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Quarta, 9 de janeiro de 2008, 15h06

A escola do asfalto

Nelson Pretto

"O que faz um trabalho sobre um protesto de jovens estudantes no contexto de um curso de Pedagogia?". Essa é a pergunta que abre a monografia de Genielli França da Silva, trabalho final do curso de Pedagogia da Faculdade de Educação da Universidade Federal da Bahia (UFBA), orientada pela professora Iracy Picanço, futura vice-diretora da FACED.

Questionamento importante e que vai balizar todo o texto da jovem pedagoga, ao se debruçar sobre a chamada "Revolta do Buzu", movimento dos estudantes secundaristas de Salvador contra o aumento das tarifas de ônibus, ocorrido entre agosto e setembro de 2003, e que, literalmente, parou a cidade, assim como aconteceu, depois, em Florianópolis e em outras cidades do Brasil.

Para os que não lembram, durante esse período a meninada soteropolitana tomou as ruas em protesto, com palavras de ordem e estratégias de ativismo juvenil fortemente articuladas pelo uso intenso de tecnologias de informação e comunicação, como a internet, telefones celulares, msn's, pagers, tudo isso a construir uma eficiente rede de mobilização.

Tenho defendido veementemente a presença de monografias finais nos cursos de graduação, e, para a formação de professores, considero essa etapa absolutamente imprescindível, uma vez que coloca o futuro professor frente à frente com a necessidade de uma produção intelectual mais consistente, e que deverá pautar o seu cotidiano profissional.

Nesse sentido, Genielli, além da boa escrita e análise, toca num importante ponto para nossa reflexão: a educação é um fenômeno que tem na escola um espaço fundamental, mas não está a este limitada, em absoluto. As ruas, as ações sociais, as famílias, a vida cotidiana e, principalmente, a luta política, possuem uma dimensão formativa básica dos jovens no mundo contemporâneo, o que difere diametralmente da mera preocupação com a preparação e acomodação ao mercado, que apenas busca um jovem-trabalhador conformado, com atuação eficiente e produtiva, e nada mais.

É muito rico, para nós, de uma Faculdade de Educação, poder ler uma profunda análise, feita por uma de nossas alunas, de um movimento juvenil da importância da "Revolta do Buzu".

Tudo isso ganha maior dimensão no momento atual, no qual a sociedade brasileira presenciou a recente invasão da Reitoria da UFBA pela polícia, com apoio do próprio Reitor, e que resultou em estudantes presos, algemados com as mãos pelas costas, justamente porque lutam, junto com muitos professores, por uma universidade pública de qualidade, contra projetos de universidade que, em nome da produtividade e da escolha precoce das profissões, modificam, por exemplo, a quantidade de alunos que serão atendidos por cada professor, o que certamente dificultará o acompanhamento atento das produções dos alunos ao longo do curso e dos trabalhos de conclusão, como esse a que me refiro aqui.

Voltando ao texto da monografia "A revolta do Buzu: a escola do asfalto", a ação da meninada de 15 ou 16 anos, que tomou as ruas, é identificada com "atos de solidariedade" o que, segundo a autora, é surpreendente nos dias de hoje, porque a ação solidária, tão presente nos discursos das escolas como sendo uma das "habilidades para a formação da cidadania, aparece justamente na fala de um jovem de 16 anos, de uma geração rotulada por muitos como individualista e consumista em sua essência".

Se não tivermos a capacidade de compreender essa juventude, que nos desafia e nos ensina cotidianamente pelos seus atos - que, às vezes, nos tiram do sério, é bem verdade -, não teremos condições, enquanto adultos, de com eles dialogar e com nossa experiência acumulada e, quiçá, sabedoria, estabelecer uma rede de relações e trocas.

Urge, portanto, serem enaltecidas as diferenças, para que prevaleça a solidariedade, a camaradagem e o fortalecimento da democracia, sempre baseada no respeito às posições das minorias. Daí porque a escola, seja a do asfalto ou a edificada em torno de universidades ou escolas básicas, tem que saber lidar com os valores da juventude.

Nas palavras de Genielli, "a educação acontece de diversas formas e em toda a parte", e isso nos permite perceber que os estudantes que saíram às ruas em 2003, assim como os que, hoje, manifestam-se na UFBA e em diversas outras universidades públicas contra o REUNI, "muito aprenderam e, também, muito ensinaram".


Nelson Pretto é diretor da Faculdade de Educação da Universidade Federal da Bahia e curador-associado do ciclo de debates "Além das Redes de Colaboração: Diversidade Cultural e Tecnologias do Poder".

Opiniões expressas aqui são de exclusiva responsabilidade do autor e não necessariamente estão de acordo com os parâmetros editoriais de Terra Magazine.
 

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