
João Carlos Salles
Boris Spassky disse, certa feita, que o jogo de xadrez seria como a vida. A afirmação é trivial. O xadrez encenaria a guerra, a luta, a vitória, o fracasso, a morte. Mesmo verdadeira, a analogia é pobre, diz pouco, quase como se revelasse algum possível distanciamento, algum ceticismo ante um simulacro.Mais expressiva é a analogia entre o xadrez e a linguagem, caso notemos que a analogia se dilui pela pura e simples identificação, tornando-se o xadrez apenas um exemplo privilegiado. O xadrez é, então, simplesmente, linguagem, tratando-se de ver quem nele pode sentir-se em seu elemento, quem pode afirmar estar aí em sua própria pátria, em sua própria língua.
Cada peça é uma palavra, cujo sentido e tempo dependem de um contexto. Nesse caso, saber o significado da palavra bispo é poder senti-lo em sua condenação a apenas metade do tabuleiro, enquanto um peão carrega seus andrajos lentamente, podendo contudo tornar-se cada vez mais forte. É perceber a espacialização do tempo pelo tabuleiro, que uniformiza durações distintas, dispondo em um mesmo campo lances contingentes e lances necessários e separando um gesto legítimo de um puro absurdo.
Jogar xadrez é, pois, falar uma linguagem. De todos os jogadores ilustres, de todos os alucinados enxadristas, certamente elegeríamos Bobby Fischer como o melhor e mais radical exemplo. Tendo aprendido o jogo, assenhorou-se de modo tão pleno dessa linguagem que, apenas aí, pareceu doravante ser um falante nativo. Apenas em relação ao tabuleiro parecia conhecer cada palavra em sua sutileza, em suas implicações, em seu tempo.
Ninguém lhe negaria a verve. Ácida e exagerada, como armas adicionais de um franco atirador aventureiro, misto de enxadrista e boxeur, capaz de afirmar valores os mais selvagens e competitivos. Era então impressionante, mas não exatamente genial, pois seus lances de xadrez talvez tenham sido suas únicas frases verdadeiramente sutis. Nesse campo, sim, além da prosa correta, que muitos alcançam com inteligência e esforço, Bobby Fischer parecia sempre capaz de fazer poesia.
Ljubomir Ljubojevic, aprendiz tardio da linguagem de Caissa, declarou não ter conhecido alguém tão empenhado, tão apaixonado pelo xadrez quanto Bobby Fischer. Esse mesmo indivíduo atrapalhado com o negócio do xadrez, talvez até por empenhar-se muito em não ter o destino de Steinitz, o primeiro campeão do mundo, que terminou seus dias na miséria e na loucura.
Fischer moveu-se também como um triturador de egos, uma exímia máquina de guerra, sobretudo do final dos anos 60 até 1972, quando destronou Spassky e todo xadrez soviético, após vitória impressionante nos matchs contra o pianista Mark Taimanov (6-0) e também contra a antiga outra promessa ocidental Bent Larsen (6-0). Para diminuir-lhe os méritos, alguns lembrariam, por exemplo, que Taimanov já não estava em seus melhores dias. É verdade ainda que a saúde de Larsen era fraca e a preparação de Spassky muito desleixada. Todas essas considerações somem, entretanto, quando vemos suas partidas e nos rendemos à profundidade de seus lances, à simplicidade elegante de sua lógica desconcertante, que tornava natural e necessário o lance mais imprevisível.
Bobby Fischer será lembrado também por exigir elevação da bolsa em disputa em Reykjavik, por suas declarações anti-semitas (sendo filho de mãe judia), por sua prisão no Japão, por voltar a derrotar Spassky 20 anos depois (mas então como um infrator, por jogar em Belgrado, quando antes fora um herói do ocidente), ou por seu elogio meio ensandecido ao 11 de setembro. Essa personagem empobrecida, entretanto, em um final de jogo arrastado e melancólico, estava longe da dimensão unilateral do xadrez que soube tornar tão tensa e rica. Nesse caso, reconduzi-lo à sua multiplicidade derradeira seria, paradoxalmente, diminuí-lo, como se, por vingança ante sua figura elevada, o tornássemos mais próximo de nossa imundície mundana.
Paranóico e brilhante, surpreendente e absurdo, refinado e rude, Bobby Fischer morreu. Agora, golpeados pela realidade de sua decadência, pelas imagens recentes de um velho adoecido, ninguém mais suspeitará de sua presença secreta nos jogos anônimos pela internet - o que costumava ocorrer sempre que algum jogador mostrava brilho excepcional.
Bobby Fischer disse: o xadrez é a vida! Não há lugar para uma mera analogia. E, com efeito, foi tão completa sua identificação com esse jogo, com essa pátria, cujos ares renovou, que enfim, observaram alguns, veio a morrer aos 64 anos, como se, quase ironicamente, tivesse votado um ano de vida a cada casa do tabuleiro. No hospício, Steinitz dizia poder desafiar até Deus para uma partida. Agora, em condições ideais, Fischer talvez queira fazer o mesmo e ainda, como outrora sonhou Steinitz, talvez queira e possa Lhe dar um peão de vantagem.
Terra Magazine
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AP
Bobby Fischer (1962): "Paranóico e brilhante, surpreendente e absurdo, refinado e rude"
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