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Terça, 29 de janeiro de 2008, 08h57

João Ubaldo Ribeiro: "Eu sou Itaparica"

Claudio Leal

O papo era outro. Mas logo nas primeiras frases o escritor baiano João Ubaldo Ribeiro mudou o rumo da conversa e relatou a Terra Magazine um drama de cidadão: estava trancado em sua casa, na Ilha de Itaparica (BA), na Baía de Todos os Santos, com medo da violência nas ruas, estreitas ruas, de sua cidade natal.

- Eu nunca esperei estar falando isso sobre Itaparica. Estou atônito. Eu não sei, inclusive, se estou exagerando pra você.

Lá fora, a população protestava contra a morte de um jovem, numa festa popular (Festa do Beco), na noite anterior. Depois do enterro, pneus e geladeira queimados...

- Tá parecendo morro carioca descendo pra avenida Brasil. Guardadas as proporções - narra Ubaldo.

À noite, a reportagem telefonou para a delegacia de Itaparica, mas não encontrou a delegada. Um policial não soube precisar a causa da morte. "Houve um tumulto generalizado e o rapaz morreu. Temos apenas o registro da entrada no hospital, com traumatismo. Mas o protesto na rua já está tranqüilizado". Não souberam informar o nome da vítima. Era Fábio Cândido da Silva, supostamente morto por um policial.

O terceiro assassinato em um só mês. Em janeiro, houve outras duas mortes em Itaparica, com armas de fogo. Dois supermercados sofreram assaltos e saques de grupos armados - no "Atlântico", os clientes também saíram de bolsos vazios.

Este é o verão mais tumultuado de João Ubaldo. Por tradição, todos os anos ele sai do Leblon, no Rio de Janeiro, e passa um mês na casa de sua família, na ilha baiana. Até evita Salvador. No dia 23 de janeiro, a Ilha preparou uma calorosa festa de aniversário para seu filho ilustre. Uma peça foi montada com seus personagens.

Em entrevistas, o escritor falou do crescimento da violência em pequenas cidades do interior. Em sua Itaparica. Era a volta do "cangaço". Definição comprovada nos dias posteriores.

Atualmente, ele escreve - em parceria com Geraldo Carneiro - uma minissérie para a Rede Globo. Mas as ondas curtas, a leveza do papo com os pescadores, os passeios em Ponta de Areia, antigas fontes de inspiração, são neutralizadas pela tristeza de ver o cenário de suas obras ser invadido pelos males do continente.

- É um choque, a terra onde eu nasci!

Itaparica ajudou a formá-lo como escritor. Sem ela, não haveria Viva o povo brasileiro, O sorriso do lagarto, O feitiço da Ilha do Pavão, nem seu próximo romance. Marcado pela paisagem e pelos homens da ilha, situada a 14 km de Salvador, não aceita vê-la entregue a novos e velhos "cangaceiros".

Terra Magazine - O que está acontecendo na Ilha de Itaparica?
João Ubaldo Ribeiro- Telefone pra Salvador e procure saber o que aconteceu em Itaparica. Pela primeira vez em Itaparica está havendo esses casos. Dizem que já está sob controle, não sei o quê, mas morreu um ontem, numa festa tradicional aqui, de morte matada, um rapaz da Ilha. Hoje foi o enterro, houve um grande tumulto.

O senhor se referiu, recentemente, à volta do "cangaço" em cidades do interior, com o saque a comerciantes. É o caso?
Mas aí não se trata de cangaceiro urbano, não. Se trata da população revoltada. Nunca houve isso em Itaparica: as pessoas se trancando dentro de casa. Pânico na rua. Pneu queimado, com geladeira queimada em frente a um supermercado. Tá parecendo morro carioca descendo pra avenida Brasil. Guardadas as proporções.

Quando começou esse tumulto?
Começou a ocorrer agora à tarde (ontem), se não me engano na hora do enterro. Eu não sei direito, eu estava na rede, no sossego, dormindo, quando chegou a filha da empregada chorando. Eu estou trancado em casa. As reportagens locais, e mesmo as não-locais, estão comendo mosca, não saiu nada.

