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Quinta, 7 de fevereiro de 2008, 07h52

Inventando o Passado com Bruce McCall

Claudio Martini

O canadense Bruce McCall é um inventor de recordações de coisas que nunca aconteceram, reportagens sobre locais fictícios, folhetos de propaganda de objetos improváveis.

Ele começou como desenhista comercial e de propaganda, apurou sua técnica ilustrando carros para a Ford do Canadá, e depois foi para Nova Iorque, onde começou a colaborar em 1972 com uma revista que estava surgindo e que iria revolucionar o humor gráfico e escrito norte-americano, como Mad já o fizera vinte anos antes: a National Lampoon.

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A primeira National Lampoon apareceu em 1970, como uma evolução da Harvard Lampoon, feita pelos alunos da escola. Cada revista tinha um tema que era desenvolvido pelos escritores e desenhistas, com uma qualidade e cuidado excepcional: a direção de arte, as fotos, o layout das páginas, tudo era executado por um time de primeira.

A época de ouro da revista mensal durou até 1975 (chegando a uma tiragem de milhão de exemplares), quando seus três editores-fundadores venderam sua participação e muitos colaboradores se transferiram para o estreante Saturday Night Live, que recriaria o mesmo espírito da revista na forma de um programa de TV. A revista durou até 1998, mas, como uma grife, continua com um site e produtora de filmes, peças teatrais, livros, programas de rádio e TV.

Entre seus artistas colaboradores, a revista contou com Neal Adams (o excelente desenhista de Batman, Lanterna Verde, X-Men e outros), os fantasmagóricos Edward Gorey e Gahan Wilson, os fantásticos Jeff Jones e Vaughn Bodé e muitos outros. McCall encontrou ali o veículo ideal para seu humor sofisticado e non-sense.

Em 1982, suas colaborações com esta revista, e também Esquire e Playboy, foram reunidas no livro que se transformou em uma raridade, Zany Afternoons. Em desenhos que unem a art-deco, ilustrações de propaganda dos anos 1930 a 1950, as revistas Life, Popular Science e Seleções do Reader's Digest com o surrealismo de René Magritte, McCall inventa um passado onde predominam obras monumentais e veículos gigantescos. Geralmente, as pessoas retratadas usando ou usufruindo destas fictícias conquistas da humanidade, aparecem como formigas, oprimidas e incapazes de reagir a estas maravilhas da engenharia e arquitetura, e que parecem ter sido criadas por um gênio doentio.

Lá vamos conhecer o R.M.S. Tyranic, um navio centenas de vezes maior que o Titanic, com seus saguões luxuosos e gigantescos para a primeira classe contrastando com os aposentos da tripulação que lembram campos de concentração. Vamos visitar a Feira Mundial do Cairo de 1936, onde no pavilhão O Homem Americano e Seu Dinheiro, o visitante pode ser trancado em um cofre e ser enterrado por uma avalanche de notas de 500 dólares novinhas em folha. E principalmente conhecer o Bulgemobile: automóveis monstruosos no tamanho e na concepção, que atravessam incólumes as depressões econômicas e explosões atômicas, levando sempre o sorridente proprietário que "já tem todas as coisas e precisa de algo para poder carregá-las".

Em seu livro seguinte, Thin Ice, ele exorciza com humor sua traumática infância no Canadá. Com um pai tirânico e uma mãe alcoólatra, ele conta como se refugiou nos desenhos para manter a sanidade. Este livro viraria depois um documentário do National Film Board of Canada.

Seu próximo livro, The Last Dream-O-Rama (Os carros que Detroit esqueceu de fabricar, 1950-1960) - um exercício de imaginação e humor -, mostra o que ele mais gosta de desenhar. Com quase uma centena de carros criados por McCall, o livro apresenta o que poderia ter sido a indústria automobilística se não houvesse restrições de tamanho e preço para os carros, crises de combustível nem auto-censura dos fabricantes e possíveis clientes.

Em All Meat Looks Like South America, ele reúne trabalhos reunidos ao longo de vinte anos e confirma sua criatividade e humor, sempre com muita crítica política e social.

Com mais de setenta anos Bruce McCall continua contribuindo com sua arte única para revistas, como a The New Yorker, para a qual cria textos de humor e capas impressionantes.

Para ver a National Lampoon de hoje:
http://www.nationallampoon.com

Para conhecer a inspiração dos desenhos de carros de McCall:
http://www.plan59.com/blog.htm


Claudio Roberto Martini é designer gráfico e publisher da editora de HQs Zarabatana Books

Fale com Claudio Martini: claudio.martini@terra.com.br

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Detalhe de Bossmobile Gal Friday Execustreak, de 1958

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