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Segunda, 10 de dezembro de 2007, 15h50

Debilitado, bispo diz que não pára greve de fome

Diego Salmen
Especial para Terra Magazine

Em entrevista exclusiva a Terra Magazine, o bispo d. Luiz Flávio Cappio diz que se recusa a encerrar a greve de fome contra a transposição do rio São Francisco - mesmo que isso lhe custe a vida. Convicto, ele critica a maneira autoritária com a qual o projeto vem sendo implementado e acusa o governo de mentir quanto aos propósitos da obra:

- A transposição não é para o povo. Quando o governo diz que vai atingir 14 milhões de pessoas, não é verdade, isso é uma propaganda enganosa. O governo nunca quis assumir essa mentira.

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Esta é a segunda vez que Cappio entra em jejum para lutar contra a obra do governo federal; na primeira, em 2005, o protesto foi encerrado no 11º dia de greve, após a assinatura de um acordo entre o religioso e o presidente Lula. Nele, segundo Cappio, o governo se comprometia a colocar o projeto em discussão junto à sociedade e o compromisso não foi cumprido.

- Eu já fui enganado uma vez. E não quero ser enganado outra.

Cappio afirma que o governo não tem interesse em ajudar a população afetada pela seca. Para ele, se esse fosse de fato o desejo das autoridades, o primeiro passo deveria ser assistir as comunidades ribeirinhas - o que, diz, não acontece.

- Moro na beira do rio há 33 anos e nem onde o rio passa naturalmente o povo é assistido. O interesse das águas não é o povo, são os grandes interesses econômicos e empresariais.

Cappio entra nesta quinta-feira no 15º dia de greve de fome. Na última vez em que se pesou, por volta do nono dia de jejum, já havia perdido mais de 3 kg. Desde então, ele vem sendo acompanhado diariamente por um médico e uma nutricionista.

No domingo, o bispo participou de um ato ecumênico em apoio ao protesto na cidade baiana de Sobradinho, a 554 km de Salvador. O evento contou com cerca de 6.000 pessoas, entre fiéis, religiosos e membros de movimentos sociais e comunidades quilombolas da região.

- Eu estou bem. Fisicamente um tanto debilitado, são 14 dias de jejum, então você pode imaginar que eu esteja debilitado. Mas estou bem tranqüilo.

A seguir, a íntegra da entrevista com o religioso:

Terra Magazine - A greve de fome é uma forma legítima de protesto?
D. Luiz Flávio Cappio -
Deixa eu explicar: a primeira greve de fome que foi há dois anos, nós fizemos porque à época a obra não tinha nem sido iniciada. Nós tentamos de todas as maneiras dialogar com o governo, porque a sociedade civil queria, em se tratando de uma obra com a magnitude de um projeto de transposição. Quando eu digo "eu", não sou só eu, mas os movimentos sociais, os movimentos de base que queriam participar disso. Infelizmente não nos deram chance, nós não fomos ouvidos em todas as nossas tentativas de participação. E quando a obra estava para ser implementada, nós assumimos o jejum como um grito para sensibilizar as instâncias superiores do governo. E realmente aquele grito foi muito alto e conseguimos sensibilizar. Foi feito um acordo, assinado entre o presidente da República e mim e assumimos um compromisso, através do então ministro Jaques Wagner (NR: à época ministro das Relações Institucionais). Diante desse compromisso assumido entre nós, eu representando a sociedade civil e ele o governo, assumimos essa postura de iniciar um amplo diálogo, o mais participativo, transparente e verdadeiro possível para que nós chegássemos a um denominador comum. E por isso eu encerrei o primeiro jejum, na certeza de que esse diálogo aconteceria. Mas nesses dois anos tentamos abrir o diálogo e não conseguimos, o governo se manteve fechado, não se abriu de forma nenhuma e como resposta tivemos o início das obras utilizando o Exército. Um absurdo; além de não cumprir um compromisso, ainda utilizando as Forças Armadas, que têm outras funções no cenário nacional, para realizar essa obra de transposição. Então nós vimos aí um abuso de poder, um autoritarismo sem limite e uma imensa falta de respeito ao povo ribeirinho e ao rio São Francisco. E por isso nós retomamos o jejum.

