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Sexta, 1 de fevereiro de 2008, 07h52

O zebu e a crise da bresaola

Vera Gonçalves de Araújo

A bresaola é um daqueles produtos típicos italianos que mesmo quem não sabe cozinhar aprende logo a fazer. É um presunto de carne bovina seca muito magra, curada no sal por 10 dias, e curtida por 4 semanas. Produzida na região da Valtellina, no norte da Itália, pode ser temperada com azeite, limão e pimenta do reino, e servida com fatias finas de parmesão, rúcula, champignons crus ou salada de alcachofras. Uma delícia.

A bresaola autêntica é rotulada com a etiqueta IGP (indicação geográfica protegida), que indica que é produzida numa zona especializada, que determina sua qualidade, reputação e características. Em outras palavras, é um produto exclusivamente made in Italy. Com um pequeno detalhe que só agora foi revelado: é feita com carne de zebu brasileiro.

A descoberta da alma brasileira da bresaola foi consequência da suspensão das importações de carne bovina do Brasil pela União Européia, que inclui também os criadores de gado zebu. A carne magérrima do zebu brasileiro é a única realmente boa para fazer a melhor bresaola - explica o presidente do consórcio de tutela da bresaola da Valtellina. As vacas italianas e européias são gordas demais.

A UE impôs ao Brasil várias normas que praticamente vão bloquear boa parte das importações de carne: certidões de origem e pedigree do gado, garantias sanitárias, uma burocracia danada. Sem essa papelada, a partir de ontem, 31 de janeiro, nem um pedacinho de carne de boi vai poder entrar na Europa. Graças à bresaola, porém, a Itália decidiu pleitear uma revisão do decreto, porque o risco é de paralisar a produção: em 15 mil criadores de gado brasileiro que exportam para os países da UE, só 300 apresentaram os documentos necessários. A consequência foi um aumento do preço. A tonelada de carne, que custava até um mes atrás 9.500 dólares, agora custa 13 mil.

Para defender a bresaola, considerada uma das jóias das especialidades alimentícias do país, junto com o presunto de Parma, o queijo parmesão e a mozzarella, os italianos estão tentando encontrar um jeitinho para furar a rigidez da política comercial da UE. Um furo bem grande, para deixar passar um bom rebanho de zebus brasileiros.

Não vai ser fácil, primeiro porque a crise de governo paralisou a ação do ministro da agricultura, Paolo Di Castro, grande defensor dos produtores de bresaola. E depois porque os criadores de gado italiano chiaram, declarando que o ministro tem é que defender a vaca nacional.

Por enquanto, o consumidor ainda não descobriu que vai pagar o pato (ou melhor, o zebu). Mas quando chegar o verão, estação perfeita para comer bresaola, e as 11 mil toneladas do "presunto de boi" sumirem das gôndolas dos supermercados, muita gente vai reclamar. Inclusive porque a bresaola é considerada o presunto mais "religiosamente correto" da Itália, podendo entrar nas mesas de católicos, judeus e muçulmanos. Um dos poucos que quebram a tradicional supremacia do porco e dos seus derivados.


Vera Gonçalves de Araújo jornalista, nasceu no Rio, vive em Roma e trabalha para jornais brasileiros e italianos.


Fale com Vera G. de Araújo: veragdearaujo@terra.com.br

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