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Sexta, 25 de janeiro de 2008, 07h57

Omar Porras - Parte 2

Deolinda Vilhena

O Teatro Malandro
Vamos ver como Mestre Houaiss define malandro: que ou aquele que não trabalha, que emprega recursos engenhosos para sobreviver; vadio; que ou aquele que leva a vida em diversões, prazeres; que ou aquele que tem preguiça; mandrião, indolente ; que ou aquele que furta, que vive fora da lei; ladrão, gatuno, marginal; que ou aquele que é sagaz, arguto; que ou aquele que se vale de astúcia enganosa; finório, espertalhão; que ou aquele que simboliza certo personagem-tipo carioca das classes sociais menos favorecidas, no séc. XIX ligado à capoeiragem e à valentice, e no séc. XX dado geralmente como um boêmio sensual, de reconhecida lábia e modo peculiar de se vestir, mover, falar etc.

Será que o teatro de Porras se encaixa nessas definições? Ou será que o próprio Porras é o Malandro?

Talvez o teatro desse colombiano tenha guardado algo dos seus tempos de clandestino, essa maneira meio marginal de ser, que ele parece fazer questão de preservar. Mas que Porras tem por vezes um jeitão malandro-carioca de ser e que se já passou da fase boêmio sensual, guarda uma reconhecida lábia e um modo peculiar de se vestir, mover, falar...

Mas a malandragem do Malandro talvez seja a derisão que existe nos espetáculos de Porras, e que me encanta. Um misto de ironia com sarcasmo que se investe ao mesmo tempo de uma estética burlesca, de um teatro de máscaras que coloca o desempenho físico a serviço do imaginário, e faz com que seu teatro questione constantemente as estruturas e os efeitos utilizados pelo adeptos do espetacular cênico. Uma das frases de Porras que gosto diz que o "Teatro Malandro faz teatro e não espetáculos".

Impossível assistir às encenações de Porras sem se deixar impressionar pela atenção especial dedicada à estética da montagem e da reciclagem dos "mythèmes" (Lévi-Strauss) que, me parece, ser parte integrante da poética do Teatro Malandro.

Na minha modestíssima opinião, Porras é acima de tudo um humanista, cuja evidente filiação a Mnouchkine me foi confessada por ele com carinho. Como Ariane, ele é livre de ideologias, mas cheio de ideais. Ambos compreenderam cedo que as ideologias tendem a reduzir o campo de visão, enquanto os ideais aumentam.

Mas Porras vai mais longe. Ele sabe que não deve se fechar em si mesmo, esse saltimbanco que manipula tão bem ópera e teatro, não se priva de nada, seja Shakesperare, Lope de Vega, Mozart ele abraça tudo. Das formas híbridas, as obras do repertório clássico e contemporâneo, entregando-se ora aos textos franceses, ora aos estrangeiros, Porras integra o time que eu amo, o de uma turma que mostra que um teatro realmente comprometido não precisa ser escravo de uma ortodoxia estreita nem agarrado a qualquer "mensagem" política.

Em bom português, Porras é a prova de que se pode fazer teatro da melhor qualidade sem ser experimental ou chato. Aliás, desde quando bom e sério têm chato como sinônimo???

Pedro et le commandeur, quando o vento da renovação invade a Comédie-Française
Não é a primeira vez que Omar Porras se interessa pelo teatro do Século de ouro espanhol. Ele já havia montado "Dom Juan", inspirando-se ao mesmo tempo em Tirso de Molina e Molière. Agora é a vez de "Pedro e o comendador". Impressionante ver o trabalho dos atores do Français (como os franceses de boa cepa se referem à Comédie-Française), mais ainda ao saber que eles aceitaram de bom grado a proposta do diretor, acatando humildemente o uso da máscara, elemento essencial em qualquer criação que leve a assinatura de Omar Porras.

