Terra Magazine

 

Sexta, 1 de fevereiro de 2008, 07h51

Yuka Chan: "Baiano requebra melhor que paulista"

Claudio Leal

Ela se garante no samba. Yuka Sugiura, a Yuka Chan, será a madrinha da bateria da escola paulista Unidos de Vila Maria, que homenageia os 100 anos da imigração japonesa. Sem falsa modéstia, pois não veio do Japão no amadorismo, avisa às mulatas baianas, cariocas e paulistas: "Sambo direitinho".

Cativada pelo ritmo brasileiro, ela saiu de Nagoya, sua cidade natal, em 1996, para dançar em São Paulo, Santos e Salvador. Fixou-se na Bahia - e seu sotaque já assimilou influências da prosódia baiana. Ainda no Japão, sentiu o despertar do demônio do samba, na inauguração de um restaurante brasileiro:

- Um telão passava o desfile das escolas de samba. Aí eu olhei, me identifiquei, me arrepiei e começou a acordar alguma coisa que tava dormindo - declara, em entrevista a Terra Magazine.

Aos 36 anos, não é uma novata. Em 2006, foi eleita o símbolo do Carnaval da Bahia. Mas, olha a maldade: espalharam que Yuka fazia strip-tease em boates e estava com o visto vencido. "Tentaram me queimar", diz ela, enquanto malha numa academia de São Paulo.

- Olha, a polêmica rolou. Porque sou estrangeira, né... Lá é terra de negro (...) Falaram assim: "Você não é negra, não tem samba no pé".

Os boatos correram por Salvador. Yuka tratou de catar seus documentos. Em meio à boataria, o prefeito de Salvador, João Henrique Carneiro, um evangélico fervoroso, desmarcou a audiência com a dançarina. Mas a sambista nipo-baiana conseguiu da Polícia Federal o sinal verde: a moça podia requebrar sem o medo da imigração. O prefeito aceitou entregar o título, com gentilezas:

- Eu trabalhei todos os dias do Carnaval com o prefeito. Até ele me dava preferência, sempre me colocava na frente...

Dois anos depois, Yuka volta às passarelas do samba. Promete arrasar no desfile da Vila Maria, no Anhembi. Provocada a opinar sobre a diferença entre os bambas paulistas e baianos, ela pondera:

- Olha, o baiano requebra melhor, digamos. Porque eles vivem dançando, a dança tá na vida deles. Paulista trabalha mais.

Com a palavra, madrinha Yuka.

Terra Magazine - Como surgiu o convite pra sambar na Unidos de Vila Maria?
Yuka-chan - Minha amiga era amiga do diretor da Vila Maria. Aí ela me falou que estavam procurando uma japonesa que sambasse. Eu falei: tô aqui, eu sambo. Aí ela falou: então tá certo. A gente foi encontrar com Wagner (Santos), carnavalesco. Eduardo, que é diretor, me aprovou primeiro, e depois me levou pra Wagner, e Wagner me levou pro presidente. Aí eu falei pro presidente que eu sambava. Ele queria que eu sambasse na hora. Mas como eu não moro em São Paulo, eu precisava ir embora logo. A passagem tava marcada pras 8 horas. Fiz a entrevista rapidinho. E falei pra ele que eu sambava direitinho, que ele não ia se arrepender.

Quando foi seu primeiro contato com o samba?
Em 1996, meu amigo japonês era presidente da escola de samba da minha cidade, Nagoya, e ele me chamou pra ir ao restaurante dele, restaurante brasileiro. Ele ia abrir a casa. Quando eu vi, um telão passava o desfile das escolas de samba. Aí eu olhei, me identifiquei, me arrepiei e começou a acordar alguma coisa que tava dormindo, o samba brasileiro...

Como é que você foi parar na Bahia?
Bahia é uma terra que me identifiquei muito. Depois disso, eu comecei a sambar lá no Japão. Em 1998, ele me convidou pra vir pro Brasil passear. Eu vim aqui pra São Paulo, Santos e depois pra Bahia. Quando eu fui pra Bahia, poxa, me identifiquei, me identifiquei mesmo. Aí a terra me abraçou, pronto. Escolhi Bahia pra morar.

Baiano samba melhor que paulista?
Olha, o baiano requebra melhor, digamos. Porque eles vivem dançando, a dança tá na vida deles. Paulista trabalha mais. Agora, sambar mesmo, samba da Bahia e samba paulistano são bem diferentes. Não tem como comparar. Agora, em número de sambistas, com certeza, a Bahia é melhor. Todo mundo samba lá desde criança.

O paulista é paradão?
Não tem costume, né? Não é de estar no sangue, é costume.

Você foi princesa do Carnaval da Bahia, em 2006, não?
Símbolo do Carnaval.

Mas houve uma confusão com sua escolha...
Olha, a polêmica rolou. Porque sou estrangeira, né... Lá é terra de negro.

Falaram do seu passaporte irregular na Polícia Federal, mas depois você provou que estava tudo certo...
Falaram assim: "Você não é negra, não tem samba no pé". Essas coisas.

O prefeito de Salvador, João Henrique, cancelou às pressas uma audiência com você, depois de boatos sobre sua origem... Ele foi descortês?
Ele até adiou primeiro, pra negar o título. Mas meu padrinho era cônsul honorário do Japão na Bahia. Então, como eu já tinha trabalhado com ele, com crianças carentes, ele provou todas as coisas, que eu tenho visto no Brasil... Eu não sou nada daquelas coisas que todo mundo falava pra me derrubar. Falavam que eu fazia strip-tease, que eu não tinha visto, sabe? Tentaram me queimar, mas ele (o cônsul) desmentiu.

E o prefeito?
Ele me deu o título. Eu trabalhei todos os dias do Carnaval com o prefeito. Até ele me dava preferência, sempre me colocava na frente.

Certo...
Ele sempre me deu preferência, me ajudou bastante. Ele foi muito gentil comigo.

O que espera do desfile da Vila Maria?
Eu deixei tudo na Bahia, minha vida está parada só pra sambar na Vila Maria. Como eles estão fazendo uma homenagem à minha terra, ao centenário da imigração japonesa, eu estou homenageando a escola também. Estou prestando serviço pra escola e sou 100% Vila Maria este ano. Não faço nada, nem saio na escola de samba do Rio de Janeiro. E espero que eu consiga acrescentar, ajudar a escola de samba, pra levar a escola à primeira colocação.

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