
Luiz Gonzaga Belluzzo
As interrogações superam as certezas quando avalio as malfeitorias atribuídas a Jérôme Kerviel, o obscuro trader da Societé Generale que produziu um prejuízo de 4,9 bilhões de euros ao banco francês. Nos tempos das opiniões peremptórias despejadas de forma quase anônima na internet é arriscado declarar desconfiança em relação às próprias idéias. Nos blogs de economia, política e esporte os botinudos da opinião andam à solta. Irredutíveis em suas barricadas, acreditem, são ultrapassados com folga na rubrica "convicções inabaláveis" pelos comentários dos que pretendem discordar.
Feitas as ressalvas, passo ao cavernoso assunto. Foram dois dias de manchetes, tão afirmativas quanto improváveis, a respeito da responsabilidade pela fraude financeira: "O homem que explodiu o banco", alardeava o Le Parisien; "O homem que fez a Société Generale perder 5 bilhões de euros" repercutia o Le Figaro; "Rogue trader custa "5 bilhões a Societé Generale", confirmava o Financial Times.
No dia 25, sexta-feira, a mídia de taluda reputação deu-se conta da fragilidade da estória divulgada pela direção da Societé Generale. O Financial Times acordou: "Há duas questões cruciais no caso Jérôme Kerviel. Primeiro, qual, precisamente, era a natureza de sua posição (no banco). Segundo, isso explica a queda violenta das bolsas européias entre 21 e 23 de janeiro? A avaliação mais razoável do caso é a seguinte.
A suposta tarefa do sr. Kerviel era arbitrar pequenas discrepâncias entre os derivativos lastreados em ações e os preços do mercado à vista. O sr. Kerviel, a partir do dia 7 de janeiro, começou a apostar que os índices das bolsas de Frankfurt, o Dax, de Paris, o CAC-40 e a Euro Stoxx 50 iriam subir. Comprou contratos futuros como de hábito, mas, diante do risco de uma queda nos preços dos ativos subjacentes, não hedgeou a posição vendendo ações ou derivativos.
Onze dias depois, os controles internos do banco identificaram a atividade suspeita. Mas nesse momento, a Euro Stoxx já sofria uma derrocada cumulativa de 7%. A posição do sr. Kerviel acusava um prejuízo que oscilava no modesto intervalo de 1.5 e 2 bilhões de euros, o que significa que a exposição nocional do sr. Kerviel andava pelas alturas dos 21 a 29 bilhões de euros. As chamadas de margem - o pagamento das garantias exigidas quando os preços se movem na direção contrária ao apostado - subiriam, no período, a mais de 1 bilhão de euros".
Bufunfa um tanto graúda para escapar aos controles internos, fugir à percepção das contrapartes ou escafeder-se dos registros da compensação nas bolsas de futuros. Um elefante se movimentava buliçosamente no mercado, mas os diretores da Societé Generale e os demais protagonistas estavam a tal ponto cegos que não sentiam sequer o cheiro do animal.
Mas, a tropa das elites negligentes não entrega a rapadura. Em meio ao escândalo, os comandantes deitaram falação no Fórum de Davos sobre os Fundos Soberanos, a grana dos emergentes recém-enriquecidos que pretendem escapar da baixa rentabilidade dos títulos do governo americano se aventurar na aquisição de participações em empreendimentos de retornos mais generosos. É de conhecimento geral que instituições financeiras americanas e européias encalacradas na crise financeira receberam de bom grado a investida dos fundos soberanos.
Lawrence Summers, ex secretário do Tesouro dos Estados Unidos na era Clinton está preocupado: "Devemos apoiar a idéia de um código voluntário de conduta (para os Fundos Soberanos). Nele deveria estar claramente estabelecida a intenção de evitar abusos especulativos e o propósito de deixar a política fora das decisões de investimento. Se acreditamos nos mercados livres, não deveríamos formular algumas diretrizes que imponham limites às transações transfronteiras dos Estados Nacionais?". Summers decididamente abandonou as mesuras da hipocrisia e se entregou ao jogo bruto da cara-de-pau. Muhammad S. Al Jasser, Vice-diretor da Saudi Arabian Monetary Agency reagiu: "os Fundos Soberanos são culpados até que provem sua inocência".
Nas últimas décadas nossos ouvidos foram submetidos à inclemência do realejo que tocava incessantemente os acordes da "disciplina do mercado". Diante das recentes e ainda não encerradas demonstrações de indisciplina, desleixo e incompetência, permitam-me recorrer à sabedoria do poeta Juvenal. O vate, mestre da sátira, ao observar, no início da era cristã, o panorama da Roma imperial, arriscou a pergunta incômoda: Quis custodiat ipsos custodes? Quem controla os próprios controladores? Quem vigia os vigilantes?
Terra Magazine
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Redação Terra
Prejuízo - fachada de agência do banco francês Societé Generale, que foi fraudado em 4,9 bilhões de euros por um de seus operadores
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