Terra Magazine

 

Quinta, 3 de janeiro de 2008, 07h54

Chico Pinto, o deputado que denunciou Pinochet

Claudio Leal

Morreu hoje, 19 de fevereiro, em Salvador, o ex-deputado federal Chico Pinto. Estava internado desde 2007, no hospital San Raphael, onde resistia a um câncer. Veio uma infecção urinária e, em seguida, a infecção bacteriana generalizada.

Durante quase um ano, fez de seu quarto de hospital um espaço de memórias. Recebeu amigos e ex-companheiros de partido - Waldir Pires, Sigmaringa Seixas, Airton Soares, Sebastião Nery, Hélio Duque, Alencar Furtado... -, despedindo-se lentamente da vida. Não perdeu a ironia, embora revelasse desencanto com os rumos da política brasileira.

Em 3 de janeiro, Terra Magazine publicou uma entrevista exclusiva com Chico Pinto. Republicamos agora, dia de sua morte. O ex-deputado será enterrado em Feira de Santana, sua terra natal, na Bahia. Deixou uma mulher, Thaís Alencar, e uma filha, Thaís Alencar Pinto dos Santos. O governador Jaques Wagner decretou luto oficial.

***

"Chico Pinto quer falar." Internado no hospital San Raphael, em Salvador, o ex-deputado federal Francisco Pinto, um dos maestros da resistência à ditadura militar no MDB (Movimento Democrático Brasileiro), deseja gravar suas memórias políticas. Com certa ansiedade, convoca o repórter. Teme perder o impulso.

O recado chega em 1° de setembro de 2007. Há meses, vinha adiando um registro de suas reminiscências. Estimava um tempo mais tranqüilo para alinhavá-las. Àquela altura, porém, dispensava saúde e formalidades. Queria falar.

A história da esquerda democrática, no Brasil dos anos 70, passa pelos discursos e conspirações de Chico Pinto. Em quartéis e encontros sigilosos, ele arquitetou um espinhoso diálogo entre o MDB e os militares nacionalistas.

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Dessa estranha alquimia nasceu a candidatura do general Euler Bentes à presidência da República, em 1978, numa artimanha para dividir as Forças Armadas. Participou da articulação o senador de Pernambuco, Marcos Freire, morto em 1987 num acidente aéreo.

Eleito para a Câmara Federal em 1970, Chico Pinto aglutinou parlamentares no Grupo Autêntico do MDB e ajudou a estabelecer os limites entre oposição e governo.

Superava rusgas recentes com os militares. Em 1964, fora deposto da prefeitura de Feira de Santana, na Bahia. Fez, sozinho, sua defesa no tribunal militar. Absolvido, partiu para novo encontro com as urnas.

Em Brasília, percebeu que não era possível atuar sem pertencer a um agrupamento político forte. No jogo interno do MDB, as posições do grupo Autêntico, que criticava sem meias palavras a ditadura, empurravam o comedido Ulysses Guimarães para o enfrentamento com o governo.

- Os autênticos marcaram a vida política no instante em que a ditadura atingia todos os recordes de popularidade. Em 1974, quem votava em branco, nulo, passou a ver que o voto era uma forma de derrubá-la. E isso é conseqüência da atuação de Chico Pinto e dos autênticos - analisa o ex-deputado federal Hélio Duque.

O ex-ministro da Defesa Waldir Pires define:

- Ele resistiu na área de uma política de faz-de-conta, o Congresso Nacional daquela época.

O balé de radicais e moderados encenou a Anticandidatura de Ulysses e do presidente da ABI (Associação Brasileira de Imprensa), Barbosa Lima Sobrinho. Em 1974, os dois reacenderam as artes de uma campanha nacional.

"A luta dos 'Autênticos', como membros do MDB, principalmente no episódio da Anticandidatura, deu ao partido conotação de oposição efetiva, de resistência ao regime militar", avalia a historiadora Ana Beatriz Nader, em "Autênticos do MDB", importante registro de história oral.

Em 1974, ao discursar contra a presença do general Augusto Pinochet no Brasil, e denunciar os crimes humanitários da ditadura chilena, reafirmou o papel constitucional da tribuna parlamentar. Gramou a prisão e o afastamento do Congresso.

Trinta anos depois, a imagem histórica de Pinochet faz valer todos os adjetivos empregados por Chico Pinto - mesmo os que, por prudência, preferiu guardar.

Eternidade

Deitado num leito do San Raphael, onde resiste a um câncer, Chico Pinto rememora todas essas passagens. Está sem o gorro russo usado em velhas campanhas. No criado-mudo, romances de José de Alencar, jornais, revistas...

Os visitantes transformam o quarto do hospital em um confessionário político. Ali deixaram postas do passado os ex-governadores Waldir Pires, Lomanto Júnior e Roberto Santos, além de velhos correligionários e amigos como Sebastião Nery, Mário Lima, Hélio Duque, Alencar Furtado, José Carlos Brandão e Portela.

