Maria Alice Rocha
As polêmicas em torno da indústria da moda apresentada nas passarelas continuam. Com o encerramento dos dois maiores eventos de moda da América Latina, o Fashion Rio e a São Paulo Fashion Week, a atenção geral retorna para a Europa com os desfiles da Semana da Alta Costura de Paris.Mas um assunto nada agradável repercute na mídia internacional a respeito da São Paulo Fashion Week: o reduzido número de modelos negros nas passarelas. O assunto tem gerado debates, principalmente quando o tema da hora é a diversidade. E os questionamentos parecem mais enérgicos do que as soluções a curto prazo.
Não se pode aceitar, por exemplo, argumentos de que modelos negros combinam mais com coleções de verão. Numa contra-argumentação curta e grossa, na África também há inverno. Além disso, a mobilidade como conseqüência da globalização faz com que muitos negros vivenciem invernos rigorosos.
No sentido oposto, tambem é difícil de aceitar que os extremamente brancos sejam desconsiderados da concepção de coleções de verão. É preciso lembrar que o cuidado com a exposição do corpo aos raios solares, as implicações dos bronzeamentos artificiais e a camada de ozônio rarefeita são constantes assuntos na mídia, e as conclusões sobre esses temas sao controversas.
O grande debate, e talvez uma forte razão para a existência dos "racismos" seja a própria base que move a moda. Quanto mais exclusivo, quanto menos pessoas tenham acesso, mais precioso, mais fashion, mais bacana, mais cool. Ou seja, mais excludente?
O ser humano, como dito por Aristóteles, é um ser social, e seguindo o seu instinto natural, procura um grupo de identificação. Os grupos, por sua vez, se reconhecem por adotar determinados elementos que os distinguem dos outros grupos, e isso reforça a idéia que a natureza da moda promove, consciente ou inconscientemente, a segregação, seja ela social, cultural, econômica ou racial.
Com o início das temporadas de lançamentos nas grandes capitais da moda como Paris, Milão, Nova Iorque e Londres, é possivel fazer essa análise em tempo real. Mesmo com um elenco de modelos que inclua as mais diversas raças, o sistema ainda é excludente, pois ignora as diferenças de tamanhos e proporções corporais.
Os debates nao começaram ontem, e as restrições quanto à massa corporal das modelos é somente a ponta do iceberg. Na França, por exemplo, os estilistas se recusaram a pesar e medir as modelos para enquadrá-las ou não nos seus desfiles desta temporada. Segundo alguns deles, o olho é o melhor dos equipamentos. Na verdade, o padrão de beleza é que parece estar equivocado para com a realidade. Qual o percentual de pessoas magérrimas no mundo?
Sabe-se da epidemia de obesidade que atualmente assola a Europa e os Estados Unidos e já preocupa as autoridades de saúde de todo o mundo. Sabe-se também do grande número de pessoas que freqüentam as academias de ginásticas para modelar o corpo, ou até modificá-lo. Sabe-se ainda que a quantidade de cirurgias plásticas para implantes de silicone tem aumentado em crescimento exponencial. Por que insistir com o culto aa magreza?
No Reino Unido, já ocorreram reclamações sobre o caimento de roupas, que ficam lindas em pessoas que vestem 38 ou 40 e sao "sequinhas", mas que não assentam bem em pessoas que vestem os mesmos manequins, 38 ou 40, mas que são "curvilíneas". Isso sem falar nos tamanhos de manequins maiores, cada vez mais recorrentes entre a população.
Na verdade, tem-se a impressão que a indústria precisaria chegar mais perto dos seus consumidores, e observá-los com lente de aumento. Dessa forma, talvez fosse possível corresponder a mudanças aparentemente tão evidentes como os formatos dos corpos.
As declarações de algumas marcas que se concentram num público jovem, sarado e ativo fazem um estrago enorme na auto-estima de muitos consumidores. Quase ninguém está plenamente bem com o seu corpo, e as opções do mercado parecem ser bastante restritivas.
Não será surpresa se começarem os protestos de consumidores "fora do padrão" diante de badalados desfiles exigindo respeito aos seus corpos, como já é comum se ver com relação ao uso de peles e de transgênicos. É importante lembrar que comunica uma mensagem individual de cada ser humano. O visual do corpo pode traduzir não somente o estilo de vida e a saúde, mas também a sua carga genética. E como que num labirinto, o assunto retorna para o campo das etnias.
É certo que há iniciativas relacionadas com medições corporais de consumidores, considerando a diversidade e usando inclusive tecnologias como o body scanning, para se chegar a uma tabela de medidas mais próxima da realidade. A sociedade é dinamica e os corpos também. Mas, aparentemente, são quase imperceptíveis no mercado as iniciativas baseadas nos dados gerados por esse tipo de sistema.
A exceção, é claro, vem das marcas que trabalham com roupas sob medida, que cobram mais caro por comercializarem produtos exclusivos. Excludentes? Possivelmente um bom tema para uma reflexão mais profunda.