
Deolinda Vilhena
O fenômeno do "star system" surge nos anos 20 e nasce da concorrência entre os grandes estúdios americanos e da constatação feita pelos produtores de então que são os nomes e não as histórias que lotam as salas de cinema. Ao contrário da França, onde a cultura foi "um negócio de Estado", nos Estados Unidos, teatro sempre foi visto como um negócio sério, mas com o qual o Estado nunca teve qualquer compromisso.
Pois é justamente neste país que vê a cultura como uma mercadoria como qualquer outra que surge, quase que naturalmente, o "star system", criando "estrelas" que serão tratadas com a máxima distinção, inclusive monetária e em torno delas se desenvolve toda uma rede de interesses e grandes negócios liderada pela imprensa (jornais e publicações especializadas, que incluem livros e revistas).
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O "star system" não poupa nenhuma das artes e as "estrelas" dominam do cinema ao livro, passando pelo teatro e pelas artes plásticas, incentivadas por um sistema mediático que faz de tudo para mantê-las, enquanto elas são convenientes.
Os mitos são fabricados e consumidos de maneira compulsiva. Mas a história é antiga. Há cinquenta anos, Edgar Morin em sua obra de referência "Star", questionava o sistema americano de "mass culture", onde todas as facetas das ciências humanas eram mobilizadas para mostrar as estrelas como mito e como mercadoria, mas também para explicar o culto que elas suscitam.
Num mundo onde celebridades nascem e morrem a cada segundo, as estrelas do cinema e da televisão ocupam todos os lugares possíveis. Mas como definir uma estrela? Antes de tudo, podemos afirmar que uma estrela é uma pessoa física, um lugar ou uma empresa na qual os rendimentos dependam, no todo ou em parte, de uma exploração econômica da notoriedade que ela dispõe.
A exploração da notoriedade é uma atividade econômica aparentemente lucrativa, ainda que possa custar caro a um produtor, pois o que se diz é que os gastos com publicidade e propaganda oscilam entre 20 e 30% do valor final de um produto cujo preço está na casa dos 30 euros. O que não impede que a exploração da notoriedade ganhe mais e mais espaço no mundo atual. Não por acaso a economia tradicional nos ensinou que o valor, medido pelo preço, de um bem depende da lei de oferta e demanda, ou seja da sua raridade relativa e de seu custo de produção.
Ora, atores e jogadores de futebol existem aos milhares e, a exceção de uns poucos gênios, é difícil acreditar que exista uma tal diferença de talento entre eles que justifique diferenças de remuneração tão importantes.
Confesso que sou nula em economia, mas prefiro acreditar que existe um modo de formação de valor próprio da economia pós-industrial, que explique ao mesmo tempo o nível destas remunerações e as suas diferenças em relação às remunerações médias no setor.
Esse fenômeno que acompanhamos tanto no Brasil, com os teatros invadidos pelos "atores" de televisão, quanto na França, quando os palcos parisienses são invadidos pelas vedetes do cinema francês, muitos dos quais famosos em escala mundial, nos impõe a seguinte pergunta: será que para encher as salas de teatro precisamos realmente recorrer às vedetes da telinha ou da telona?
No caso de Paris, a resposta parece ser positiva, basta observarmos o número de estrelas que pisam as tábuas dos mais importantes palcos dos teatros públicos e privados neste início de 2008: Isabelle Huppert, Arielle Dombasle, Cécile de France, Clovis Cornillac, Carole Bouquet, Lambert Wilson, Daniel Auteuil, Fabrice Luchini, Patrice Chéreau e Anna Mouglalis, apenas para citar alguns.
Mas não creio que esse fenômeno tenha ligação com uma nova crise no setor teatral, ainda que crise e teatro caminhem juntos desde que o mundo é mundo. Com mais de três milhões de espectadores em 2007, os teatros privados da capital francesa não me parecem atravessar uma fase de grandes dificuldades. O que não quer dizer muito, pois, de acordo com a lei de Baumol, o teatro é, foi e será uma atividade deficitária.
Quanto ao teatro público, o fato de convocar as vedetes não é novidade, vira e mexe ele recorre a esse instrumento, numa tentativa de atrair mais público. Afinal, vedetes, ou "bankables" como se diz hoje na França, são aqueles que permitem a muitos diretores de teatro aumentar suas receitas, por vezes escassas mas sempre necessárias.
Essa situação gera uma outra que nos leva a correr o risco de misturar os grande atores, mais ou menos famosos, no mesmo balaio de gatos. Afinal, se alguns realmente usam e abusam de uma situação temporária, outros não podem ser chamados de "aproveitadores".
Ou alguém pode acusar Isabelle Huppert de não levar a sério o teatro, quando ela ostenta uma carreira coerente o suficiente para provar a seriedade do seu percurso professional, tendo trabalhado ao lado dos grandes diretores, de Claude Régy a Robert Wilson passando por Jacques Lassalle.
