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Quinta, 31 de janeiro de 2008, 07h51

Atleta sem pernas, Oscar Pistorius causa polêmica

Ezequiel Fernández Moores

E se Oscar Pistorius, o jovem atleta sul-africano que teve as pernas amputadas e sonha em correr com suas próteses nos Jogos Olímpicos de Pequim fosse um mentiroso, e não um exemplo de superação? O questionamento, pouco simpático, com certeza, foi lançado pelos próprios especialistas do esporte e inclusive em fóruns de atletas paraolímpicos, para advertir que Pistorius pode ter fornecido dados incorretos sobre suas polêmicas próteses islandesas de fibra de carbono.

A Federação Internacional de Atletismo (IAAF) se colocou no olho do furacão ao decidir que Pistorius consegue 25% de vantagem sobre os atletas "normais", graças às próteses mais flexíveis e potentes que a perna humana, motivo pelo qual proibiu sua participação não apenas em Pequim 2008, mas também em qualquer torneio que organize. "Jamais poderia imaginar acordar um dia e ouvir que um jovem sem pernas tem vantagens sobre os outros", ironizou por sua vez Luca Pancalli, presidente do Comitê Paraolímpico Italiano. Foi uma síntese do que muitos pensavam. Segundo a IAAF, o deficiente passou a ser um privilegiado.

"Essa negativa seca, brutal, é uma página infame" para o esporte e, se o Comitê Olímpico Internacional (COI) não intervier, "a vergonha transbordará por todos os lados, sepultando qualquer resto de ética e humanidade em um mundo que está perdendo seus valores primários", afirmou Candido Cannavó no site do "Gazetta dello Sport", da Itália, por acaso o principal diário esportivo do mundo.

"É a primeira vez que escrevo para um jornal, mas quero avisar que não me renderei e que apelarei até onde puder contra a decisão da IAAF", afirmou no dia seguinte ao mesmo jornal o atleta, um jovem de 21 anos que sofreu a amputação de suas pernas abaixo dos joelhos quando tinha apenas 11 meses de idade.

Seu pai Heinke, diretor de uma mina de cal em Pretória, fez com que Oscar aprendesse a caminhar desde então ajudado por próteses, que ele precisava trocar a cada nove meses, para que seu filho tivesse uma vida sem problemas e inclusive se tornasse tenista e jogador de rúgbi de destaque, até que uma lesão no joelho o obrigou a passar ao atletismo.

Talentoso no esporte, e tendo como base um grande esforço e treinamentos diários, Pistorius se tornou um atleta inédito, conseguindo em apenas três anos o que, para alguns de seus colegas, requer décadas de esforço: superou todas as marcas de seu evento, ganhou ouro nos Jogos Paraolímpicos e, em 2007, competiu de igual para igual com atletas "normais", o que abriu o debate sobre sua presença em Pequim.

Com tempo apenas três segundos inferior à marca mínima exigida na prova dos 400m, Pistorius hoje corre essa distância em 46s56, o que agrega às suas marcas de 10s91 para os 100m e 21s58 para os 200m, que já lhe permitiram superar atletas "normais" e competir entre os mais rápidos do planeta, um caso incrível para um homem sem pernas.

Sua história, mencionada como um exemplo de superação e de esforço, provocou crônicas emotivas na imprensa, seduziu Hollywood a realizar dois filmes sobre sua vida e atraiu para Oscar patrocinadores do calibre de Visa, Honda, Ossur, Nike e Oakley. Para um mundo esportivo açoitado pela mercantilização e pela corrupção, que imagem poderia ser melhor que a de Pistorius competindo em uma olimpíada?

Quando a IAAF apresentou suas primeiras objeções, Pistorius criticou a organização, afirmando que os dirigentes desejavam proibir seu sonho olímpico sem ao menos estudar as próteses que ele usa. Mas quando recebeu autorização provisória para começar a competir contra atletas normais, em 2007, o corredor denunciou a IAAF por "espioná-lo". A federação o convocou formalmente, em 2 de novembro, em Colônia, Alemanha, para avaliar se suas próteses representavam ajuda tecnológica ao seu desempenho, uma espécie de "tecnodoping". O desempenho de Pistorius foi comparado ao de seis corredores normais, com o uso de 12 câmeras infravermelhas e quatro câmeras de vídeo de alta velocidade, para estudar o apoio e as forças de reação recebidas do solo, analisar o armazenamento e retorno da energia elástica e as alterações de distanciamento e freqüência das passadas, consumo de oxigênio e produção de ácido láctico. A investigação custou 50 mil euros à IAAF.