O governo não tem o direito de fazer a transposição, uma vez que seu projeto foi eleito legitimamente pela maioria da população?
Então você estaria justificando uma ditadura. Quando alguém tem o poder e acha que pode fazer independentemente de qualquer participação e opinião popular. E isso nós não podemos admitir num país democrático. Se nós analisarmos o processo jurídico (da transposição), ele está cheio de imperfeições. Ele está esperando o julgamento no STF. O governo não respeitou os mínimos princípios democráticos na realização desse projeto. Ele passou por cima de tudo e iniciou a obra com atitudes impositivas, por meio de medidas provisórias, sem respeitar as mínimas condições do direito. É um processo muito polêmico, que não pode ser levado assim a trancos e barrancos porque são bilhões em dinheiro público, não podemos permitir que o dinheiro da nação seja jogado pelo ralo num projeto que não foi discutido com a nação e está cheio de imperfeições jurídicas. Não podemos admitir uma coisa dessas. Então é por isso que estamos aqui e o que exigimos para levar adiante qualquer tipo de diálogo é "vamos parar esse negócio", "vamos tirar as tropas". E depois vamos conversar.

A greve de fome não é um ato contra a própria vida, o que é condenado pela Igreja?
Se você fala isso, você está questionando a própria atitude de Jesus Cristo. Ele deu a sua vida, ele ofereceu, ele entregou a sua vida pelos teus. A Igreja foi construída ao longo dos séculos sob os alicerces do sangue dos mártires. Eles se doavam, e nós temos exemplos maravilhosos de homens e mulheres que ofereceram a sua vida. Se você olhar no Evangelho de São João, capítulo 10, lá está a doutrina do bom pastor, que é aquele que dá sua vida pelo rebanho. Eu não quero morrer, não. Eu quero viver, eu tenho muito amor à minha vida, a minha vida tem dono. E é justamente pelo amor que eu tenho ao dono da minha vida que eu ofereço a minha vida por ele.

A CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil) está apoiando a greve?
Alguns bispos são contrários, uma minoria. Aliás, você nunca vai encontrar unanimidade em lugar nenhum. Mas a grande maioria (está apoiando).

Qual a melhor maneira de combater os problemas da seca, que não a transposição?
Esse ano o governo publicou o Atlas do Nordeste, pela Agência Nacional de Águas. Ele mostra as mais de 500 alternativas de suprimento para comunidades urbanas de todo o Nordeste. Você atingiria com esses projetos alternativos da agência 34 milhões de cidadãos brasileiros. E tem também a Articulação do Semi-árido, que atenderia aproximadamente 10 milhões de pessoas na região; o próprio governo apresenta as alternativas, com uma água que iria diretamente para as comunidades carentes, e pela metade do preço do valor da transposição.

Então qual o interesse do governo em realizar a transposição?
A transposição não é para o povo. Quando o governo diz que vai atingir 14 milhões de pessoas, não é verdade, isso é uma propaganda enganosa. O governo nunca quis assumir essa mentira. Não é verdade, é uma propaganda enganosa. O interesse não é o povo, o governo não está preocupado com o povo não, nunca esteve. O que está por trás são as grandes multinacionais, as grandes empresas nacionais e transnacionais, interessadas na produção de camarão em cativeiro, no agronegócio, no hidronegócio, na produção de frutas nobres para exportação. Não pense você que o governo está preocupado com os pobres, não. Eu moro na beira do rio há 33 anos e nem onde o rio passa naturalmente o povo é assistido. Se realmente o governo estivesse interessado nos pequenos deste país ele atenderia os pobres de onde o rio passar. O interesse das águas não é o povo, são os grandes interesses econômicos e empresariais.

Se o governo não encerrar as obras, o senhor manterá a greve?
Isso aí. Eu já fui enganado uma vez, só sai do jejum porque fizemos um acordo e eu fui enganado. Não apenas eu não, eu represento um coletivo. E não quero ser enganado outra vez. Estamos prontos para conversar, mas quando parar a transposição e quando o Exército sair das obras.

Mesmo correndo risco de morte?
Mesmo correndo risco de morte.

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