Por que essa onda de violência?
Eu nunca esperei estar falando isso sobre Itaparica. Estou atônito. Eu não sei, inclusive, se estou exagerando pra você. Porque o prefeito me telefonou e me disse que está tudo sob controle, está tudo muito calmo, que eu fique calmo.

E há também os grupos armados...
Ah, a insegurança na Ilha já chegou, já tem ocorrido recentemente assaltos a casas comerciais, assaltos a gente que vai levar dinheiro em banco. E assim por diante. Tanto assim que o comércio fez anteontem um boicote, organizado pelos comerciantes, para pedir maior segurança aqui na Ilha. Mas esse outro incidente não tem nada a ver com isso.

Pra o senhor, é um choque?
É um choque, a terra onde eu nasci, dormia de janela aberta!

Sua obra literária está ligada a Itaparica.
Tudo. Tudo. Eu sou Itaparica!

Uma ilha esquecida

Ouvido por Terra Magazine, o prefeito de Itaparica, Cláudio Neves, avalia que a violência não é uma "especialidade" de Itaparica. Mas pretende baixar esses índices. Entregou ao governo do Estado um Plano de Segurança.

- Itaparica se organiza para ser um destino turístico. Mas, junto com o desenvolvimento, vem esses pepinos. Precisamos de mais contingente policial, mais viaturas. Por enquanto, não quero discutir esse plano. Quero que atendam o básico.

Neves lembra que o policiamento da Ilha não é complexo. "Há apenas uma via de acesso, é só fiscalizar".

Refúgio de políticos baianos - o ex-senador Antonio Carlos Magalhães (1927-2007) possuía uma residência de veraneio na Penha -, a Ilha de Itaparica começou a entrar em decadência após a expansão do turismo para o Litoral Norte.

A perda de influência se fez sentir no declínio do sistema de ferry-boat (embarcação que liga Salvador à Ilha). Ferries sucateados, esquecidos. A viagem de 14 km dura cerca de uma hora - isto se a propulsão não entrar em pane e o ferry ficar à deriva no mar, como ocorreu em 2005 com o "Maria Bethânia".

- Se a Ilha estivesse nas mãos dos americanos, seria uma Miami. Mas hoje é um retrato de desolação e abandono, mostrando a incompetência dos administradores baianos - ataca o jornalista e escritor João Carlos Teixeira Gomes, Joca, amigo-irmão de Ubaldo.

Autor de um dos melhores ensaios sobre o romancista, Joca analisa a importância de Itaparica para a obra de João Ubaldo:

- Não só pelas raízes que ele lá deitou com a família - o avô foi importante historiador da Ilha -, mas porque ele vive impregnado da própria vida da Ilha, com seus tipos populares que o inspiraram.

Prossegue, com doses de testemunho.

- Lá escreveu seu mais importante romance, Viva o povo brasileiro, acordando às 4h, na Biblioteca Juracy Magalhães, para lutar ferozmente contra um arcaico computador brasileiro. Teve com ele contendas históricas e histéricas, porque o aparelho não funcionava! - recorda-se Joca.

Uma manhã, encontrou Ubaldo perdido entre papéis e personagens da saga heróica itaparicana, brasileira. Quase rendido, disposto a abandonar o mundo ficcional. Joca lhe deu um conselho impositivo:

- Essa tradição do escritor no mundo começa antes da Grécia. Portanto, você tem de assumir a importância do seu papel. Termine o romance!

Ubaldo sentiu-se obrigado a ser a "consciência de sua raça". Concluiu Viva o povo brasileiro. Bem outro é seu papel agora: alertar que, na Baía de Todos os Santos, uma ilha perdeu a paz. Essa ilha leva seu nome.

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Marcio Iudice/Especial para Terra
O escritor João Ubaldo Ribeiro

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