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Terça, 11 de dezembro de 2007, 13h55

CBF deveria contestar título argentino, diz Oscar

Raphael Prado


Naquele tempo, a Copa do Mundo era diferente. Dois grupos de 4 seleções disputavam a semifinal em 1978. No grupo da seleção brasileira estava a Argentina, sede do torneio.

E no time brasileiro estava Oscar Bernardi. Zagueiro, ex-tricolor paulista, acompanhado de Émerson Leão no gol, Zico, Rivelino e Roberto Dinamite - entre outros, obviamente - no campo. Cláudio Coutinho era o treinador.

Era o dia 21 de junho.

Veja também:
» Copa de 78: detalhes de uma história obscura

O Brasil entrou em campo para disputar seu último jogo daquela fase às 4 da tarde. O adversário era a Polônia. Depois de uma campanha invicta de 4 jogos e 3 empates - um deles em 0 a 0 contra a Argentina, disputada em Rosário -, o Brasil venceu por 3 a 1.

Não contava, no entanto, que o país-sede havia atrasado em duas horas o início da sua partida. A Argentina entrou em campo contra o Peru sabendo que precisava vencer por 4 gols de diferença. E venceu por 6. A zero.

As suspeitas de que o Peru entregou o jogo sempre existiram. Oscar relembra que a equipe peruana retornou ao seu país sob uma chuva de moedas atiradas pelos torcedores.

Mas a "compra" ganha novo fôlego com as recentes denúncias de Fernando Rodriguez Mondragón, filho do traficante Gilberto Rodriguez Orejuela, ex-pertencente ao Cartel de Cali. Fernando assegura que foi com dinheiro do narcotráfico que a seleção peruana foi comprada (leia aqui).

Se a Argentina não tivesse feito o mínimo de 4 gols, o Brasil teria ido para a final contra a Holanda e poderia ter sido, em 1978, tetracampeão mundial.

- Mas entre os brasileiros, todo mundo ficou com aquela sensação de dever cumprido - conta Oscar, o zagueiro do time considerado "campeão moral" pelos brasileiros.

O ex-jogador pede apuração para as novas suspeitas de irregularidades na fase semifinal da Copa da Argentina. Diz que a CBF (Confederação Brasileira de Futebol) deve se pronunciar a respeito.

- É o mínimo, né? E os jogadores estão quase todos vivos, é uma coisa para ser apurada. Tá todo mundo aí, isso pode ser averiguado. Se de fato isso existiu, ou se tem alguma denúncia sobre isso, o mínimo que poderia ser feito é a CBF se manifestar também.

Para Oscar, se a história for comprovada, o título deve ser contestado junto à Fifa. O ano de 1978 deu à Argentina o primeiro campeonato mundial do país. Oito anos depois, em 1986, veio o segundo, numa campanha também contestada pelo famosíssimo "gol de mão" de Diego Maradona contra a Inglaterra, nas quartas-de-final. É uma das imagens mais conhecidas do futebol mundial.

O brasileiro Oscar diz que o time deixou a Argentina tranqüilo. Mas até hoje, quase 30 anos depois, ainda resta uma pontinha de ressentimento, indisfarçável - ainda que tente:

- Nós saímos com a sensação de dever cumprido. Mas a gente sabia que a final tinha que ser Brasil e Holanda...

Leia os principais trechos da entrevista com o zagueiro da seleção brasileira na Copa de 1978.

Terra Magazine - Sempre houve suspeita sobre esse jogo entre Argentina e Peru na Copa de 78. Agora há essa novidade revelada pelo filho de um traficante. Como você recebe essa notícia?
Oscar Bernardi - Com decepção, né? Eu não sei se isso é verdade, mas esse jogo ficou sempre em dúvida. Nós nunca tivemos certeza do que tinha acontecido. Não sei o quanto de verdade tem na palavra dele (o filho do traficante), mas é uma coisa muito grave para a Federação Argentina, se de fato aconteceu isso.

Seria o caso de a Fifa rever o título da Argentina em 78?
Se for de fato comprovado, eu creio que sim. Deve ser contestado.

Como era o sentimento de vocês naquele ano, depois de terminar o Mundial invictos e em terceiro lugar?
A Copa de 78 foi diferente do que é agora. Algumas coisas aconteceram antes desse jogo que não são normais. A Argentina deveria jogar no mesmo horário nosso, como é hoje quando se vai decidir algum resultado importante entre duas ou três equipes. A Fifa sempre põe os jogos no mesmo horário. E naquele jogo, a gente ia jogar às 16h e a Argentina adiou por 2 horas o jogo dela para saber de quanto tinha que ganhar do Peru. Então já causou estranhamento por causa disso.

Além do fato de precisar de 4 gols e ganhar por 6 a 0.
Sim, e ela só ficou sabendo que precisava ganhar de 4 porque adiou o jogo dela. Mas entre os brasileiros, todo mundo ficou com aquela sensação de dever cumprido. Acabamos não nos classificamos para a final porque esse jogo nos tirou a chance de ir ao final. Senão seria Brasil e Holanda.

Você acha que a CBF também deveria tomar uma posição pelo fato de o Brasil ter sido prejudicado?
É o mínimo, né? E os jogadores estão quase todos vivos, é uma coisa para ser apurada. Tá todo mundo aí, isso pode ser averiguado. Se de fato isso existiu, ou se tem alguma denúncia sobre isso, o mínimo que poderia ser feito é a CBF se manifestar também.

Naquela ocasião, já existia essa desconfiança de que pudesse ter havido dinheiro, né?
Ah, sim. Assim que o jogo terminou, o comentário foi geral. Foi uma decepção muito grande. E o time do Peru foi recebido com uma chuva de moedas no aeroporto, pelos torcedores. Mas nunca ficou provado nada, e eu também nunca quis saber de nada.

E o Brasil fez o papel dele.
Sim, nós saímos com a sensação de dever cumprido. Mas a gente sabia que a final tinha que ser Brasil e Holanda...

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Reprodução
A Taça do Mundo é nossa? - Na Copa de 1978, a Argentina conseguiu a vaga na final depois de vencer o Peru por 6 a 0 em um jogo que até hoje levanta suspeitas

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