
Antonio Risério
Ao contrário da maioria dos meus amigos, nunca gostei muito de viajar. Melhor dizendo, adoro estar em outra cidade, conhecer mais um lugar. O que sempre me incomodou foi o trajeto, o deslocamento. Adoro ir de carro a um lugar próximo, de Salvador para Cachoeira, Praia do Forte ou Mangue Seco, por exemplo. Mas passar horas dentro de um avião nunca esteve entre os meus esportes favoritos.Na adolescência, meu pai me deu de presente, certa vez, uma passagem para os Estados Unidos. O velho não era rico ("um homem de bem, não um homem de bens" - como dele disse o escritor Mário Cabral): comprou a passagem a prestação. E eu acabei não indo. Vendi a passagem a um amigo. Comprei livros maravilhosos. Só botei os pés nos EUA muitos anos depois. Minhas viagens à Europa só aconteceram depois dos meus 40 anos de idade. E já recusei convites para idas rápidas ao "velho continente", a fim de participar de encontros intelectuais. Viagem rápida, jamais.
Se, na adolescência, já não era fã de pegar jatos, hoje, a coisa piorou. A permanência dentro de um avião é uma coisa quase dolorosa para mim. Acho tudo incômodo: ficar sentado, ir ao banheiro e, sacrifício supremo, não poder fumar. De alguns anos para cá, só tenho viajado a trabalho. Para fazer um frila, me engajar numa empreitada, participar de um evento. Mas, se não gosto da viagem, adoro, como falei, estar em outro lugar. E foi assim agora, quando passei uns dias em Natal, no Rio Grande do Norte, para participar de um encontro de escritores.
Logo de cara, ao entrar pela primeira vez no bar do hotel, antes de seguir para o local do evento, encontrei a bela Janaína e seu pai, o cineasta Ruy Guerra, de charuto aceso na mão. Ruy foi descansar. Pedi um uísque, acendi o cigarro e fiquei papeando com Janaína. Entra então o poeta João Bandeira, que pede um café. Mas é hora de ir para o evento. Vamos. E vêm mais encontros e reencontros: o músico Cid Campos, os poetas Chacal e Fausto Nilo, a escritora Heloísa Buarque de Holanda. Depois da mesa de comunicações e discussões, fomos a um bar-restaurante, boa comida em mesas ao ar livre, na gostosa noite natalense.
Natal é realmente uma cidade muito bonita. Peço uma cerveja gelada sob o sol brilhante. Fico sentindo a brisa do mar, olhando as ondas da praia, curtindo o ir e vir das pessoas. E, claro, demoro-me a contemplar a beleza das jovens mestiças potiguares. Mas, ao mesmo tempo em que nos alegra, com a sua luz e as suas cores, Natal é também - como todas as capitais brasileiras, hoje - uma cidade que entristece. Que nos deixa com o coração ferido.
Mais do que uma, Natal são duas cidades. Duas cidades claramente apartadas, que se desconhecem. Uma é a Natal dos privilegiados, que vivem na região das praias turísticas, nas redondezas do Parque das Dunas, enfim, nas zonas leste e sul do espaço urbano, que ganham sempre mais investimentos e são as estrelas citadinas da mídia local. Outra é a Natal dos pobres, dos miseráveis, dos excluídos, que vivem nas zonas norte e oeste. A Natal das carências físicas e sociais. A Natal que fornece a carne humana para a prostituição e o tráfico de drogas.
Esta paisagem dupla de Natal entristece. A beleza natural da cidade não tem qualquer correspondência em termos de beleza social. Muito pelo contrário. E esta é a barra pesada do Brasil de nossos dias. Nosso país se converteu em verdadeiro e vergonhoso escândalo social e cultural. Nosso povo precisa de uma vida mais limpa e mais saudável. Uma vida com mais escolas e menos fome, com mais empregos e menos dor, com mais saúde e menos crimes.
Mas tenho de pegar o avião de volta, pelo meio da madrugada. Passo ainda alguns minutos na varanda do quarto do hotel, olhando para o céu aberto e curtindo os sons da noite, trazidos pela mesma brisa marinha. E a verdade é que não tenho como não deixar esta cidade dividida de modo igualmente dividido. A beleza natural do Brasil deveria nos fazer sentir, diariamente, envergonhados com a nossa feiúra social.
Terra Magazine
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