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Terça, 1 de janeiro de 2008, 08h03

Uma quase resenha de A Experiência Indizível

João Carlos Salles

1. No curto prefácio de um livro fascinante, Wittgenstein's Logical Atomism, James Griffin nos antecipa que considerará apenas algumas partes do Tractatus, a saber, as que lhe pareciam de maior interesse filosófico. Ora, à primeira vista, assim enunciada, uma tal opção de leitura parcial soa asfixiante e mesmo inverossímil, ainda mais por voltar-se a um livro de cerca de oitenta páginas. Entretanto, talvez Griffin estivesse reconhecendo uma circunstância ineludível para quantos pretendam recuperar a tessitura última do Tractatus, a de ser impossível dar conta conceitualmente de sua totalidade, salvo por decisões assim corajosas e, é claro, arriscadas.

Talvez não haja um caminho claro de acesso a qualquer obra de filosofia, mas isso parece valer com muito mais força para esse livro nada trivial, por que Wittgenstein pretendeu um dia resolver de vez todos os problemas filosóficos. O Tractatus tem uma estrutura peculiar. E, mais que singular e deveras charmosa, a numeração dos aforismos é desafiadora, colocando-nos diante de uma armação essencialmente insaturada.

É deveras difícil agarrar em sua inteireza um livro que, afinal, desdenha de mínimos cuidados com o leitor, como se composto por anotações inteligíveis apenas para quem já pôde estar nos mesmos lugares de pensamento. Assim, dispensa argumentos, além de armar-se como trama a ser abandonada, como texto que antes deve fazer-nos adivinhar o inefável.

É preferível, por isso, vê-lo como uma instalação, na qual os aforismos restam pendurados, suspensos como móbiles. Nesse caso, deixa de ser estranho que nossa visita seja sempre parcial, ao tempo que sempre pretenda agarrar o conjunto inteiro, e mesmo além. Dispostos em tal instalação, parece-me, os aforismos dialogam melhor entre si e nos permitem várias vias de acesso, não havendo enfim uma maneira única de visitar essa obra desafiadora, embora haja trilhas mais freqüentes e outras mais íngremes ou inusitadas.

2.

Alguns caminhos parecem mais bem trilhados. Por exemplo, o número de referências a Frege e Russell supera em muito quaisquer outras; e o próprio prefácio os situaria como interlocutores privilegiados. Torná-los em interlocutores únicos seria, porém, limitar a fecundidade da obra, que não nos fecha a outras e também luminosas vias de acesso.

Aliás, a pretensão de um caminho único talvez seja abusiva ou mesmo insensata. Em primeiro lugar, ela deixaria de explicar um fato curioso. Especialistas em Wittgenstein lamentam não haver um bom companion para o Tractatus. Temos sim, no Brasil, uma extraordinária tradução, a realizada por Luiz Henrique Lopes dos Santos, com uma introdução, a um só tempo, clara e profunda. Entretanto, não temos um bom comentário parágrafo a parágrafo, de sorte que as passagens todas do livro se nos fizessem claras.

Suspeito que, em segundo lugar, a pretensão seja ela mesma insensata. Um livro que tudo esclarecesse do Tractatus seria como um seu anverso sem mistério, como sua leitura inteira e sem pensamento próprio do leitor. Seria também um livro que aplastraria sua estrutura, sua múltipla possibilidade de acesso, reduzida enfim a um só caminho, que tudo unificaria.

A pretensão desconheceria, enfim, um fato trivial. Um bom companion não deve ser um que limite a possibilidade de interpretação dos aforismos, mas antes um que nos confronte com as opções de leitura que comportam e, sobretudo, com as escolhas então feitas, mas nunca desfeitas de todo, pois uma tal obra, uma obra que não nos traz simplesmente verdades, nunca faz cessar as tensões teóricas de que se alimenta.

3.

Reflexões dessa ordem me assaltaram logo após ter lido o livro A Experiência Indizível: Uma Introdução ao Tractatus de Wittgenstein, de Sílvia Faustino, publicado em 2007 pela Editora Unesp, do qual, mesmo estando meio sem tempo, procurei fazer uma resenha. Minha primeira constatação, porém, ao acompanhar a elegante prosa desse livro, ao percorrer sua fina argumentação, foi a de estar diante de um desafio, desses que não se resolvem rapidamente.

