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Quinta, 24 de janeiro de 2008, 08h05

Festa da HQ na França

Claudio Martini

De 24 a 27 de janeiro acontece em Angoulême, no sudoeste da França, a 35ª edição do mais importante festival de HQs da Europa.

Este ano o Festival abandonou a rede de lojas e vendas pela internet "E. Leclerc", seu patrocinador de longa data, por dois outros: a internacional "FNAC" e a "SNCF", responsável pelo sistema ferroviário francês, que transporta e despeja nas estreitas e íngremes ruas de Angoulême a grande maioria de seus visitantes.

O prelúdio do festival, como no ano passado, foi a realização do evento 24 Horas de Histórias em Quadrinhos. O desafio era realizar uma história em quadrinhos, com uma capa, 22 páginas e uma quarta capa em apenas 24 horas: das 15 horas do dia 22 às 15 horas do dia 23. Para não haver histórias pré-roteirizadas, foi solicitado aos artistas, no momento do início da jornada, para que a página 12 apresentasse uma cena de reunião de família.

Organizado pela La Maison des Auteurs, este ano o número de participantes foi impressionante: 79 profissionais, 57 amadores e 67 estudantes. O que totalizou cerca de 4.600 páginas (excluindo-se alguns que desistiram, não puderam comparecer ou não conseguiram realizar todas as páginas no tempo estipulado), contra as 600 do ano passado. O site 24hdelabandedessinee.com traz todas as pranchas desenhadas, vários vídeos mostrando os diversos ateliês onde foram realizadas as HQs e mesmo links para algumas web cams que acompanharam o trabalho dos artistas.

As grandes atrações do festival são as exposições que se espalham pela cidade e a presença de centenas de autores, conversando com o público, lançando e autografando seus últimos trabalhos.

José Muñoz (autor de Alack Sinner, junto com o roteirista Carlos Sampayo), presidente do júri e autor do cartaz do festival deste ano, organizou a mostra Os Quadrinhos Argentinos Vistos por José Muñoz - Descoberta de uma História Multi-Étnica, com uma retrospectiva de 80 anos das HQs argentinas. Passando pelos trabalhos de Solano Lopez, do italiano Hugo Pratt, do uruguaio Alberto Breccia, Quino, Copi, Carlos Nine, os novos desenhistas argentinos e as 200 páginas de originais de Muñoz, de seus primeiros desenhos até seu mais recente trabalho, sobre Carlos Gardel.

O Manga Building vai trazer uma exposição com o trabalho do Clamp (grupo formado por quatro artistas japonesas); a presença dos autores Daisuke Igarashi, Miki Tori e Yoshio Sawai; videoconferências diretamente do Japão com Jiro Taniguchi, entre outros; performances digitais e exibição de filmes.

35 Anos de Premiados traz uma vídeoinstalação sobre os grandes homenageados nos anos anteriores: Crumb, Uderzo, Pratt, Moebius, Morris, Eisner, Bilal, Tardi e mais trinta autores.

E também as exposições: 50 Anos de Schtroumpfs (os azuis Strunfs), Ficção Científica - As Cidades do Futuro, a do desenhista italiano de quadrinhos infantis Luciano Bottaro, a do norte-americano Ben Katchor, as dos mestres Sergio Toppi e Hermann, a do Quarteto Fantástico, a de ilustrações de Moebius para a revista La Vie.

Os espetáculos também ganham cada vez mais espaço em Angoulême. Além do Concerts de Dessins, onde uma dezena de desenhistas cria uma história instigados pela performance de um grupo musical (este ano inspirada no tango, em homenagem a Muñoz), haverá também outras interações artísticas que podem ser acompanhadas pelo público no teatro da cidade: Pascal Rabaté (que participou do FIQ de Belo Horizonte em outubro passado) com a atriz Yolande Moreau, Joann Sfar (de O Gato do Rabino) com o cantor Thomas Fersen, um duelo com desenhos entre os quadrinhistas das revistas Spirou e Fluide Glacial.

Com a presença de um grande número de autores, seja participando dos Encontros Internacionais, que este ano traz Guy Delisle, Scott McCloud, Paul Pope, Carlos Sampayo e Tanino Liberatore - em temas como Pensar a HQ, Direitos do Autor: Com ou Sem Manteiga?, Da Ficção Científica à Pré-História -, seja nas dedicaces (sessões de autógrafos onde os artistas geralmente realizam trabalhos extremamente elaborados), Angoulême ergue a bandeira da indústria francesa de HQs, mas também do trabalho de autor, em um país onde são vendidos 40 milhões de álbuns por ano e que representam 10% dos livros comercializados. Em 2006 foram editados mais de 4.000 títulos, com um aumento de 15% em número de obras em relação ao ano anterior.

Um evento que mostra ao mundo a importância artística, cultural e econômica das histórias em quadrinhos.


Claudio Roberto Martini é designer gráfico e publisher da editora de HQs Zarabatana Books

Fale com Claudio Martini: claudio.martini@terra.com.br

Opiniões expressas aqui são de exclusiva responsabilidade do autor e não necessariamente estão de acordo com os parâmetros editoriais de Terra Magazine.

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Divulgação
Cartaz do Festival Internacional de Quadrinhos de Angoulêm feito pelo argentino José Munõz (daí o tango)

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