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Quinta, 17 de janeiro de 2008, 08h02

Para Abadia, Justiça brasileira tem seu preço

Fabrício Escandiuzzi/Especial para o Terra
Imagem da mansão do traficante Abadia, em Florianópolis (SC)
Imagem da mansão do traficante Abadia, em Florianópolis (SC)

Wálter Fanganiello Maierovitch

O traficante Juan Carlos Ramírez Abadia, megaoperador do colombiano Cartel do Vale Norte, ofereceu, em troca de algumas informações sobre comparsas, de benefícios para a esposa e para ele, entregar à Justiça US$ 35 milhões. Nada de cheque, em cédulas que estariam no Brasil.

Trata-se de pedido inédito.

O mafioso e traficante Tommaso Buscetta quis o contrário de Abadia. Ou seja, delatar os mafiosos de Corleone que tomaram o poder do grupo palermitano de Buscetta, mataram os seus familiares e levaram-no a se "exilar" no Rio de Janeiro. Buscetta pediu, e conseguiu, ter seu pequeno patrimônio preservado.

O direito premial foi intuído no século XIX por Rudolf Von Hiering, um jurista alemão. Grosso modo, Hiering disse que a escalada criminal e incapacidade apuratória do Estado levariam este, no interesse maior da sociedade, a oferecer prêmio ao delator.

Como se percebe, o interesse público é que dá o norte numa negociação criminal, chamada de "play bargaining" ou, também, de delação premiada.

No caso de Abadia, ele pretende, basicamente, ser extraditado para os EUA onde, também, existe o direito premial. Certamente, já acertou tudo com a DEA, que é a agência norte-americana antidrogas e que informou a polícia brasileira sobre a presença de Abadia no nosso país.

Abadia, seguramente, conhece a barganha realizada, nos EUA, pelos irmãos Ochoa, sócios de Pablo Escobar no cartel de Medellín. Foi um grande negócio para os então extraditados.

Os Ochoa entregaram um monte de traficantes, revelaram rotas do tráfico e nomes de autoridades corruptas. Hoje, com o patrimônio preservado pela barganha feita com a Justiça dos EUA, e depois de breve permanência em prisões norte-americanas, são, em gigantesca fazenda, prósperos criadores de gado de raça e de cavalos de sangue na Colômbia. São potentes na área da agro-indústria.

Abadia ofereceu-se a delatar comparsas que estariam fora do país, ou seja, inalcançáveis pela polícia brasileira. E colocou à disposição dinheiro, para conseguir ficar livre da punição que merece. Em outras palavras, para Abadia, a Justiça brasileira tem seu preço.

Como ele ofereceu US$ 35 milhões, escondidos no Brasil, caberá a polícia, a partir da revelação de Abadia, iniciar o "fallow the money", ou seja, correr atrás dos dólares.


Wálter Fanganiello Maierovitch é colunista da revista CartaCapital e presidente do Instituto Giovanni Falcone (www.ibgf.org.br).

Opiniões expressas aqui são de exclusiva responsabilidade do autor e não necessariamente estão de acordo com os parâmetros editoriais de Terra Magazine.

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