A história de Casilda (Elsa Lepoivre) que se casa com Pedro (Laurent Natrella) e verá sua felicidade ameaçada pelo comendador de Ocaña (Laurent Armazenar), que se apaixona por ela, e após tentar seduzi-la, inutilmente, com presentes, decide afastá-la do marido, enviando-o para a guerra. Mas o amor de Casilda e Pedro é inabalável, como demonstra o alfabeto do casamento soletrado reciprocamente pelos dois numa das mais deliciosas cenas do espetáculo, a existência do respeito mútuo, a consideração compartilhada, acaba sendo mais importante que todos os juramentos. Por isso, Pedro ao ver sua honra e seu amor ameaçados mata o comendador.

Mas o rei em bom justiceiro compreende seu ato e ainda o condecora com um título de nobreza. O tema da honra, caro ao teatro espanhol da época em "Pedro e o comendador" conta com o apoio da justiça do Rei. Como em "Fuenteovejuna" e em "E o melhor juíz é o rei", Lope de Vega mostra que diante de uma alma vil, frente a camponeses dignos e virtuosos, só o Rei sabe fazer a diferença e recompensar a coragem. Como a nos dizer que a aristocracia assim glorificada é até mais bonita que uma democracia.

O lado heróico da história não parece impressionar Omar Porras. Na verdade ele se sente à vontade com o grotesco da comédia de costumes, e procura, sempre que pode, acentuá-lo. As máscaras (que levam a assinatura de um outro talentoso Porras, Freddy, irmão do diretor) amplificam o servilismo de Luján (Christian Blanc) e de Leonardo (Nicolas Lormeau).

De repente vejo em cena todo o pequeno povo de Goya dançando no palco, um sapateado estupendo ao som das músicas de Christian Boissel e Omar Porras num espetáculo magnífico, colorido, cujos efeitos de luz e de sombra deixam os mais sensíveis extasiados. Uma encenação perfeita, que me deixa a certeza de que poucas vezes, nos últimos anos pelo menos, uma entrada no repertório do Français obteve tamanho êxito.

Vale lembrar que uma das coisas que mais gosto na Comédie-Française é de "reencontrar" meus atores favoritos, e eles são vários, mas posso citar Christine Fersen, Denis Podalydès, Catherine Hiegel, Michel Vuillermoz (o Cyrano da montagem de Podalydès), Christian Blanc e Andrzey Sewerin. Ao optar pelo "jeu masqué", Porras não me tirou o prazer do encontro. Apenas me devolveu em dobro ao final do espetáculo. Nos agradecimentos, cada personagem tirava sua máscara e "devolvia" ao público o seu ator preferido. Momento de rara e inesquecível beleza.

E eu, nascida em Belém, protegida por uma estrela e vários reis magos, ainda tive a sorte de assistir à última apresentação de "Pedro e o comendador", tão ou mais emocionante que uma estréia, mas muito mais "redondinha". E recebi dois brindes, não sou Nana Caymmi mas me amarro num brinde: a última apresentação de Catherine Salviat na Sala Richelieu e a consagração de Omar Porras, ovacionado pela platéia que exigiu sua subida ao palco.

Momentos como esses a gente não esquece. Detalhe: o público era composto em sua grande maioria por jovens, e a quantidade de crianças na platéia só era comparável ao número que vi na montagem de "As fábulas de La Fontaine", dirigidas por Bob Wilson. Que prazer ver essa garotada descobrindo o teatro. Melhor ainda, ver que essa descoberta se dava por meio do BOM teatro, do teatro de qualidade... Esses vão voltar ao teatro!

Maître Puntila et son valet Matti, enfim um Brecht sob o signo da festa
Há dias em que o teatro nos embala, como se nos contasse uma história, pouco antes de irmos dormir, como que para alimentar nossos sonhos. Nem sempre se trata de um grande teatro, mas pouco importa: o seu encanto nos torna dóceis, e nos deixamos levar por um suave sentimento de infância. É o caso de Senhor Puntila e seu criado Matti, assinado por Omar Porras: um belo presente de uma noite para começar 2008.

É mais ou menos assim que começa a crítica de Brigitte Salino, do jornal Le Monde. Já disse a vocês que sou uma péssima tradutora, mas o sentido é exatamente esse e confesso que não poderia encontrar melhor começo para falar desse espetáculo que tem a marca do meu mais novo diretor preferido, Omar Porras.

