
Gerhard Dilger, especial para Terra Magazine
Caracas, Venezuela
Desde as 6h (8h em Brasília), venezuelanos e venezuelanas estão votando sobre a proposta de reforma constitucional de Hugo Chávez e da Assembléia Nacional. Na urbanização de Las Mercedes, no município de classe média-alta de Baruta, o líder estudantil Yon Goicoechea fez um apelo à população: "Essa é a oportunidade, não deixem passá-la, não entreguem a Venezuela, não entreguem o seu futuro, votem com esperança".
Goicoechea é o representante mais conhecido do movimento dos estudantes oposicionistas que organizou inúmeros protestos de rua nas últimas semanas. Mas o maior desafio ao projeto de Chávez de acelerar a transformação da Venezuela numa sociedade socialista não vem dos estudantes, e menos ainda da oposição de direita. Esse desafio tem a cara de um prestigioso general aposentado chamado Raúl Isaías Baduel. O militar, de 52 anos, um dos camaradas em armas mais antigos e mais leais ao presidente, foi ministro de Defesa até julho de 2007.
Leia também:Seu escritório, lotado de figuras de santos e guerreiros, se transformou num verdadeiro lugar de peregrinação para jornalistas venezuelanos e estrangeiros. Baduel concedeu sua última entrevista coletiva 24 horas antes do início das votações, insistindo que a reforma seria "uma fraude constituinte em curso" e um "golpe de estado".
"Se fizermos uma avaliação cruzando todas as mudanças, veremos que a proposta do governo causa impactos a nada menos que 250 artigos constitucionais. Portanto, estaremos diante de uma nova Constituição", diz o general. Sua postura deve influir sobre a faixa do eleitorado que poderia decidir o referendo, os simpatizantes mais críticos da "Revolução Boliviariana".
Depois da sua primeira declaração pública, no início de novembro, Baduel virou o porta-voz mais admirado ou desprezado do "não" - segundo ele, a "única arma democrática e cívica possível". Para os chavistas incondicionais ele é simplesmente um "traidor".
A acusação se explica pela sua biografia. Em 17 de dezembro de 1982, Chávez, Baduel e mais dois companheiros pára-quedistas do Exército se reuniram sob a mitológica árvore Samán de Güere, a mesma freqüentada pelo libertador Simón Bolívar (1783-1830). Com o juramento de lutar "até quebrar as correntes que nos aprisionam seguindo a vontade dos poderosos", fundaram o Movimento Bolivariano Revolucionário 200, a célula originária das forças heterogêneas que levariam Chávez à sua primeira vitória eleitoral, em dezembro de 1998.
Em abril de 2002, durante o golpe de estado de 48 horas contra Chávez, Baduel organizou a reação: o comandante do batalhão pára-quedista de Maracay pediu publicamente a restituição da ordem constitucional e ameaçou com uma intervenção armada. Foi a virada: sob os aplausos de dezenas de milhares de seguidores do presidente, soldados leais expulsaram os golpistas do palácio Miraflores, preparando a volta triunfal do presidente.
"Não descarto incursionar no âmbito da política", diz Baduel - e alguns oposicionistas já vêem nele uma figura possível para uma "transição" rumo a uma retomada de um sistema de democracia liberal - um cenário impensável há um ano, quando o general se pronunciava a favor do "socialismo do século 21" em termos parecidos com os de Chávez. Mas Baduel evita falar em candidatura presidencial.
Seja como for, as declarações do general são coerentes. Para ele, a abstenção, opção apoiada durante meses pela oposição "dura" dos social-democratas e dos democratas-cristãos, "apenas favorece que essa fraude constituinte em curso seja aprovada".
Mas ele também tem criticado os protestos dos estudantes: "Como soldado formado na administração da violência legítima do Estado, me preocupa que os protestos de rua possam ser o início de um processo de violência generalizada, de confrontação e de instabilidade".
"A única opção válida é o exercício da cidadania por meio do voto, para que todas essa pretensões de golpe de estado sejam derrotadas", diz Baduel. Para ele, os problemas mais urgentes da Venezuela - "inflação, ameaças à segurança pessoal, escassez de produtos básicos, déficit de moradias e o estado desastroso da educação e da saúde" - não serão resolvidos pela reforma constitucional.
O católico fervoroso, admirador de filosofias orientais e vegetariano não compartilha com o alarmismo dos que prevêem um desfecho violento para o referendo. Para o futuro imediato, ele já maneja várias opções. Depois de uma eventual vitória do "sim", quer seguir pressionando para que a Justiça revise o processo - uma via que hoje parece ter poucas possibilidades de sucesso.
Independentemente dos resultados, ele já apóia a convocação de uma Assembléia Constituinte: "Abre-se uma nova dinâmica política, favorável a todos os setores do país. Temos que aproveitá-la para melhorar e aprofundar as conquistas da Constituição de 1999".
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