Terra Magazine

 

Segunda, 28 de janeiro de 2008, 16h00

Waldir Pires: "Fleury era um homem capaz de tudo"

Claudio Leal

O ex-ministro da Defesa Waldir Pires considera "plausível" o relato do ex-agente uruguaio Mario Barreiro sobre o envenenamento do ex-presidente João Goulart, no exílio argentino, em 1976. Consultor-geral da República no governo Jango, Waldir defende, em entrevista a Terra Magazine, uma apuração "profunda" do Ministério Público. "(o delegado) Sérgio Fleury era um homem capaz de tudo", avalia.

Em entrevista à Folha de S. Paulo, no último domingo, Barreiro declarou que a ordem de matar veio do governo Ernesto Geisel (1974-1979), através do delegado do Dops (Departamento de Ordem Política e Social), Sérgio Paranhos Fleury.

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Baseada no depoimento do ex-agente da inteligência do Uruguai - preso no Rio Grande do Sul por roubo e formação de quadrilha - e nos rastros da Operação Condor, a família de Jango entrou com uma ação na Procuradoria Geral da República para apurar as denúncias de envenenamento do líder trabalhista.

Em conversa com a repórter Simone Iglesias, Barreiro declarou: "Fleury foi quem deu a palavra final. Em uma reunião no Uruguai, disse que Jango era um conspirador e que falaria com Geisel para dar um ponto final no assunto. Depois, em outra reunião no Uruguai, disse (...) que tinha conversado com Geisel dizendo que Jango estava complicando e que ele sabia o que deveria ser feito. E ele Geisel disse: 'Faça e não me diga mais nada sobre Goulart'".

Waldir Pires analisa os detalhes narrados pelo uruguaio e relembra seu último encontro com Jango, na Argentina.

- Todos os detalhes são muito plausíveis, num quadro internacional que era mais ou menos grave na época. Eu fiquei muito preocupado com a natureza da denúncia e entendo que ela deve ser investigada profundamente.

Leia a íntegra da conversa.

Terra Magazine - Qual foi a impressão do senhor ao ler o relato do ex-agente uruguaio Mario Barreiro?
Waldir Pires - É uma coisa séria. Todos os detalhes são muito plausíveis, num quadro internacional que era mais ou menos grave na época. Eu fiquei muito preocupado com a natureza da denúncia e entendo que ela deve ser investigada profundamente, porque é um desses crimes internacionais que não se deve permitir.

O ex-agente uruguaio fala que a ordem veio do governo brasileiro.
Pois é, isso é uma coisa que está posta com muitos detalhes nas circunstâncias. E o comando do então dirigente do Dops (Departamento de Ordem Política e Social), que era o Sérgio Fleury, um homem capaz de tudo. De modo que eu tenho a impressão de que o Ministério Público do Brasil deve aprofundar a investigação. Acho que é uma coisa importantíssima para a natureza mesmo das relações internacionais e para impedir um crime dessa natureza.

O senhor esteve com Jango logo no início do exílio?
Estive com Jango no início. E eu fui para São Borja (RS) no dia da morte dele. A família tinha comunicado ao João Vicente. Eu tinha estado anteriormente com o presidente no Uruguai, fui lá vê-lo, em Maldonado, em 1976. Fui fazer uma visita, no fim do primeiro semestre. Os filhos, João Vicente e Denise, estavam em Londres, ele tinha se tornado avô nessa ocasião.

Qual era o estado dele?
Bem, um desejo enorme de vir pro Brasil, enorme. Passei lá mais de 24 horas. Fiquei na fazenda, dormi na fazenda. Conversamos longamente.

Estava displicente com a saúde?
Isso ele sempre foi, né? (risos) Havia tido outros enfartes, inclusive um grande enfarte logo depois do golpe, em junho ou julho.

No exílio, o senhor teve informações sobre ameaças que chegavam ao ex-presidente?
Eu saí de lá logo em seguida, em 1965. Nenhum de nós tinha conseguido trabalho lá. Na nossa área, não era possível trabalhar. A única pessoa que tinha conseguido trabalho, em antropologia, foi Darcy (Ribeiro). Todos nós outros, que nos encontrávamos lá, eu, Almino (Affonso), Max da Costa Santos, Neiva Moreira, etc., nenhum de nós encontrou trabalho. Como eu tive cinco filhos (risos), eu me preocupava enormemente, a gente recebia ajuda de amigos, da família, pra sobreviver lá. Em 1965 eu fui pra França. Mas eu tinha com o presidente uma relação pessoal muito forte. Nós nos tornamos amigos no exílio. Anteriormente, ele era um companheiro político.

E o senhor, Consultor-geral da República.
Eu era consultor-geral da República, mas não tinha assim grande intimidade. Eu me tornei amigo de se ver três vezes por semana, na fase do exílio. Tinha filhos crianças e os filhos dele também eram crianças, e se tornaram amigos. Eles vinham muito pra cá, os meus pra lá.

Ele chegou a temer algum ato contra ele?
Nessa ocasião, a Operação Condor não tinha sido formada. Ela veio adiante. Tanto que, no Rio, quando eu soube da morte dele, fiquei sabendo que João Vicente estava chegando e nós fomos juntos. Eu e Darcy fomos para São Borja, esperar o corpo do presidente.

Que foram os últimos a sair do Palácio, em 1964.
Os últimos a sair...

Com a vela na mão?
(Risos) Não chegou a isso. Darcy que falava. A vela era da imaginação do Darcy romancista. (Risos) Mas eu creio que é uma coisa que precisa se aprofundar. Porque o quadro era muito complicado. Você tinha visto aqueles episódios do Letelier, no Chile, um processo mesmo de eliminação física. No Uruguai também.

Para o senhor, há coerência no relato de Barreiro?
Olha, ele (Jango) era um pessoa displicente com a saúde, sem nenhuma dúvida. O médico queria muito que ele não fumasse, ele continuava fumando. Mesmo depois de ter tido um enfarte - o primeiro, no México, ainda como presidente. E teve o segundo no Uruguai, em 1964. Ele já tinha o histórico de cardíaco. Tanto que o que é um pouco indutivo é essa história de remédios, etc. É uma coisa que precisa apurar.

 
Fabio Pozzebom /Agência Brasil
O ex-ministro da Defesa Waldir Pires considera o relato do ex-agente uruguaio plausível e defende a apuração da denúncia de assassinato de João Goulart

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