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Sábado, 16 de fevereiro de 2008, 08h08

Reasco volta a jogar e admite "medo de dividida"

Luciano Borges

Reasco está voltando. Com um pouco de medo. Aos 30 anos, o ala direita do São Paulo enfrenta o Marília, neste domingo. Entra no lugar de Joílson, que sofreu uma lesão muscular. Essa será a terceira partida consecutiva do equatoriano, titular na seleção de seu país, que passou os últimos seis meses se recuperando de uma fratura na perna direita.

A passagem de Reasco pelo São Paulo foi, até aqui, marcada pelo azar. Ele já tinha fraturado a fíbula, logo na estréia, no dia 13 de agosto de 2006. Quase um ano depois, quando enfrentou o Botafogo carioca, levou uma pancada no mesmo lugar e teve o osso quebrado novamente. Para se ter uma idéia, a segunda fratura só não foi exposta porque uma "vareta" de metal que sustentava o osso da primeira vez, segurou o impacto.

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» Assista à entrevista com Reasco

Por isso, o jogador admite que ainda sente medo quando tem que entrar em dividida com a perna direita. Ele conta que o trabalho mais difícil é vencer este receio de nova contusão e jogar normalmente.

Curiosamente, Reasco apresenta números invejáveis no São Paulo. Já disputou 22 jogos. Neles, o time venceu 16 e empatou seis vezes. Ele está invicto com a camisa tricolor.

Pai de um casal de garotos, o ala é um cara engraçado. Faz piadas, ri fácil, coloca apelidos nos companheiros. O nome dos filhos dá a pista do jeitão do jogador. "O mais velho se chama Djorkaef, em homenagem ao volante da seleção francesa. A menina é a Mel, por causa do personagem da novela O Clone, que eu via lá no Equador".

Sempre que pode, Reasco leva e traz os filhos que estudam numa escola católica na zona oeste. Ele conta que a família o ajudou a "arrumar a cabeça" depois da segunda fratura. Especialmente a mulher, Germânia Elisabeth. "Ela foi quem me apoiou e me deu moral nesse tempo todo", afirma.

Em entrevista a Terra Magazine, Reasco conta que nunca conversou com o lateral-esquerdo, Luciano Almeida, do Botafogo, que provocou a segunda fratura. Mas que ficou chateado quando o viu sofrer uma grave lesão no tornozelo direito, numa partida do Brasileiro do ano passado.

Perto de encerrar o contrato, ele quer ganhar a posição de titular para provar que sua contratação "valeu a pena".

Terra Magazine - Desta vez, vai?

Reasco - Tem que ir. Já é hora. Fiquei muito tempo sem jogar, muito tempo fora. Não via a hora de mostrar meu jogo. Foram seis meses afastado.

Além do tratamento, o que você fez nesse tempo?

Antes de tudo, precisei arrumar minha cabeça. Minha esposa foi muito importante nessa hora. Eu já vinha de uma fratura no mesmo lugar. Quando aconteceu a segunda, fiquei pensando se voltaria a jogar. E minha esposa e os amigos aqui do São Paulo me ajudaram muito a estar com a cabeça pronta para voltar, a não ter medo.

Você volta de uma fratura praticamente no mesmo lugar. Você superou o medo? Você acha que não tem problema nenhum para jogar hoje?

Não tem problema nenhum, mas tenho um pouco de medo sim. Sempre existe aquele temor, o risco de uma dividida, mas com a perna afetada. Se vou dividir uma bola com a perna não afetada, não existe nenhum tipo de receio.

Este retorno é diferente do primeiro?

Foi mais o receio de não poder mostrar 100 por cento do meu potencial futebolístico. O medo era de não render o que podia em campo.

Depois da segunda fratura, você chegou a conversar com o Luciano Almeida, do Botafogo?