O livro nos coloca direto no cerne da reflexão de Wittgenstein, obrigando-nos a reviver seus problemas e opções. Ora, resenhar um livro assim equivale a posicionar-se sobre o próprio Tractatus e principalmente com ele - o que, paradoxalmente, ultrapassaria as possibilidades de uma resenha.

O livro apresenta-se ainda como uma "introdução" ao Tractatus. Sentir-se-á logrado o leitor que compreenda "introdução" como uma apresentação simplificada ou simplificadora de uma obra, pois somos lançados ao coração mesmo dos problemas, sendo sim introduzidos sem concessões. A palavra "introdução" neste livro de Sílvia Faustino adquire então, entre outros sentidos pertinentes, dois que gostaria de destacar.

Primeiro, o livro analisa e esclarece o laço interno entre vários aforismos, exibindo clareza argumentativa e grande competência exegética. Desse modo, passagens intrincadas, de difícil interpretação, são decifradas clara e cuidadosamente, a exemplo dos aforismos 5.6, 5.61 e 5.62 (cf. p. 86 e 87), em cuja análise superam-se muitos mal entendidos na literatura sobre Wittgenstein.

Também se trata de uma "introdução" em outro sentido. Oferece-nos uma opção forte de leitura, um caminho que explora e expõe a contribuição de Wittgenstein fazendo-a dialogar com a história da filosofia. Em especial, o livro aviva analogias entre seu pensamento e o de Schopenhauer, de sorte que, desse ponto de vista, a introdução a uma obra filosófica realiza-se como tal ao nos fazer dialogar com própria filosofia.

A busca das raízes schopenhauerianas do solipsismo transcendental do Tractatus, tal como ensejada por Sílvia Faustino, é um traço distintivo de seu livro. E, importante, nada tem de mera investigação genética, dessas que remontariam a obra a uma trama de influências, como se laços externos pudessem determinar o modo próprio por que um grande pensador informa enfim suas questões. Ao contrário, a influência se mostra subordinada a uma chave interpretativa a mais interna e a mais desafiadora, qual seja, uma reflexão que se inicia com o tema da separação entre a lógica e sua aplicação.

Com isso, sem desprezar leituras tradicionais, sem nada dever a abordagens mais canônicas, podemos destacar um mérito adicional dessa "introdução", o de valorizar e dar sentido a outros aspectos. Para tanto, com virtuosismo, enfrenta detalhes os mais difíceis da obra, mas também, pela analogia que enfatiza, sabe destacar e ler passagens que talvez mais nos aproximem do centro da reflexão de Wittgenstein, disso que, enfim, em sua obra se nos mostraria como relevante, como experiência indizível.

4.

Toda opção de leitura assemelha-se a um lance em um jogo de xadrez. Apresenta vantagens e desvantagens, dizendo e deixando de dizer. No caso do livro de Sílvia Faustino, temos decerto um trabalho de qualidade que nos convida à leitura do Tractatus por caminhos que muito o valorizam. Desse modo, mesmo uma divergência que porventura levasse à reinterpretação de passagens analisadas, não lhe diminuiria o valor e o interesse.

Trata-se, pois, de excelente trabalho, tanto no que podemos concordar como no que podemos divergir. Com competência e elegância, Sílvia Faustino justifica suas opções de leitura, afirmando-se seu livro como uma valiosa contribuição aos estudos de Wittgenstein, bem como, em especial, à nossa construção coletiva de um companion do Tractatus.

É clara a maturidade dos estudos wittgensteinianos em nosso país e, assim, meio inadvertidamente, estamos construindo um guia multifacetado e divergente, mas imprescindível para a boa leitura da obra de Wittgenstein.


João Carlos Salles é professor do Departamento de Filosofia da UFBA e publicou os livros A Gramática das Cores em Wittgenstein e O Retrato do Vermelho e outros ensaios.

Fale com João Carlos Salles: joaocarlos.salles@terra.com.br

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