
Antonio Risério
Andei um pouco sumido daqui de nossa querida Terra Magazine. Mas é que às vezes o jogo embola no meio de campo. Lancei um livro, tive de fazer viagens-relâmpago, tocar frilas, vieram as festas do natal e do ano novo e, enfim, chegou o verão baiano. Agora, estou um pouco mais sossegado. As festas passaram, ficou o verão. Dias claros e bonitos, de sol rebrilhando no mar.Algumas pessoas reclamam do calor. Não é o meu caso. Gosto de calor. E, aqui, a brisa marinha lava o corpo e a alma de qualquer um. Reclamo, na verdade, de outra coisa. Da mania do ar condicionado.
Saio de casa para ir ao encontro de um amigo. Encontro de trabalho. O caminho, pela orla do mar, é uma delícia. Mas acabo chegando ao local do encontro. É um daqueles prédios de escritórios, na parte nova de Salvador. Um prédio todo envidraçado, com as possíveis janelas todas fechadas. Lá dentro, a maldição do ar condicionado. No escritório em que entro, a temperatura é um absurdo. Faz frio. Eu, de camiseta e sandálias, reclamo. Digo que esqueci de trazer o casaco. Pergunto por que não abrem aquelas malditas janelas, para a brisa baiana ventilar o lugar.
Nada. Os amigos apenas sorriem. Fazem piadas. Não me levam a sério. E, claro, fico me sentindo ainda mais excêntrico do que sou. "Moramos na Cidade da Bahia", digo à turma, à equipe de trabalho. "Por que vocês vivem querendo fazer de conta que não estão aqui, mas em Paris ou Nova York - e, o que é pior, no inverno?". Se aquelas janelas ficassem abertas, franqueando a passagem do vento, o escritório seria extremamente agradável. Mas não adianta. Deixa pra lá, o excêntrico sou eu.
À noite, já de volta em minha casa, ligo o computador para ver as mensagens, os e-mails enviados. Há alguns. Entre eles, o e-mail de um amigo que repassa para mim uma entrevista do arquiteto e urbanista João Filgueiras Lima, o Lelé. Bem, Lelé figura, sem favor algum, entre os maiores nomes de toda a história da arquitetura brasileira. Tenho uma admiração imensa por ele - que, além de grande arquiteto, toca um piano maravilhoso. Vou ler a entrevista, claro. E tenho um prazer e tanto. Lelé me mostra que não estou só - mas, pelo contrário, muito bem acompanhado -, em minhas reclamações vespertinas contra o prédio envidraçado de janelas fechadas e temperatura insuportável para quem não estiver agasalhado. Leiam o que ele diz. Primeiro, sobre os tais prédios:
"Veja os prédios de escritórios, hoje. As janelas não abrem. Por que ficam fechadas? Porque sai mais barato. Acho horrível essa questão da mobilidade das esquadrias. As alavancas não funcionam, os basculantes enguiçam, então se prefere fechar as esquadrias e não abri-las nunca mais. Na Finlândia, com poucos dias quentes no ano, eles evitam essa solução. E nós, com esse clima tropical, deixamos todas as janelas cerradas".
Agradeço. Sinto-me vingado. Mas o melhor ainda estava por vir. Lelé speaking: "Conforto ambiental é uma questão subjetiva. Às vezes, com 25 graus obtém-se sensação de conforto melhor do que com 20 graus. Há uma tendência, especialmente nos sistemas de ar condicionado, de encaminhar a questão para o lado exclusivamente científico, o que me parece uma visão limitada. A relativização é necessária, pois as diferenças individuais não devem ser desprezadas. O mundo globalizado tende a padronizar até o conforto ambiental".
Lelé está certíssimo. E, pensando bem, seu raciocínio não poderia ser outro. Basta ver o que ele fez nos hospitais que projetou e construiu. São hospitais que contam com ar condicionado somente nos centros cirúrgicos, que necessitam de um controle maior de temperatura, em função dos equipamentos. Fora dos centros, a ventilação é natural.
Essa busca da ventilação natural, de resto, levou Lelé a um desenho arquitetônico nítido e pessoal, com "sheds" ondulados. Esses "sheds" não apenas encantam, por sua beleza, elegância formal. São o resultado da procura de um "processo aerodinâmico", como diz Lelé, para facilitar a ação do vento, já que sua função não é apenas iluminar. E Lelé levou sua busca da ventilação natural ao extremo: seus prédios se voltam hoje contra o vento, para a extração do ar quente, sem preocupação com a orientação solar.
É algo sobre o qual nossos arquitetos deveriam meditar. Para não sair por aí fazendo prédios padronizados, globalizados, cada vez mais distantes de nossa realidade ambiental, cada vez mais indiferentes à realidade climática. Assim eu poderia não só percorrer agradavelmente a orla, como também entrar num escritório que tivesse, de fato, conforto ambiental. Sem precisar perder o meu tempo reclamando do ar condicionado e das janelas fechadas, inimigas dos ventos e das brisas da Bahia.
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