Mas como ver um outro espetáculo de Porras após ter visto "Pedro e o comendador" que tanto amei?

Pois é, dez dias depois lá estava eu na platéia de Senhor Puntila e seu criado Matti. E, felizmente, o encanto permaneceu. Vocês não podem imaginar o medo que tenho de ser decepcionada por um artista que um dia tocou forte meu coração... Mas não podia recusar um convite para a estréia de Senhor Puntila e seu criado Matti, peça "desprentensiosa" de Brecht, escrita em 1941 durante seu exílio na Escandinávia, mas precisamente na Finlândia. Puntila, um rico proprietário, é bom apenas quando está bêbado, o que acontece com freqüência. Sóbrio, ele é terrível, o que vamos descobrir ao longo do espetáculo até chegar a cena memorável, onde Matti prefere preservar sua identidade recusando-se a casar com a filha do patrão.

Que delícia o velho Brecht visto por Omar Porras, que consegue fazer de Puntila um ser até simpático, mesmo que dominado pelos "demônios" da sua classe social. O teatro de Porras é "jubilatoire", dizem os críticos franceses e eles têm razão, mas não encontro a palavra exata em português, alguém poderá me dizer se existe jubilatório na língua de Camões ou, quem sabe, na de Guimarães???

Adepto das máscaras, dos trapos, da irreverência e da liberdade, que faz dele um apaixonado pelo barroco - e deixo aqui um recado para Gabriel Villela: ao contrário da crítica tupiniquim, o povo aqui em Paris se amarra no barroco e aplaude o trabalho do Porras, detalhe maior ninguém usa o termo barroco com um sentido pejorativo, é puro luxo! - e nos faz pensar no teatro de Benno Besson, um parceiro de Brecht na criação do Berliner Ensemble. Mesmo sendo Porras menos político, e deixando bem claro que a fábula brechtiana o interessa menos. O cenário, criado por Jean-Marc Stelhé, parceiro constante de Besson, cria uma série de barracas na mais perfeita linha balança mais não cai, que aparecem e desaparecem de acordo com as necessidades da peça, nada muito distante dos teatros de feira, pelos quais Molière um dia caiu de amores. E como ele, Porras se apropria lindamente da "commedia dell'arte", num jogo alegre, distante da famosa ortodoxia brechtiana que durante muitos anos impediu que eu visse em Brecht uma única nesga de luz, tão cinza e tão pesado é tudo o que se monta dele.

O extraordinário nesta montagem de Porras é que tendo um ponto de partida bem próximo da farsa, ela preserva seu fôlego eliminando uma certa afetação didática tão presente, senão em Brecht, pelo menos no meu imaginário ligado a Brecht.

Porras, em uma de suas entrevistas, mostra-se apaixonado pela maneira como Brecht explora esta dupla, patrão-empregado, "tão teatral, baseada numa relação de força sempre dinâmica, e dialéticamente aberta a todas às reversões". Segundo ele, "poderiámos pensar em Jacques o fatalista e o seu amo de Diderot, mas o que reencontramos aqui, sobretudo, são os ingredientes da commedia dell' arte. Brecht conheceu a obra de Carlo Gozzi, e é o jogo cênico entre o patrão e o seu empregado, herdado da commedia dell'arte e revisitado pelo dramaturgo veneziano, que constituirá uma das nossas principais chaves de leitura."

Para os que se assustam em ver Porras montar Brecht ele tem a resposta: "o Teatro Malandro, por sua história e seu percurso estético, poderia parecer afastado do universo brechtiano, mas é vital para a nossa companhia confrontar-se hoje à escrita do dramaturgo alemão, sobretudo no que diz respeito à relação privilegiada que se instaura com o espectador. Neste novo espetáculo, não nos limitaremos a contar uma aventura épica, mas entraremos em relação direta com o público: uma relação frontal que faz de "Senhor Puntila e o criado Matti" não somente o reflexo perfeito da nossa época, mas também a autobiografia coletiva das várias gerações teatrais, pelas quais a noção de jogo cênico e a abordagem sociopolítica, não se opõem, pelo contrário, interagem e se enriquecem mutuamente."

