
Claudio Martini
Durante muitos anos, criticou-se a qualidade dos roteiros das HQs brasileiras de uma maneira geral, com base no pouco que era editado. Certamente, uma das explicações era o pequeno espaço disponível nas últimas décadas para que os quadrinistas exercitassem e desenvolvessem seu trabalho, tanto texto como desenho. Não em número de publicações de HQ, mas em número de páginas, pois as revistas geralmente distribuem seu espaço entre muitos e cada autor vai dispor de meia dúzia de páginas para sua história. Em revistas de vida curta e sem uma periodicidade definida, fica impossível criar histórias longas, mesmo que seja em capítulos. Contando com revistas assim é que grandes nomes - como Giraud e Charlier ou Goscinny e Uderzo - puderam evoluir e atingir o melhor de sua capacidade criativa.Agora, com a Coleção 100% Quadrinhos, criada pela excelente Graffiti 76% Quadrinhos (revista de Belo Horizonte que tem 10 anos de estrada e acabou de lançar seu número 16), os quadrinistas terão espaço para desenvolver suas histórias e sua arte em HQs de cerca de 90 páginas ou mais.
A primeira graphic novel, Um Dia Uma Morte, de Fabiano Barroso e Piero Bagnariol (também editores e colaboradores da Graffiti), traz um roteiro excelente: a história de uma caça ao tesouro, planejada e executada em um bairro de periferia, unindo e cruzando a vida dos personagens com viagens à infância e à memória dos mesmos. Tudo é feito com um grande domínio técnico e se traduz em um belíssimo resultado gráfico, com páginas coloridas recriando o universo das favelas, com aglomerados de casas de tijolo furado, sem acabamento, com caixas d'água sobre lajes de concreto, gatos de eletricidade e ruelas que abrem caminho em ziguezague entre os barracos.
Uma história com mistério, suspense e humor, e que engrena com maestria o relógio e o tempo; vidas e mortes; a droga e a polícia; a violência e a paixão. Um mundo que muda, mas não melhora e onde os fantasmas de assassinos e assassinados convivem em paz. Um roteiro que poderia ser transposto para o cinema, como os de Mutarelli.
A segunda HQ é O Relógio Insano, de Eloar Guazzelli. Coincidentemente usa o relógio, o tempo e a memória em sua construção. O relógio insano é nossa civilização que perdeu o compasso, e Guazzelli cria um mosaico sobre uma sociedade futura envolvida em tramas políticas, repressão militar, dramas existenciais. Tudo apresentado com um texto poético e irônico, com um desenho forte e cativante, como xilogravuras mostrando um mundo contrastado e que retratam uma cidade da América Latina, onde se reconhece São Paulo, mas que traz referências visuais de outros lugares. As peças deste quebra-cabeça também englobam a literatura e o cinema, o futebol e guerrilha, o apartheid e o tráfico de pessoas.

Um Dia Uma Morte e O Relógio Insano. Duas ótimas obras, bem diferentes, mas que trazem muitos pontos em comum, e que inauguram um novo espaço para a HQ brasileira de longa-metragem.
Terra Magazine
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Reprodução
"A história de uma caça ao tesouro, planejada e executada em um bairro de periferia"
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