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Sexta, 11 de janeiro de 2008, 08h01

Emmanuel Wallon, ao mestre com carinho

Deolinda Vilhena

Tinha programado para hoje uma coluna sobre Omar Porras, um diretor de teatro colombiano que há alguns anos abala Paris em chamas. Afinal após assistir aos seus espetáculos mais recentes, Pedro et le commandeur, de Lope de Vega e Maître Puntila et son valet Matti, de Brecht, Omar Porras, o homem do universo barroco é minha nova paixão, te cuida Gabriel Villela...

Além disso, o pessoal da assessoria de imprensa dele é nota 1000, recebi fotos mais do que belas, um dossier de presse bárbaro, ganhei um livro sobre ele que acabou de ser lançado ou seja, tinha em mãos um material perfeito.

Com tudo isso não fui capaz de escrever o texto que precisava, faltava algo, sabe quando não dá liga? Pois é, não dava. De repente me toquei: como escrever esse artigo agora se na semana que vem tenho uma entrevista marcada com o Omar Porras? Tá certo, a entrevista é para um outro projeto, mas nada como uma boa conversa para abrir o apetite de quem precisa escrever um texto redondinho e interessante... De repente me vi sem pai e sem mãe, tendo que mandar uma coluna para a Terra Magazine, já tendo enviado as fotos relativas ao artigo sobre o Omar Porras e cá estou perto de uma da manhã de sexta, hora de Paris, descobrindo que mudei de assunto...

A minha sorte é que em Paris morre-se de tudo, semana passada quase morri de gripe, menos de falta de assunto e como acabo de chegar da aula, sim, da aula... estou de férias, já sou Doutora há quase um ano, mas sigo pela quinta vez uma disciplina chamada Les politiques de la scène, ministrada por um professor mais do que especial, Emmanuel Wallon, presidente da banca de defesa do meu mestrado aqui na Paris III e membro da minha banca de Doutorado, na mesma universidade. Um jovem velho mestre que hoje é também um amigo.

Mas o que leva alguém a estando de férias seguir a mesma disciplina pela quinta vez??? Aprender a olhar o teatro de outra maneira. A ver o ambiente político, econômico e social das artes da cena ser encarado em diferentes dimensões, não apenas em Paris ou na França, mas na Europa. Compreender a análise apresentada por meio das relações entre as artes cênicas e o poder público, seja ele municipal ou nacional, e às forças do mercado. Some-se a isso o nível de excelência e a generosidade de um professor, aliás estou cada vez mais convicta que um professor só é bom se tiver a generosidade entre suas qualidades.

A primeira vez que ouvi falar em Emmanuel Wallon foi graças a Angela Andrade, hoje Superintendente de Cultura do Estado da Bahia, e na época doutoranda em Nanterre, orientanda de Wallon. Lembro-me que isso foi em maio de 2000, quando estive na França fazendo um levantamento do que viria a ser meu doutorado.

Fiquei empolgada com as informações de Angela porque descobri naquele momento o único especialista na minha área de atuação, afinal Robert Abirached acabara de se aposentar. Mas Wallon não podia ainda dirigir uma tese em Teatro e eu não queria fazer um doutorado em Ciências Políticas, nem abrir mão da Sorbonne onde já tinha sido aceita pelo Jean-Pierre Ryngaert. Fiz, na época, a opção certa. Mas se recomeçasse meu Doutorado hoje, meu orientador seria Emmanuel Wallon e o próprio Jean-Pierre sabe disso.

Mas quem é esse Emmanuel Wallon? Se vocês fizerem um pesquisa no Google do Brasil vão encontrar três ou quatro referências a ele, uma das quais numa das minhas colunas aqui da Terra Magazine, uma outra de Nadja Miranda, outra baiana que já descobriu a existência desse gênio, esses baianos sabem de tudo, perguntem a Armindo Bião... mas se fizerem a pesquisa no Google francês em apenas 0,05 segundos vocês hão de encontrar 3370 páginas dedicadas a um certo Emmanuel Wallon.

Reza a lenda que Emmanuel Wallon se formou aos 20 anos pelo Instituto de Estudos Políticos de Paris, vulgarmente conhecido como Sciences Po Paris, o que é em si só uma prova de genialidade. Normalmente, se entra em Sciences Po aos 20 tal é o grau de dificuldade do concurso de admissão, algo comparável com a prova de entrada no Rio Branco aí no Brasil.

Não satisfeito, Wallon fez um Doutorado em Sociologia na École des hautes études en sciences sociales EHESS (Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais) e tirou sua habilitação para orientar teses em Ciências políticas na universidade de Paris X - Nanterre.

