
João Carlos Salles
No final deste mês de fevereiro, encerra-se a submissão de trabalhos para o XIII Encontro Nacional de Filosofia da ANPOF, que se realizará em Canela, na serra gaúcha, de 6 a 10 de outubro de 2008. Para relembrar esse prazo e convidar os colegas da comunidade filosófica nacional a visitarem a página da ANPOF (www.anpof.org.br), ora presidida por Álvaro Valls, retomo e repito algumas reflexões antigas sobre a importância dos nossos encontros, ou melhor, sobre o laço intrínseco entre a filosofia e seus encontros (especialmente, no Brasil, os da ANPOF).
Todos parecem empregar com alguma propriedade o termo 'filosofia'. Com efeito, tantos são os sentidos do termo que seu emprego dificilmente deixa de ser pertinente. Por outro lado, é comum o embaraço que os profissionais da área sentem diante da simples pergunta sobre o sentido da filosofia. De certa forma, é como se nos indagassem acerca de algo que não está nem pode estar bem resolvido. É de bom tom, nessa situação, dizer que a pergunta incomoda porque respondê-la já seria filosofar, mas este pode parecer apenas um desvio bem educado.
Sendo próprio dos filósofos sopesar os conceitos, solicitar considerandos, quebrar a naturalidade com que usamos as palavras, uma certa vagueza é talvez incontornável. Mais que um discurso consciente das coisas, a filosofia pretende ainda ser um discurso consciente de si mesmo, ou seja, é reflexão, um discurso que não retira do campo de sua indagação os instrumentos de que se serve e as condições do próprio conhecimento. Com isso, toma sempre a si mesma como objeto e, por exemplo, nunca se satisfaria com encontrar algo verdadeiro se não perguntasse também, mais fundamente, o que pode ser a verdade.Certamente, tudo isso pode parecer muito vago, gerando alguma insatisfação. Profissionais de uma área deveriam ter algum acordo prévio e público sobre a natureza da disciplina que os congrega e dá sentido a reuniões e encontros. As definições, porém, costumam não ser felizes e, muitas vezes, vêm apenas coroar um processo que não condicionam.
Divertindo-se com dificuldades dessa ordem, alguns arriscaram definições anedóticas, por exemplo, para a física como "aquilo que os físicos fazem nos laboratórios de física". O conjunto a ser definido se conformaria então por um traço exterior e nada essencial, que, nesse caso, dizem, seria o único satisfatório.
No caso da filosofia, sem laboratórios precisos, a situação seria ainda mais peculiar e menos clara; entretanto, contra uma exigência lógica de univocidade, a ambigüidade não é, para nós, um malefício. Ela resulta, queremos crer, de uma exigência íntima de nosso ofício, pois, se a questão "O que é física?" não é exatamente um problema físico, a questão "O que é filosofia?" é realmente um primeiro e sempre recorrente problema filosófico, de sorte que cada filósofo procura respondê-la no interior da trama conceitual por que elabora seu pensamento. A ambigüidade não pode nem deve ser controlada por decreto ou por alguma definição restritiva, embora, no interior de cada pensamento, a exigência de univocidade possa voltar a impor-se.
Um traço exterior de nossa atividade, a circunstância acidental dos encontros (que têm se multiplicado tanto em nosso país), traduz e caracteriza um componente fundamental do labor filosófico na atualidade. Se a física não é, essencialmente, o que os físicos fazem em seus laboratórios, a filosofia é, em grande e interna medida, o que os filósofos fazem em seus encontros.
Um Encontro de Filosofia não é um espaço para a mera apresentação de resultados de pesquisas desenvolvidas alhures. A palavra não tem neles uma presença artificial, de modo que os enunciados se afirmem com independência das condições de enunciação, comunicando tão-somente verdades, que sobreviveriam sem o diálogo e sem o confronto mesmo de idéias.
O Encontro é, pois, lugar de confirmação e de descoberta, de elocução e aprendizado, no qual o pesquisador ensaia e se arrisca. Como trabalho conceitual que exige argumentos, a filosofia funciona criando e renovando condições ideais de argumentação. Desse modo, é um traço essencial da atividade filosófica solicitar espaços de confrontação crítica e condições adequadas para um debate que não tema aprofundar-se, nem se satisfaça com a ilusão momentânea de uma verdade.
Os Encontros Nacionais da ANPOF, em especial, têm grande significado para nossa área, sendo talvez uma nossa singularidade que precisemos investir muito neles, pois constituem um autêntico e privilegiado espaço de reflexão e de avaliação de nossa produção acadêmica, e também de aprendizado recíproco por parte dos diversos programas de pós-graduação de todo país, bem como por parte de professores e alunos, servindo à constituição de uma efetiva comunidade nacional de filosofia.
A filosofia guarda assim não só o conceito, mas ainda as condições de sua enunciação. Simplesmente enunciando proposições, coincidiria talvez com alguma ciência, sem dispor dos mesmos recursos nem do mesmo sucesso, tal a imprecisão mesma de sua matéria. Diante de um tempo que exige decisões, que convida à competitividade, a filosofia, mesmo ao oferecer teses, oferece também dúvidas, considerandos, convidando-nos ao diálogo, a uma reflexão que exige o primado da palavra e preserva a paciência do conceito contra qualquer urgência do tempo.
Terra Magazine