Verdade que Brecht não gostava dos patrões, dos proprietários, mas é inegável que ele sabia lhes dar uma grande dimensão teatral. Confesso que implico com Brecht, novidade, implico com mais da metade da humanidade... Mas nunca entendi essa história de que Brecht escrevia para o povo. Será que no tempo dele o povo sabia ler e freqüentava teatro?

Enfim, em Puntila, mais do que a luta de classes, Brecht retrata a renúncia dos humildes frente aos patrões despóticos e as reivindicações vêm dos patrões, dos proprietários, que podem ser juízes, comerciantes, ministros ou nobres, mas sempre prontos a todas as baixarias. E a interrogação recorrente de Brecht, " o que é um homem?", nesse caso soa sempre como uma acusação.

Confesso que a frase final de Matti, quando em porta-voz de Brecht ele propõe a revolução ao dizer "um bom patrão todos teremos, no dia em cada um for o seu próprio patrão" toca meu coração de ex-marxista, soando como um verdadeiro apelo a uma sociedade sem classes. Mas o pano cai, eu volto ao normal, e os aplausos guardam a surpresa maior: a de descobrir o rosto de cada um dos tremendos atores que compõem o Teatro Malandro.

A descoberta maior fica por conta do rosto de Matti, atrás da máscara está Juliette Plumecocq-Mech, uma grande atriz cria da companhia de Christophe Rauck, um dos dez mais da "mise en scène" hoje e uma cria de Mnouchkine. Companheiro de Porras nas aventuras da Cartoucherie de Vincennes de meados dos anos 80 que sediava tudo o que acontecia de bom no teatro em Paris mas que quase três décadas depois continua dar frutos.

Uma das inúmeras críticas da peça, verdade seja dita, nem todas 100% positivas, diz que o sucesso da versão de Porras para "Senhor Puntila e seu criado Matti", está ligado ao fato dele impregnar uma peça de 1940 com uma juventude de plumas e couro (matéria das máscaras); e mais do que isso, demonstrar sua visão do mundo, uma visão tão militante quanto burlesca, divertida sim, mas com vista para o cemitério.

Não sei se estou totalmente de acordo. Não creio que na vida a visão de Porras tenha vista para o cemitério, mas confesso que me é impossível após ler essa crítica não pensar na vista do quarto de hotel de Porras, em Paris, essa sim com certeza para o cemitério... "Pas mal", diriam meus amigos franceses, ao menos os vizinhos são silenciosos! Silêncio necessário para que Porras se reabasteça e possa nos preparar outros projetos tão belos quanto estes que tive o prazer de ver e que, ele espera, em breve, levar aos palcos do nosso Brasil.

Esse Brasil que merece ver esta trupe franco-suíça, com um nome brasileiríssimo, dirigida por um colombiano porreta, interpretando um autor alemão que situa a sua ação na Finlândia, que se exprime com o sotaque belga de Jean-Luc Couchard, o ator que interpreta Puntila, e faz o público morrer de rir, numa prova de que em alguns momentos a gente pode até ser favorável à globalização. Nesse caso já me tornei adepta... Merci, Porras!

PS - Como vi a tradução francesa de "Senhor Puntila e seu criado Matti", pedi socorro a meu amigo Vendramini que me enviou a cena final de Matti em português, deixo aqui a tradução do Millôr da cena à qual me refiro no texto que, em versos, difere um pouco da que vi: "Chegou a hora do teu criado te voltar as costas/ sem esperar respostas./ Só quando for o senhor de si mesmo/ dono do seu suor/ poderá dizer pra todos:/ Não tem patrão melhor."


Deolinda Vilhena é jornalista, produtora cultural, mestre em Artes pela ECA-USP, mestre e Doutora em Estudos Teatrais pela Sorbonne Nouvelle-Paris III

Opiniões expressas aqui são de exclusiva responsabilidade do autor e não necessariamente estão de acordo com os parâmetros editoriais de Terra Magazine.

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