Terra Magazine

› Terra Magazine › Colunistas › Roberto Souza Causo

Sábado, 2 de fevereiro de 2008, 07h54

Resenha: Metaficção no início do milênio

Roberto de Sousa Causo

Macacos e Outros Fragmentos do Acaso, Jorge Moreira Nunes. Rio de Janeiro: Differential Comunicação e Editora, 2007, 126 páginas. Capa de Osmarco Valadão.

Jorge Nunes recebeu a Bolsa para Novos Escritores, da Biblioteca Nacional, para terminar este livro de estrutura engenhosa. Atualmente a Bolsa é muito disputada e confere algum prestígio. É portanto estranho que Nunes tenha optado por publicar seu livro por uma editora desconhecida, com todo o jeito de ser uma vanity press que promete uma boa produção editorial, mas lava as mãos quanto à divulgação ou à colocação do livro nas livrarias. O livro certamente tem tudo para atrair o interesse de uma editora de peso. O último ganhador dessa bolsa que eu li foi publicado pela Record.

Leia também:
» Testemunhe o nascimento do vampiro

Macacos e Outros Fragmentos do Acaso é resultado da atividade de contista de Nunes, e do site Macacos em http://www.macacos.net, onde se realiza um experimento de livre associação de palavras criando um discurso contínuo, sem tópico geral, disparado pela seguinte premissa:

Escreveram em algum lugar que se um hipotético e longevo macaco martelasse num teclado de máquina de escrever aleatoriamente por alguns milhões de anos acabaria um dia escrevendo a Ilíada. O que fariam alguns milhões de seres humanos escrevendo uma mesma obra, acrescentando cada um suas impressões aparentemente confusas e caóticas do mundo, mas genuinamente representativas de um subjacente inconsciente comum?
Talvez Macacos responda.

O livro é portanto um experimento em que a Internet tem um papel ordenador e inspirador, além do "bloguismo" que costumamos ver.

A dinâmica da obra de Nunes orbita uma situação central: o narrador e seu amigo Vlad jogam xadrez sem tabuleiro em um boteco do Rio de Janeiro perto da virada do milênio. Todos os dias o narrador traz, além das jogadas memorizadas, um conto novo para Vlad analisar. Os contos são reproduzidos no livro, obviamente, e demonstram uma variedade de tons e de enfoques, sobre um estilo bastante polido e elaborado, que peca apenas pela propensão à repetição de palavras e à ocorrência de rimas involuntárias.

A estrutura à qual os contos se submetem torna irrelevante qualquer tentativa de criticá-los. Por um lado, Vlad já o faz, e ele é certamente um crítico mais implacável do que eu; por outro, até certo ponto essas narrativas dentro da narrativa principal deixam de ser contos. São constituintes daquela linha mestra, perderam parte da sua autonomia como "obra".

Não obstante, vale a pena mencionar que a maioria desses textos tem algum elemento fantástico, e dois deles são claramente de ficção científica. Um deles, com o título de "Saviana", fez parte da antologia de Octávio Aragão, Intempol: Uma Antologia de Contos sobre Viagens no Tempo (2000), e deve estar na lembrança dos fãs desse mundo partilhado sobre uma polícia temporal.

Que função esses textos realizam, dentro do projeto de Nunes? Macacos e Outros Fragmentos ao Acaso não é uma desculpa para o autor "esvaziar a gaveta", por assim dizer. É uma reflexão sobre acaso e destino, a natureza do Universo, sobre a atividade autoral e sobre o exorcismo de fantasmas pessoais que repercutem certos dramas da sociedade na qual o narrador está inserido. Também faz uma crônica do Rio de Janeiro com toques sobre a miséria e a violência. Tudo isso forma um conjunto temático profundo, que transcende a banalidade da situação de dois amigos num bar, e os contos inseridos ajudam o texto de Nunes a ganhar a profundidade e o alcance que suas intenções necessitam. Além dos efeitos estilísticos de melancolia e de variação de tom e de tema, alguns deles conseguem ser genuinamente filosóficos - justamente o que a proposta metaficcional do livro exige.

Ao mesmo tempo, a linha-mestra dá a Nunes uma tensão e um impulso adiante que às vezes seus contos, individualmente, carecem.

Resta saber se aquilo que é levantado ao longo da narrativa será bem resolvido no desfecho. Não em termos de "atar pontas soltas" de uma trama que na verdade não existe, mas como um meio de fazer ressoar as questões levantadas, conduzi-las a um sentido em particular que represente um bom aproveitamento de suas idéias.

Eu diria que, mantendo a proposta de narrativas dentro da narrativa, Jorge Nunes oferece um final que enlaça de modo eficaz as especulações em torno de uma espécie de "inconsciente coletivo" formado pelas associações livres do site Macacos (que, ao que me parece, alguns engraçadinhos já esculhambaram, introduzindo egos psicóticos na sopa) e suas possíveis infiltrações sobre a criatividade do narrador, ao mesmo tempo em que nos dá um final para o conflito entre os dois colegas de boteco, também a par com as intenções metaficcionais. Não é um desfecho particularmente original ou explosivo, e na verdade recorre a um lugar-comum da literatura fantástica (que eu mesmo já explorei), mas é efetivo dentro da tendência melancólica de parte do andamento.

Macacos e Outros Fragmentos ao Acaso é um livro complexo e bastante engenhoso, enfim pertencente ao fantástico e não à ficção científica, mas que merece a atenção dos fãs. Com algumas revisões, não vejo por que não poderia ser publicado por uma editora de maior relevância e capacidade de distribuição.

Enquanto isso, pode ser adquirido com a editora, em marcosmaynart@differential.com.br

Escritor e crítico, Roberto de Sousa Causo é autor do romance A Corrida do Rinoceronte.

Fale com Roberto Causo: roberto.causo@terra.com.br

Opiniões expressas aqui são de exclusiva responsabilidade do autor e não necessariamente estão de acordo com os parâmetros editoriais de Terra Magazine.

Terra Magazine

Reprodução
"Livro complexo e bastante engenhoso, enfim pertencente ao fantástico e não à ficção científica, mas que merece a atenção dos fãs", diz Causo

Exibir mapa ampliado

Tags

O que Roberto de Sousa Causo vê na Web

Favoritos

Busque outras notícias no Terra

Terra Magazine América Latina, Veja a edição em espanhol

Argentina Chile Colômbia Equador Estados Unidos México Peru Venezuela