As conclusões do respeitado médico alemão Gert-Peter Bruggemann foram de que Pistorius, com ajuda dessas próteses, dispunha de assistência mecânica e fisiológica que lhe ofereciam vantagem mínima de 25% com relação aos seus concorrentes. Caso autorizado, o uso das próteses conhecidas como "cheetah" (guepardo) levaria os fabricantes de calçados esportivos a desenvolver sistemas de assistência tecnológica ao desempenho de seus usuários, e um nadador sem pernas poderia concorrer usando nadadeiras que lhe oferecessem vantagem sobre seus adversários, de acordo com fontes na IAAF. Ainda pior, se faltarem a Pistorius rivais em sua atual categoria de atletas que competem com as duas pernas amputadas, ele tampouco poderia ser autorizado a competir nos Jogos Paraolímpicos, porque atletas que correm com apenas uma perna amputada poderiam argumentar, com base em argumentos técnicos sólidos, que ele desfruta de vantagem indevida.

Pistorius rejeita o resultado do estudo porque, segundo ele, as vantagens que o uso das próteses lhe oferece foram avaliadas mas as desvantagens sob as quais compete não foram levadas em conta. O Comitê Paraolímpico Internacional (IPC), que vem apoiando Pistorius firmemente, aceitou o estudo, mas também solicitou à IAAF que avalie, por exemplo, a perda de energia ou de geração de força pelas articulações do joelho e dos quadris, assim como o impacto da amputação sobre o ponto de contato entre a prótese e a perna. Especialistas do site norte-americano The Science of Sport garantem que esses estudos já foram conduzidos, igualmente, e se perguntam até que ponto o novo estudo prometido pela Ossur pode ser independente, já que a empresa fabrica as polêmicas próteses. O site apela para que "não confundamos ciência e marketing".

A IAAF não tomou uma decisão politicamente correta. Boa parte dos dirigentes esportivos do mundo imediatamente se opuseram a ela, e houve até quem propusesse um boicote à Olimpíada de Pequim caso o COI se mantenha passivo e não autorize a participação de Pistorius, "o homem-bala", o "atleta biônico" ou o "Blade Runner", de acordo com os apelidos que lhe foram dados por uma imprensa em geral simpática à sua causa e propensa a denunciar a IAAF por discriminação.

Há que consultar os fóruns de discussão da Internet, onde o discurso costuma ser mais democrático, para descobrir que nem todo mundo rejeita a decisão da federação. "Não competimos nos jogos Paraolímpicos porque somos menos rápidos, capazes ou fortes. Em termos biomecânicos, não faz sentido que atletas com deficiências físicas concorram com atletas que não as apresentam. Uma investigação demonstrou que Pistorius mentiu sobre as medidas de suas próteses. Gostaria que a mídia cobrisse mais os verdadeiros atletas corajosos, que não são 'inspiradores' em função de sua deficiência, mas que a acatam", escreveu uma nadadora paraolímpica norte-americana. "Uma deficiência física significa que existe algo que não posso fazer. E não existe coisa alguma que eu não possa fazer", declarou Pistorius certa vez, o que lhe valeu críticas severas de alguns colegas.

Basta consultar Carlos "Beto" Rodríguez, nove vezes campeão entre os cadeiristas da tradicional prova brasileira de São Silvestre, entre 1991 e 2006, e vencedor de 201 das 400 provas que disputou (96 delas internacionais). "Eu concordo com a decisão da IAAF, mas não só devido aos elementos mecânicos que o estudo considerou. Parece-me que Pistorius está desvirtuando a disputa paraolímpica, que tem atletas de alto nível, muito competitivos", afirmou Rodríguez.

Como encontrar o equilíbrio entre a igualdade de condições em termos de tecnologia, em uma competição, e o direito de competir de um atleta com capacidades diferenciadas? O tema certamente oferece debate interessante. Mas Pequim 2008 não parece o cenário ideal para debatê-lo, porque os esportes olímpicos há muito deixaram de ser apenas jogos.

Opiniões expressas aqui são de exclusiva responsabilidade do autor e não necessariamente estão de acordo com os parâmetros editoriais de Terra Magazine.

 

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