- Às vezes, o homem pensa que é eterno e retarda os compromissos. Agora eu vejo que não é. De repente, a saúde some e abala essa certeza de eternidade - diz Pinto, antes de iniciar a entrevista, naquele setembro de 2007.

Continua internado em Salvador, sempre acompanhado por sua esposa, Thaís. Esquece até de praguejar o cigarro. Não o responsabiliza pelos males à saúde. Fumou desde a adolescência, mas, por caráter, evita desmerecer todos os maços que passaram por suas mãos.

- Eu estava na UTI e lá refletia sobre o cigarro. Usava quatro piteiras por dia. Em média, vinte cigarros para cada uma. Fumava de oitenta a cem cigarros. Usei piteiras espanholas, portuguesas, americanas, e me fixei na piteira Tar Gard. Quando descartava uma, deixava ao sol e formava aquela massa sólida de nicotina. Eu dizia às pessoas: esse é o lado negativo.

Chico ajeita a coberta, coça a barba que o aproxima dos profetas, e arremata a exposição, voz baixa e mansa:

- Mas era o cigarro que me acompanhava nos momentos tensos, ajudava-me a ter inspiração na hora de escrever... Fumo desde os 12 anos. O cigarro foi um companheiro de toda a vida. Falar mal dele agora seria mau-caratismo. Se você quiser, abra aquele armário e veja minha carteira. Tem lá uma carteira de cigarro. É para provar que não o abandonei.

Sob nuvens de memória e tabaco, Chico Pinto, 77 anos.

CORDÃO DOS AUTÊNTICOS

Terra Magazine - O senhor pode explicar as divisões internas do MDB durante a ditadura?
Chico Pinto - No MDB, você tinha três grupos. O grupo Adesista estava no partido e defendia o governo. Grupo Moderado, quem era? Tancredo, Ulysses Guimarães, Thales Ramalho, esse pessoal. O terceiro grupo foi criado quando eu cheguei ao Congresso: os Autênticos. Porque, na Bahia, em reunião com os companheiros, inclusive do próprio Partido Comunista, me diziam que eu estar sozinho não adiantava nada em Brasília. "Tem que se organizar lá".

Então, eu pedi a relação dos deputados que foram votados pelo Partido (Comunista), que era ilegal e não podia ter nenhum "eleito". Pedi essa relação do Partidão. Os outros apoiavam o voto nulo. No dia da homenagem que a Câmara prestou aos Autênticos, José Genoíno (PT) fez uma revelação interessante: falando em nome do PT, mostrou a influência que a minha presença na política teve para gerar uma discussão interna sobre a participação institucional ou não.

Havia diálogo com os defensores do voto nulo?
Sim. Algumas pessoas do voto nulo até me diziam: "Olha, eu acho uma posição errada, vou acompanhar o Partido, defender, mas meu voto pessoal, aqui pra nós, eu vou lhe dar".

E a lista?
O Partidão mandou os nomes, mas não tinha os nomes do País inteiro. Me deram alguns nomes. Não deram Lysâneas Maciel (ex-deputado federal do Rio de Janeiro). Lysâneas não teve apoio do Partido, mas era um socialista, importantíssimo. No Rio, eles votaram com Walter Silva e J.G. de Araújo Jorge, poeta.

Eu ia em cima, procurava esse pessoal já conhecido. Uma vez, Hélio Duque (ex-deputado federal do Paraná) me deu alguns nomes. Alencar Furtado não foi apoiado pelo Partido Comunista.

Freitas Nobre?
Ele não era do Partido, mas teve uns votos. O Partido em São Paulo votou em Santilho Sobrinho... No Rio Grande do Sul, Nadyr (Rossetti) e Amaury (Müller). Ambos foram cassados depois. Tinha o Getúlio Dias. Lá em Santa Catarina, um bom sujeito, que foi deputado e depois senador, Jaison Barreto.

Foi montado esse quadro, então?
Estou citando alguns nomes. Em Pernambuco, quem recebeu apoio foi Fernando Lyra, e não Marcos Freire. Marcos recebeu apoio de Dom Hélder e da esquerda católica. Na Bahia, o Partido votou comigo. Veja que estou dando alguns exemplos, pra você ver que tinha alguma facilidade de procurar e encontrar receptividade pra formação do grupo que se tornou o grupo Autêntico do MDB. E o grupo teve uma unidade, rapaz, com 20 e tantos deputados...! Faltei falar em Alceu Collares e Freitas Diniz, do Maranhão, bom companheiro.

