Terra Magazine

 

Quinta, 24 de janeiro de 2008, 08h53

Pós-Abadia cartéis formam "federação" do tráfico

Wálter Fanganiello Maierovitch
Exclusivo para Terra Magazine

Um relatório secreto do governo norte-americano mostra que quatro potentes cartéis mexicanos unem-se a formar uma "federação".

Os chefões dos quatro grupos batizaram a união com o nome de "Federacion", formada pelos cartéis de Sinaloa, Milênio, Juarez e Guadalajara.

Esses quatro cartéis mexicanos são responsáveis, segundo observadores do fenômeno das drogas, pelo envio de 66% da cocaína que, pela fronteira e mar (Golfo do México), chega aos EUA.

A idéia de uma federação formada por quatro potentes associações criminosas partiu do megatraficante Joaquin Gusman Loera que é o chefão do cartel Sinaloa.

A gota-d'água deveu-se às recentes prisões de operadores e chefes de cartéis co-irmãos. Dentre elas a de Alfredo Beltran Leya, um dos fortes operadores do cartel de Sinaloa, e de Juan Carlos Abadia - este a serviço, no Brasil, do co-irmão cartel colombiano do Vale Norte.

Os quatro cartéis mexicanos reunidos em federação dedicam-se, mais intensamente, a enviar a cocaína de procedência colombiana para o mercado consumidor norte-americano.

Com a união em federação, deverão operar mais intensamente as redes num imenso espaço formado entre a cidade de Juarez (fronteira com a americana El Passo) e a península de Yucatán, no Golfo do México.

O lado do Pacífico ainda ficará sob domínio do cartel de Tijuana, sediado na cidade do mesmo nome e que faz fronteira com a norte-americana San Diego. O cartel de Tijuana controla o tráfego pelo Golfo da Califórnia e ainda não se interessou em ingressar na "Federacion".

PANO DE FUNDO
Por não mais interessar ao jogo geoestratégico da dupla Bush-Uribe, a agência DEA (Drug Enforcement Administration) recebeu sinal verde, a partir de setembro de 2007, para desmontar o colombiano Cartel do Vale Norte e os cartéis mexicanos a ele coligados. Ou seja, cartéis responsáveis pela cocaína que invade as fronteiras dos EUA, via México.

Frise-se: o colombiano Cartel do Vale Norte era o responsável por grande parte do financiamento dos paramilitares das AUC (Autodefensas Unidas de Colômbia). E as AUC, de ideologia de direita, combatiam as Farc (Fuerzas Armadas Revolucionarias de Colômbia), de esquerda. Daí, a liberdade, durante doze anos, de Diego Montoya Sanches (Don Diego), chefão do Cartel do Vale Norte.

Com o processo de pacificação do governo Uribe, vários paramilitares da AUC depuseram as armas, passaram para a legalidade e saíram das listas de extradições. Assim, cessou o financiamento do Vale Norte, que, em troca, tinha facilidade em enviar cocaína para os cartéis mexicanos.

O fim do interesse norte-americano em suportar o Cartel do Vale Norte ocorre a partir de agosto de 2007. E a DEA (Drug Enforcemente Administration) entrou em ação para executar, a contar de setembro de 2007, o plano para desmonte do cartel do vale Norte e os seus coligados mexicanos.

O DESMONTE
No final do ano de 2007, ocorreram duas importantes prisões no México. A primeira foi de Sandra Ávila Beltran, nascida em Tijuana, e apelidada "A Rainha da Cocaína". A segunda foi de Alfredo Beltran Leya, do cartel mexicano de Sinaloa.

A essas prisões se deve acrescentar, a partir de setembro de 2007, a de Juan Carlos Abadia, no Brasil e, na Colômbia, de Diego Montoya Sanches (Don Diego) e de Diego Espinosa Ramirez (El Tigre).

Para se entender o quadro. Sandra é da família Beltran, do cartel de Sinaloa. Ela deixou o cartel de Sinaloa e montou o seu próprio cartel, que levou o nome de cartel de Jalisco.

Por sua vez, Beltran Leyva é operador do cartel de Sinaloa. O cartel mexicano de Sinaloa recebia cocaína do colombiano cartel do Vale Norte.

Sandra, a Rainha da Cocaína, era amasiada com o colombiano Diego Espinoza Ramires, apelidado de El Tigre. O amásio de Sandra era o segundo operador, até ser preso, do Cartel do Vale Norte.

Em face das prisões, quer de colombianos (final de 2007: Abadia, Montoya Sanches - chefão do Vale Norte - e El Tigre), quer mexicanos (final de 2007: Beltran Leyva e Sandra Beltran), levou à constituição da "Federação" de cartelitos mexicanos.

Em resumo: começou o pós-Abadia, ou seja, a união de cartéis em federação. Uma reação ao desmonte que a interesseira DEA resolveu executar, depois de muitos anos de tolerância e de toneladas de cocaína no mercado norte-americano.


*Wálter Fanganiello Maierovitch é colunista da revista CartaCapital e presidente do Instituto Giovanni Falcone (www.ibgf.org.br).

Opiniões expressas aqui são de exclusiva responsabilidade do autor e não necessariamente estão de acordo com os parâmetros editoriais de Terra Magazine.
 
Montagem/Secretaria de Segurança Pública México/AP
À esquerda, Sandra Beltran, a "Rainha da Cocaína", e Alfredo Beltran Leya, do cartel de Sinaloa. À direita, o colombiano Juan Carlos Abadia

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