma: "Na realidade, Chávez aspira a um socialismo 'light' para controlar o capitalismo voraz", diz ele. "Aqui não tem espaço para um socialismo repressivo nos moldes do modelo soviético."

Com a reforma, o presidente mexeria no sistema político para enfraquecer funcionários corruptos e ineficientes nos níveis intermediários do chavismo. "Ele que criar vínculos diretos com as bases", acredita Moreno. A exemplo das inúmeras "missões", a criação de estruturas paralelas seria a solução para contornar a pesada burocracia estatal. A possibilidade de reeleições indefinidas para Chávez seria mais uma arma contra o poder dos novos "boli-burgueses".

Nos últimos dias, o presidente tem anunciado a conformação de novas províncias. Três estados ocidentais seriam integrados numa "província dos Andes", administrados por um vice-presidente nomeado por Chávez. Através do manejo de recursos inflados pela bonança petroleira, o presidente impulsionaria o "poder popular".

"Com Chávez, é o povo que governa" é um slogan onipresente e retomado pela campanha pelo "sim". A oposição ainda é identificada com as forças responsáveis pelas medidas neoliberais que, nos anos 80 e 90, empurraram milhões para a pobreza e a miséria. "No volverán, no volverán", cantam os manifestantes.

"A reforma poderia dar um novo impulso a concepções participativas", espera o ativista José Bonilla, 61, crítico dos rasgos militaristas presentes na proposta da reforma. "Confio no poder de novas idéias introduzidas na Constituição, como as comunas, uma base possível do autogoverno." Mas esse caminho é apenas uma opção, diz Bonilla. "Até agora, o socialismo do Chávez é uma mistura difusa de tradições cristãs, indígenas, social-democratas e trotskistas."

Nos seus discursos de campanha, o auto-proclamado "socialista do século 21" tem insistido no papel central do Estado na economia, mas ele evita entar em detalhes. Em vez disso, tem reforçado a sua estratêgia preferida - personalizar e polarizar: "Os que votam pelo "sim" estarão votando por Chávez", grita, no evento de encerramento, "Os que votam pelo 'não' estarão votando em George W. Bush."

 

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