Tudo bem que hoje ela se deixa guiar por Yasmina Reza, que assina a direção de sua excelente peça Le Dieu du carnage. Mas será que não podemos associar sua escolha ao seu desejo em apostar no bom teatro? Ou mais ainda que assim ela demonstra a confiança que deposita nessa talentosa faz-de-tudo-um-pouco que é Reza.
Vale o mesmo para Daniel Auteuil, que aceitou se confrontar a um dos mais bonitos personagens do teatro clássico, o Arnolfo, de "Escola de mulheres", de Molière. Detalhe, Auteuil ocupa o Odéon - Théâtre de l´Europe, e a direção da peça tem a griffe de Jean-Pierre Vincent, antigo administrador da Comédie-Française e respeitado chefe de trupe.
Nesse mesmo caminho encontramos Fabrice Luchini, que desde sempre construiu sua carreira com uma passarela ligando o cinema e o teatro, e que é capaz de, usando apenas o seu nome, após triunfar em La Villette e no Gaîté-Montparnasse, de atrair multidões para aplaudi-lo em "Le Point sur Robert", onde ele lê textos tidos como "dificeis" e ainda assim lotando diariamente os 740 lugares do teatro Renaissance.
E como classificar a presença de Patrice Chéreau percorrendo os subúrbios do norte de Paris, como que a dar continuidade ao trabalho de descentralização e de popularização da cultura como ele tanto fez nos anos 60. Sua leitura de "O grande inquisidor", um capítulo de "Os irmãos Karamazov", de Dostoievski é a síntese do prazer supremo... Ver Luchini e Chéreau é desfrutar por hora e meia desse prazer que é estar diante de um grande ator, principalmente para quem, como eu, ama os belos textos e os atores que sabem dizê-los.
E o que dizer da presença da bela Carole Bouquet que retoma "Berenice" de Racine ao lado dos Wilson, Georges e Lambert, pai e filho, no Bouffes du Nord? A aparentemente fria montagem de Lambert Wilson dessa tragédia na qual a intriga é de uma simplicidade biblica, e com a qual Racine provava que não havia necessidade de mortes para se configurar o trágico, conta as desventuras de um casal apaixonado, Berenice e Titus, impedido de permanecer lado a lado pois Roma não poderia aceitar que seu imperador se casasse com uma estrangeira, e Titus se vê obrigado a enviar de volta a Palestina, sua amada Berenice.
Lambert Wilson se mantém fiel à vontade de Racine de "fazer alguma coisa a partir do nada" e, como diz Sophie Bourdais na revista semanal Télérama, "não se passa quase nada em Berenice, e contudo a gente não se chateia um minuto sequer". A prova disso é que ao final de duas horas e quarenta minutos de espetáculo eu confundi o final com um intervalo...
A essa conhecida constelação junta-se uma nova estrela: Clovis Cornillac. Graças a sua interpretação de Astérix no nova aventura de "Astérix e Obélix nos jogos olímpicos" que invadiu os cinemas na quarta-feira passada.
Cornillac no entanto é um "enfant de la balle", como são chamados os filhos de pais atores aqui nessas terras francesas. Sua presença no elenco de "L´Hôtel d libre-échange", um clássico de Feydeau, em cartaz no teatro nacional de La Colline, não há nada de surpreendente apenas reforça seus laços com Alain Françon, diretor da peça e do teatro, e um dos responsáveis por sua estréia nos palcos.
Quanto a Arielle Dombasle, nas horas vagas mulher do filósofo-star Bernard-Henri Lévy, ela é a estrela de "Don Quichotte et l'Ange bleu", primeira direção de Jérôme Savary após deixar o cargo de diretor do Opéra Comique, em cartaz no Théâtre de Paris, o mínimo que se pode dizer é que não é de hoje que ela faz parte da família teatral. Para desgosto de muitos.
Isso sem falar na bela Cécile de France, adorável no cinema, em três filmes que vi ela estava simplesmente deslumbrante: "L´auberge espagnole", "Fauteuils d´orchestre", "Quand j'étais chanteur", com Gérard Depardieu... mas não me animo a sair de casa para vê-la em companhia de Eddy Mitchell, que aos 66 anos faz sua estréia nos palcos... a peça é "Le Temps des Cerises", de Niels Arestrup em cartaz no Théâtre de la Madeleine.
Ou seja os palcos de Paris viraram literalmente um chão de estrelas, estrelas sim, mas que não perderam a paixão pelo palco ainda que uns e outros, como Daniel Auteuil, "detestem ensaiar". Logo, abaixo o "star system" mas bem-vindas sejam as estrelas dispostas a fazer teatro, apenas faço votos de que escolham o bom teatro...
Terra Magazine
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Divulgação
Isabelle Huppert é um bom exemplo do trânsito de estrelas entre teatro e cinema
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» A influência francesa em nossas mesas