Hoje, na casa dos 50, Emmanuel Wallon é professeur de sociologia política em Nanterre e no Centro de estudos teatrais da universidade de Louvain-la-Neuve (Bélgica). Mas viaja o mundo, de Nova Iorque a Tóquio fazendo palestras e dando conferências e ano que vem passará tres meses no MIT, Massachusetts Institute of Technology, instituição de pesquisa e universidade americana, situada em Cambridge, no Massachusetts, próximo a Boston, e considerada nesse começo de século XXI, apenas a melhor universidade ocidental em ciências e tecnologia. Não é qualquer um que entra lá e temo que os americanos "sequestrem" Wallon de tanto que ele é bom, mas aposto que seu lado parisiense não se deixará impressionar pelos aparentes benefícios do outro lado do Atlântico.

Esse homem, é membro do comitê de redação das revistas Temps Modernes, Études théâtrales e L´Observatoire, a revista das políticas culturais na França. Wallon foi também presidente da associação Hors Les Murs (Associação nacional para a promoção e o desenvolvimento das artes da rua e do circo) de 1998 à 2003. Em junho de 2005, apresentou a pedido do então ministro da Cultura da França um relatório intitulado Sources et ressources pour le spectacle vivant, 2 volumes mais anexos, analisando a situação do estudo e da pesquisa na área dos estudos do espetáculo vivo, ou as artes cênicas, como chamamos no Brasil.

Para os que lêem francês sugiro que procurem com urgência dois livros: L´artiste, le prince, Pouvoirs publics et création, editado em 1991 pela Presses universitaires de Grenoble, é um primor de trabalho, onde já se percebe o caminho escolhido por Wallon que o permitiria, anos depois, quebrar finamente a estéril segmentação entre prática e conhecimento em matéria de arte viva (a arte seria apenas emoção e não também saber...).

O outro livro foi escrito por Christian Biet e Christophe Triau, absolutamente indispensável na vida de quem estuda e ama, ou ama porque estuda, ou estuda porque ama, teatro Qu'est-ce que le théâtre? lançado em 2006 pela Gallimard. A dupla de autores teve a brilhante idéia de convidar Wallon para escrever o posfácio, que não se fez de rogado e desde a primeira linha nos dá matéria para pensar durante anos a fio com apenas uma frase: "o que não é teatro o define ainda" ou algo parecido que no original, sou péssima tradutora, é "ce que n´est pas le théâtre le définit encore".

Wallon nos diz nesse mesmo posfácio que o teatro sobreviveria por conseguinte, enquanto atividade se não "essencial" pelo menos "necessária", porque ele está fora das telas e porque ele se situa "no espaço vazio que lhe deixa a cidade: está entre as peças, entre a engrenagem da máquina, e é isto que permite que ela funcione". Ele seria por conseguinte o que sempre se safa pelos interstícios e sobrevive graças a sua "astúcia". Aqueles que não são capazes de ler em francês dou duas alternativas : corram em busca de aulas na Aliança Francesa ou iniciem uma campanha na porta do Consulado da França exigindo a tradução desses dois livros, traduzem tanta porcaria enquanto nós, pesquisadores, somos privados de duas obras indispensáveis.

Como se não bastasse ser um gênio, guardem esse artigo porque daqui a cinco anos no máximo Emmanuel Wallon será a maior autoridade em sociologia do teatro e em políticas culturais da Europa e vocês vão se lembrar desse texto escrito de afogadilho, Walllon é extremamente engajado politicamente, afinal, diz ele "tout est politique, camarade, même l´esthétique".

Tanto se pode encontrá-lo numa conferência em memória de Anna Politkovskaïa, a jornalista russa assassinada, quanto num evento que lembre a luta contra a limpeza étnica na Bósnia em meados dos anos 90 que tanto o aproximou de Ariane Mnouchkine, François Tanguy, Maguy Marin e Olivier Py, criadores que encararam um mês de greve de fome na Cartoucherie de Vincennes para exigir que o governo francês e a Europa pudessem intervier no conflito das Balcãs. Lembram do genocídio em Rwanda? Pois é, foi mais uma das muitas causas onde o nome do Walllon estava à frente... Lembram dos problemas da Rússia com a Chechênia??? Pois é, foi graças ao Wallon que descobri a Chechênia através das crianças dançarinas de Grosny que se apresentaram em março de 2002 no Théâtre du Soleil. Mais uma vez Wallon reuniu seus alunos, como no caso da produção de Les Cantates, espetáculo de François Tanguy em dezembro de 2001, também no Théâtre du Soleil, para dar um help à produção local.