Não falei. Nunca me interessei. Quer dizer, se ele me ligasse, eu conversaria tranquilamente. Não acho que ele quis me machucar. Ele entrou daquele jeito mais para me aterrorizar, para mostrar que ele estava ali e exigia respeito. Não acho que ele entrou com maldade.

A cena da fratura no tornozelo dele foi impressionante. Você viu?

Vi. Me deu arrepios. Eu virei até de costas quando estava passando na tevê. Nem sabia que o jogardor era o Luciano Almeida. Senti muito, porque ele é profissional do futebol como eu. Sei como é difícil e como é difícil superar o medo da volta. Nunca desejei nada de mal para ele.

Onde dói mais: no lugar da fratura ou na cabeça?

Eu passei um tempo pensando assim: "Puxa, eu vim para cá, para jogar e não tenho a oportunidade de mostrar porque estou aqui". Isto é o pior.

E agora, você briga por uma vaga na ala direita.

Pois é. Sabe que na seleção equatoriana, eu jogo de ala esquerdo e até volante do lado esquerdo? Lá, jogamos com duas linhas de quatro e eu fico mais naquele setor. Aqui, jogo na ala direita. A disputa da vaga é com o Joílson que, lamentavelmente, se machucou contra o Santos.

Como foi seu retorno aos campos? Como você se sentiu antes de entrar em campo contra o São Caetano?

Ah, passa aquele filme na cabeça. Você lembra o que enfrentou. Eu disse para mim: "Tenho que jogar bem. Não posso me preocupar com a perna machucada. Ela não dói". Acho que, para quem ficou seis meses parado, tive uma atuação aceitável.

Depois, você entrou no segundo tempo do clássico contra o Santos. Gostou?

Aí eu gostei. O jogo parelho, do jeito que gosto. O São Paulo podia ter matado o Santos ainda no primeiro tempo. Tivemos várias chances. Dava para ter marcado dois, três gols. Depois complicou. A gente acabou atacando errado, com muita gente na frente. Tomamos dois grandes sustos.

Você não é um cara de dar entrevistas e, pelo menos na frente dos jornalistas, brincava pouco. Hoje você está rindo mais fácil. Por quê?

Eu sou um cara brincalhão. Mas não gosto muito de dar entrevistas, ainda tenho medo das câmeras, fico sério. Aqui no trabalho, mostro que estou feliz. É importante fazer as coisas com alegria. Afinal, estou num clube grande do Brasil, com estrutura para treinar, com todas as condições. Agora, em casa, sou mais sério. Mas no São Paulo é diferente. Eu sempre ponho apelido nos companheiros.

Diz aí: quem é a última vítima?

O Juninho (zagueiro). Coloquei o apelido de Evo Morales (presidente da Bolívia) nele. É a cara dele.

Já colocou apelido no Rogério Ceni?

Opa, não. Ele é muito sério. Não pode tirar sarro dele (risos).

O que você gostou mais aqui no Brasil?

Da carne. Ela é muito boa, mais gostosa. E barata. O bife que as cozinheiras aqui do CT fazem é muito bom. Isso é uma coisa que não tem lá no Equador. Joguei na LDU, que é um time grande, de boa estrutura. Mas falta um centro de recuperação como este Reffis daqui, ou mesmo um refeitório como o que tem no CT.

Dá moral jogar no Brasil?

Lá no Equador? Dá muita moral. Bom, jogar no São Paulo dá moral em todo o mundo. Mas lá no Equador, quando volto, sou muito procurado para entrevistas. E lá é diferente daqui, Lá, os jornalistas vão atrás de você em casa. Em Quito, quando saia do treino, tinha uma fila de repórteres e você precisava falar uns cinco minutos com cada um. Às vezes eu passava e já avisava que "hoje não vou falar". Nunca tive problemas.


Luciano Borges é editor-chefe do Bandsports e autor do Blog do Boleiro.


Fale com Luciano Borges: borges.luciano@terra.com.br

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