
Deolinda VIlhena
Omar Porras faz parte de um grupo, pequeno, de pessoas para quem eu tiro o chapéu. Chegou à França em 1984, como turista, assumiu a clandestinidade, e foi passando o chapéu em seus esquetes como clown na Praça do Beaubourg ou com suas marionetes nos trens do metrô que ele pagou seus cursos na escola de Jacques Lecoq, no Instituto de Estudos Teatrais da Sorbonne.
Foi assim também que ele bancou suas viagens, ora para ver os últimos instantes do Berliner Ensemble, em Berlim, ora para seguir as trilhas deixadas por Kantor na Polônia, ora para tornar-se um "protegido" de Grotowski no Work Center em Pontedera (Itália). Sem desperdiçar as oportunidades da vida alimentando-se em Paris dos ensinamentos de Peter Brook e de Ariane Mnouchkine.
Veja também:
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Coisa de quem é verdadeiramente apaixonado pelo que faz, ele afirma ser o teatro "o único lugar do mundo onde o ordinário torna-se extraordinário. É um lugar onde se é, ao mesmo tempo, rei, cão, prisioneiro, escravo, princesa, prostituído. Podemos ser tudo e nada ao mesmo tempo...".
Resutado: de todas as experiências, de colméia em colméia, fez seu próprio mel sem nunca se render à tentação de terminar em mais um discípulo, coisas de um autodidata confiante na sua capacidade de traçar seu próprio caminho e ser mestre do seu destino.
Talvez por isso, não se sinta o mais remoto fio de amargura na voz de Porras quando fala dessa época "minha cara de estrangeiro, o meu nome árabe e o fato de ser clandestino acabavam atraindo a simpatia das pessoas e eu podia dormir em casa de amigos, ou no metrô, o que me possibilitava freqüentar ao mesmo tempo o mundo dos artistas e o dos trabalhadores da noite".
Ele sabe que os anos passados nas ruas, a experiência adquirida nas praças, no metrô ou nas salas de aula são os responsáveis por esse saber prático e teórico que ele, inteligentemente, jamais deixou de desenvolver.
Em 1990, seis anos após sua chegada a Paris, cria em Genebra sua companhia, mais do que isso, um "centro de criação, de formação e de investigação" onde desenvolve uma técnica teatral bastante pessoal, "centrada no corpo do ator, a sua projeção no espaço e a utilização de máscaras, buscando inspiração junto à tradição ocidental e oriental."
Hoje, aos 44 anos, integrando o Panteão dos diretores que já dirigiram um espetáculo na Comédie-Française, com uma indicação para o prêmio Molière, outra para o XI Prix Europe Nouvelles Réalités Théâtrales, premiado em 1994 com o Romand des Spectacles Indépendants, pela montagem de "A Visita da velha senhora", com passaporte suíço no bolso, sem jamais renegar sua latinidade, ele tem à sua disposição os ouros, os tapetes vermelhos e as subvenções dos grandes teatros europeus.
E ainda assim, Porras continua o mesmo garoto. O olhar inicialmente desconfiado parece estar pronto a se transformar em um belo e aberto sorriso. A impressão que fica após duas horas de papo é a de ter encontrado um homem que não vendeu sua alma e cujo percurso é digno do mais fiel dos malandros e dos aplausos que ele tem recebido.
Brasileiras e brasileiros, amantes do teatro ou não, tenho a honra de vos apresentar Omar Porras um "metteur en scène" completo e em permanente ascensão.
Um encontro inesquecível às portas do cemitério de Montmartre
Quando a assessoria de imprensa de Porras gentilmente me comunicou a hora e o local da entrevista que faria com ele tratei de procurar no mapa a "avenue Rachel". Encontrei-a pequenina, às portas do cemitério de Montmartre. Para os que não me conhecem, devo dizer que cemitério é um lugar para onde não irei nem morta!
Mas como os cemitérios de Paris estão cheios dos habitantes ilustres que aqui viveram e que até hoje abastecem nosso imaginário, descobri que meu encontro com Porras seria abençoado por uma turma da pesada, composta por Offenbach, Halévy, Nijinski, Feydeau, Louis Jouvet, Degas, Truffaut, Dalida e last but not least Marie Duplessis, morta aos 23 anos e musa inspiradora de a Dama das camélias de Alexandre Dumas (filho) e La Traviata, a ópera de Verdi.