DIÁLOGOS NA SOMBRA

Como é que o senhor percebeu que havia uma possibilidade de diálogo com os militares nacionalistas?
Desde o início, eu me convenci de que nós (da esquerda) precisávamos de um braço armado. Não existia ainda, mas passou a existir com o braço armado civil: Caparaó, Araguaia, etc. Vibrava com aquele negócio, embora soubesse que não ia conseguir quebrar a chamada unidade das Forças Amadas.

Lá dentro do Conselho Militar, onde respondi a processo, eu via que os militares se revezavam de quatro em quatro dias. Alguns deles queriam me conhecer: "O cara é um nacionalista..."

Onde era o Conselho?
Em Salvador. Na Auditoria Militar. Então, fui conhecendo esses caras, alguns me convidavam para ir às casas deles. Queriam outra política que não a entreguista de Castello Branco, exigindo mudanças contra a tortura. Aí facilitou, né? Em determinado momento, eu me integrei a esses grupos. Viajava para o Rio de Janeiro - algumas vezes até com Inácio (Gomes, advogado de presos políticos baianos). Porque Inácio era bom pra conversar com militar.

"BRASIL ACIMA DE TUDO"

Conversava com a organização militar Centelha Nativista?
Centelha, Brasil Acima de Tudo. No meu primeiro discurso na Câmara, terminei falando: "Brasil acima de tudo!". Era um recado pra eles. Médici quis me cassar por esse discurso. Proibiram a publicação no Diário Oficial, enquanto eles decidiam. A notícia toda é que eu seria cassado. Os jornalistas: "ó, você vai ser cassado..."

E eles começaram a dizer que era um discurso agressivo, comunista, contra as Forças Armadas. Não pegou porque espalhei o discurso entre os militares conhecidos, muitos deles reimprimiram, distribuíram com os colegas. Criou um clima de resistência.

Como é que vão cassar este homem que está defendendo os militares? E como é que eu defendia? Peguei a origem das Forças Armadas brasileiras, toda a luta travada contra a escravidão, a resistência de muitos militares daquela época em cumprir a ordem de perseguição aos escravos... A revolução de 22, 24, 25...

RESISTÊNCIA INTERNA

Qual era sua leitura?
Estudei muito. Como estudei muito sobre a psicologia dos militares. Também era importante saber como eles reagem. Ao mesmo tempo, o convívio facilitou isso, a confiança recíproca. Sem dizer, você levantava e mostrava a importância dessas revoluções, desses tenentes, o papel que o Exército exerceu naquele período. Como é que eles iam dizer que eu estava contra o Exército? Ao contrário. Não publicaram meu discurso, mas depois publicaram com cortes e tal. Com silêncio, ninguém sabia - na área militar, eu seria inimigo do Exército e... corta a cabeça! Acabou. Era o Médici, naquela época. Ele se viu em dificuldade pra me cassar. Por isso, é que eu entendia aquelas brigas internas do PC, PCdoB...

INSPIRAÇÃO DOS TENENTES

E a resposta dos militares?
Houve um crescimento, rapaz! Acho que foi um papel importante que não tem sido ressaltado. Você não podia falar em divisão das Forças Armadas. Isso era intolerável. Você tinha que fazer as coisas como os tenentes fizeram.

Eu peguei, por exemplo, o processo do brigadeiro Eduardo Gomes, que estava preso na década de 20. É um negócio interessantíssimo. Era chamado de subversivo - não se falava "comunista" -, esbodegavam com ele. Um dos juízes do Supremo Tribunal, na época, disse: "Esse nunca será glorificado, esse homem é contra o País". Tenente quem? Eduardo Gomes.

Nunca falavam das Forças Armadas. Falavam em derrubar os governos que estavam constituídos: Washington Luiz e outros. Então, eu me integrei de uma forma espontânea e também estudada. Foi muito bom o período.

SENHA NA MADRUGADA

Uma vez, jogaram um caminhão na Vila Militar do Rio de Janeiro. Bem, à noite, eu tinha os endereços de uns oficiais nacionalistas pra conversar... Parecia um doido. Entrava no carro e ia atrás. Batia na porta. Mas eu não ia à toa. Sabia quem era.

Agora, alguns deles me davam o endereço do camarada, davam uma senha, vinha um outro colegas deles, pra poder conversar. Tanto assim que um do Rio de Janeiro, quando cheguei lá, estava com um colega, compadre dele, capitão também. Bati na porta, ele na moita. Olhou... Joguei a senha e ele (sinal de silêncio). Dando sinal que eu não falasse na vista do outro. Quando o outro saiu, disse:

- É meu compadre, meu amigo, mas é muito reacionário.

Isso era uma coisa importante, você criar uma resistência dentro do batalhão que sustentava o governo. O batalhão que eu digo aí é a força política e econômica que sustentava o governo.

Leia mais:
» Segunda parte da entrevista

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Arquivo pessoal/Reprodução
O ex-deputado federal Chico Pinto vota em convenção do MDB, em Salvador.Início dos anos 80.

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