
Márcio Alemão
Na semana passada eu disse que não existia nada pior que o carnaval da Bahia.
Pois foi com imensa alegria que li nos jornais a notícia de que talvez o Estado venha a intervir no que eles chamam de "carnaval business". Quem faz a advertência é o secretário da Cultura do Estado, Marcio Meirelles.
A discussão será acalorada. Ninguém nega que tem pouca gente enchendo fartamente os bolsos de dinheiro com a chamada "profissionalização" do carnaval. Não errei, não. Tem pouca gente enchendo os bolsos e muita, mas muita gente infeliz com os rumos que a folia tomou. Alguns arriscam dizer que o AXÉ teria cansado. Desculpem os que gostam, mas o Axé me exauriu depois dos primeiros 30 segundos que o ouvi pela primeira vez. É, na minha opinião, um dos piores gêneros musicais que foram produzidas pela humanidade. Não ficarei triste se vier a acabar. Coisa que não irá acontecer. Alguma outra praga será inventada para infernizar a vida dos que vão passar férias nos resorts do nordeste. Sim, o Axé em resorts de todo o país incomoda muito mais que criança mal educada - que geralmente têm pais mal educados - ou mosquito.
Interessante ler depoimentos de empresários. Hora da velha e boa frase: a que ponto chegamos! Começa a discussão sobre a eventual falência de um gênero artístico e os empresários se manifestam. Ou seja: como gênero artístico, de fato, a coisa foi para o vinagre. Como negócio, começa a apresentar necessidade de renovação. Coisa que os empresários prometem estudar. E eu não tenho dúvida que irão fazê-lo. O medo, repito, é a nova praga que virá.
Não vi nada de carnaval esse ano. Minto. Vi 5 minutos de um desfile da, creio eu, Acadêmicos do Tucuruvi, cujo enredo versava sobre o sorvete. Duas escolas elegeram sorvete como tema. Junte a falência do axé, pense nesses temas, lembre o carro do Holocausto que foi sabiamente proibido de sair na avenida, a invasão de banners com propagandas de cerveja no Galo da madrugada em Recife e quem sabe não tenhamos dados suficiente para afirmar que o carnaval, a mais espetacular manifestação popular do planeta, saiu dos trilhos, perdeu o rumo, vendeu-se.
E de volta aos meus 5 minutos de folia, ouço Maurício Kubruskly dizer que em uma cidade qualquer do sul, não me lembro o nome, existe uma forte tradição de se tomar sorvete, mesmo no inverno. Mas infelizmente, num único desfile não dá para esgotar o tema. De fato, o sorvete é um tema fascinante. Fosse eu presidente da escola elegeria o sorvete para ser o tema eterno. Nunca mais cantariam outra coisa que não fosse o sorvete.
Terra Magazine