Tudo isso tendo como cenário um hotel três estrelas, apenas correto, para um diretor que é, ele sim um verdadeiro cinco estrelas do teatro atual, numa pequena rua que tem nome de avenida e ao mesmo tempo daquela que foi a maior atriz trágica de seu tempo, Elisa Rachel Félix, ou apenas Rachel, causadora de uma verdadeira revolução na interpretação da tragédia clássica no começo do século XIX.
Confesso que a caminho de Montmartre, meu bairro do coração em Paris, viajei nessa história toda, tendo como tema de fundo musical mental a canção de Manu Chao, "Clandestino". Talvez tudo isso tenha contribuído para o belo encontro que a vida me reservou com esse mestre da arte de representar.
O percurso entre a clandestinidade e os grandes palcos, haja malandragem
Existem várias lendas em torno do sucesso, uma delas tem uma capacidade quase infinita de me irritar: a necessidade de ter que se fazer sucesso na terra do colonizador. Vira e mexe se inventa um brasileiro, um latino-americano, que "abala Paris em chamas", que "conquistou Nova Iorque", que "fez Londres se curvar ante ao seu talento".
Em 99,99% dos casos, é a mais pura balela. Alguns até têm direito aos 15 minutos de fama pregados por Andy Wahrol, ou seja alguns até fazem sucesso, mas SER sucesso em cidades como Paris, Londres ou Nova Iorque, é para poucos, pouquíssimos.
Entre os nossos brasileiros por exemplo, só na música, nosso mais belo e mal explorado produto de exportação, isso acontece, e mesmo assim, mais ou menos. Nossa unanimidade nacional, Chico Buarque - o brasileiro mais conhecido em Paris, pelo menos na praia parisiense que eu freqüento - pode até lotar os 6.000 lugares do Zenith por duas ou três noites na mesma temporada, mas duvido que venda discos na França em quantidade capaz de fazer dele um best-seller.
O resto da turma, Caetano Veloso, Gilberto Gil, meu amado João Bosco, o príncipe Paulinho da Viola com direito a página inteira no Le Monde, e a nova geração, da qual faz parte Lenine - uma invenção francesa - segura bem uma turnê de festivais de verão e c'est fini. E olhe que falo da nata, la crème de la crème. Quero ver esse povo se instalar em Paris, trabalhar aqui por duas décadas e passar dez anos lotando teatros com capacidade oscilando entre 600 e 1.000 lugares a cada nova temporada, criando a cada ano um espetáculo como manda a lei aqui.
Se depois de dez anos, eles lotarem TODAS as sessões, de TODAS as temporadas, eu serei obrigada a dizer a vocês: eles abalam Paris! Nem Baden Powell passou perto, e mestre Baden sacudiu a capital francesa em diversas ocasiões.
Pois encontrei um homem que há quase duas décadas abala não apenas Paris, mas o mundo, afinal a sede da sua companhia é em Genebra e suas turnês anuais passam por países tão diversos quanto a Alemanha e o Japão, onde ele já esteve diversas vezes, e a cada uma delas a temporada foi um triunfo.
O nome dele é Omar Porras - e tomem nota do nome porque a vidente Deolinda está em ação - um colombiano que chegou a Paris, literalmente com uma mão na frente e outra atrás, há vinte e quatro anos.
Mas como santo de casa não faz milagre, principalmente nesse nosso cantão latino-americano eternamente marcado com o símbolo de colonizados, apenas em 1995 Porras se apresentou na Venezuela e precisou esperar 18 anos, para em 2002 se apresentar pela primeira vez em Bogotá. Mas a montagem de "Ay! Quixote", uma adaptação de Dom Quixote, que causou tumulto e pode-se dizer que ele realizou de forma apoteótica seu sonho de representar em sua terra natal.
O Brasil ele não conhece, mas isso não é grave, grave é o Brasil não conhecer Porras. Sabem que nome ele deu à sua companhia de teatro? Teatro Malandro, e nela, os primeiros ensaios foram ao ritmo da nossa capoeira.