Pode-se encontrá-lo também organizando colóquios e eventos os mais diversos, verdadeiro workaholic porque entre as diversas disciplinas que leciona, em Paris e em Louvain, entre a sua extensa produção e seu engajamento político, é de dar inveja - e olha que eu sou pilhada, mas ele me bate longe, e "last but not least" ainda vem dar aulas de bicicleta.

Agora mesmo entre 21 e 23 de janeiro, junto com Christian Biet ele organiza um colóquio internacional intitulado O impacto da vanguarda americana na Europa e a questão da performance. Três dias de imersão posto que as conferências começam as nove da manhã e acabam perto de onze da noite, buscando os vestígios que a vanguarda americana deixou na Europa. Tentando entender o lugar que ela ocupa hoje e como a reflexão americana renovou o pensamento do teatro através da noção de performance, das performances studies a performance art. Na presença de artistas e críticos europeus e americanos, as diferenças nacionais serão postas em dia, em questão e confrontadas.

Ao lado de Wallon figuras de peso como Georges Banu, Bobby Baker, Thomas Bishop, Daniel Dobbels, Josette Féral, Bruna Filippi, Françoise Kourilsky, Jean-Marie Pradier, Andrew Quick, Richard Schechner, Éric Vautrin, Marianne Weems (Builders Association)e muitas outras feras. Vocês já sabem que nesses três dias minha agenda está tomada, encontrar-me-ei no Théâtre National de la Colline ou no Institut National d´Histoire de l´Art (INHA), dois locais onde serão realizados os encontros.

Pensa que acabou? Nada disso dia 29 de janeiro ele organiza um outro evento, dessa vez no Théâtre de l´Odéon, um dia dedicado aos estudos reunindo os estudantes das formações de "Administração do espetáculo vivo" e "Economia e gestão de projetos musicais" do Centro de educação permanente da Universidade Paris- X Nanterre, em parceria com IRMA e ARCADI. Detalhe: essa que vos escreve é uma das conferencistas do dia e falarei sobre a turnê latino-americana do Théâtre du Soleil. Espero repetir o sucesso obtido quando da exposição que fiz na aula de Emmanuel Wallon, aplaudida pelos alunos, que acabara de conhecer e cumprimentada pelo pequeno Alexandre, russo-argentino, de 10 anos de idade, que acompanha sua mãe as aulas. Ele se encantou com as histórias contadas... como eu me encanto ainda hoje com as contadas pelo Wallon.

Com ele aprendi o que sei sobre o modelo de produção francês, com ele tracei o esboço do que viria a ser meu plano de tese, com ele descobri Max Weber, Howard Becker, Raymonde Moulin e Nathalie Henich, sem falar em Bourdieu, que ele me explicou melhor do que o próprio Bourdieu seria capaz de fazer... com ele aprendi a pensar, a analisar, a ser menos emocional nas minhas análises, menos parcial, a ser mais francesa sem deixar de ser totalmente brasileira. Coisas que só um francês de boa cepa pode ensinar... porque se há algo que eles sabem fazer aqui é pensar...

No intervalo da aula de hoje, conversando com Maria e Bianca, duas brasileiras que com o Heitor, compõem o trio de brasileiros inscritos na disciplina do Wallon discutíamos a importância da teoria na formação teatral na França. A separação existente entre o Conservatório que forma os atores e as universidades que formam os teóricos. Elas, atrizes que são, estavam um pouco decepcionadas. Eu, mulher da prática teatral acho que não há lugar no mundo onde se pense mais teatro do que na França, aliás, acho que não há lugar no mundo onde se PENSE mais do que na França, e sou obrigada a confessar que esses teóricos franceses, dos quais muitos flertaram com a prática, fazem a minha vida mais bonita. Entre Antoine, Lugné-Poe, Artaud, Copeau, Dullin, Jouvet, Barrault, Vilar, Vitez, Ryngaert, Banu, Pavis, Banu-Borie, Pradier, Abirached, Picon-Vallin e Sarrazac meu coração balança... Mas quando eu crescer quero ser Emmanuel Wallon - será que dá tempo?


Deolinda Vilhena é jornalista, produtora cultural, mestre em Artes pela ECA-USP, mestre e Doutora em Estudos Teatrais pela Sorbonne Nouvelle-Paris III

Opiniões expressas aqui são de exclusiva responsabilidade do autor e não necessariamente estão de acordo com os parâmetros editoriais de Terra Magazine.

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Emmanuel Wallon, o professor formado aos 20 anos pelo Instituto de Estudos Políticos de Paris

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