A França é uma terra abençoada, Deus é parisiense e não carioca, e afirmo isso quando penso nas possibilidades que essa terra oferece aos artistas do mundo inteiro, TODOS os grandes desse mundo das artes, em algum momento passaram por Paris e aqui encontraram abrigo. Quantos países no mundo vocês conhecem que subvencionariam um artista estrangeiro como a França há 38 anos subvenciona o inglês Peter Brook???
Para vocês terem uma idéia da generosidade da França na atual temporada estão em cartaz apenas em Paris e arredores: o italiano Pippo Delbono, que bate ponto aqui uma temporada sim e a outra também. Desta vez no Théâtre du Rond-Point ataca sempre na sua língua natal. O alemão Thomas Ostermeier ocupa a partir do dia 31 de janeiro o Théâtre national de Chaillot com "Sonho de uma noite de verão" de Shakespeare e em alemão. O húngaro Tamas Ascher chega com dois espetáculos, um dos quais em sua língua materna, "Ivanov", de Tchekhov, que será levado no Théâtre de l'Odéon e o outro, em francês, "Figaro divorce", de Horvath, que entrará no repertório da Comédie-Française. O polonês Krzysztof Warlikowski depois de "Kroum", no Odéon desta vez tem seu lugar garantido no Rond-Point, com "Angels in America", de Tony Kushner e em polonês, peça já apresentada no Festival de Avignon, em julho de 2007.
Tudo bem que a legenda no teatro ajuda. Mas muito antes dela a França já era o país que mais acolhia as companhias internacionais, a nossa Maria Della Costa fazendo "Gimba, o presidente dos valentes" de Guarnieri que o diga, pois se apresentou no Teatro das Nações no começo dos anos 60 e mestres Chico Buarque e João Cabral de Mello Neto encantaram a geração de maio de 68 com as apresentações de "Morte e vida severina" no festival de Nancy, criação de Jack Lang, e sem legendas
Pois é, entre muitas coisas boas, coube a Paris me proporcionar a descoberta do teatro de Omar Porras, aliás Paris mostrou Porras ao mundo, embora sua a carreira na França tenha começado em Dijon.
Foi em 1993, com sua primeira montagem de "A Visita da velha senhora", de Dürrenmatt, uma versão notável, de acordo com a crítica da época, que Gérard Violette diretor do Théâtre de la Ville não deixou de observar e desde então Porras é um habitué das temporadas parisienses, onde apresentou, entre outras coisas, sua versão de "Dom Quixote", de "Dom Juan" de Tirso de Molina, "Bodas de sangue" de Garcia Lorca, "A História do soldado" de Stravinski e Ramuz, "A Visita da velha senhora", segunda versão, na qual ele mesmo interpretava a "velha senhora".
Em 2006 com um jogo de máscaras sem precedentes ele fez seu début na Maison de Molière, a convite de Muriel Mayette, que dá sequência ao trabalho renovador de seu antecessor Marcel Bozonnet, com a montagem de Pedro e o comendador, de Lope de Vega. O espetáculo já entrou para os anais da Comédie-Française, com a indicação para o Molière 2007 na categoria "Melhor espetáculo de teatro público".
Porras perdeu para uma versão de "Cyrano de Bergerac", dirigida por Denis Podalydès e, também, produzida pela Comédie-Française. Cá para nós, ele não perdeu. Em sã consciência quem daria o Molière a um colombiano, dirigindo um texto espanhol na Maison de Molière??? Na França, a prata da casa ainda tem o seu valor. E eles têm razão.
Vi os dois espetáculos, e embora Cyrano seja meu texto preferido, assim como Pelléas et Mélisande é minha ópera preferida, podem cair de pau, mas lembrem-se que aprendi com Montaigne que «je donne mon avis non comme bon mais comme mien" ("dou minha opinião não como boa, mas como minha"), e como não faço questão nem de seguir modas nem de fazer o gênero politicamente correto, abro meu coração sem medo. Posso afirmar que o Pedro e o comendador de Porras era infinitamente superior em sua contagiante alegria.
Terra Magazine
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Divulgação
O "malandro" colombiano Omar Porras
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