
João Carlos Salles
A linguagem dos quadrinhos me fascinou por muito tempo. A sutileza do traço, os recursos narrativos, a economia de certas histórias (algumas sombrias), tudo isso me tocava com uma força extraordinária. E, também, em torno das revistas, todo um mercado se realizava, aproximando garotos sedentos por revistinhas de bairros os mais distantes em Cachoeira, no interior da Bahia.
Não por acaso, ainda secundarista, mas já em Salvador, freqüentei o grupo coordenado por Gutemberg Cruz, que editava o folhetim "Na era dos quadrinhos", lá por volta de 1975 e se reunia, se a memória não falha, em uma sala da Escola de Nutrição da UFBA. Um grupo, vejo agora, com personagens as mais estranhas e aproximadas pelo acaso, como se não guardassem entre si diferenças significativas. Nildão, Setúbal, Guache, Zivé, Dílson, Cedraz, e tantos outros. Artistas plásticos, colecionadores, cartunistas, jornalistas, todos pareciam cúmplices em uma causa um tanto vaga; e cartunistas envolvidos na luta contra a ditadura se juntavam a desenhistas de tiras infantis ou a um policial militar cioso de sua coleção completa do Zorro.
Foi a oportunidade para sofisticar um gosto infantil e me fazer distinguir melhor o que era próprio da linguagem, como dizem os portugueses, da banda desenhada, reforçando a intuição originária, que sempre acompanhou meu gosto, de que tal arte, caso seja arte, não pode ser palavrosa, cabendo-lhe saber dispor dos planos oferecidos pela imagem.
Foi assim que pude encontrar e analisar o melhor dos exemplos da linguagem dos quadrinhos, a saber, a obra-prima de texto e imagem conjugados Os Olhos do Gato (Les yeux du chat), de Jodorowsky e Moebius. E, confesso, ainda não vi superada essa obra. É talvez igualada por desenhos de Quiño, ou por tiras de Watterson, etc. Em sua categoria, porém, continua imbatível. Por isso, recupero agora um texto de quase 20 anos, os seguintes parágrafos soltos de comentário, como um convite ao leitor a que procure esses olhos e, quem sabe, os aceite.
Linguagem e Mundo N'Os Olhos do Gato
1. Toda arte justifica sua necessidade por seu virtuosismo. É necessária porque insubstituível, nenhuma outra podendo ultrapassá-la ou tornar prescindíveis as limitações que lhe conferem singularidade.
A tal desafio responde apenas a obra-prima. Assim, uns versos de Pessoa e "Campo de Flores" justificam a literatura em português, e certos desenhos de Jean Giraud (Moebius) salvam nossa paixão por quadrinhos, pela banda desenhada, pela arte seqüencial.
2. A arte seqüencial realiza-se em sua pureza, justifica sua necessidade apenas quando ilustração e palavra renunciam a sua independência.
A palavra abandona o dizer, contamina-se com a ilustração, propõe-se a um puro mostrar.
A ilustração, desafiada pela palavra, não mais se contenta com sugerir; portanto, mostra absolutamente, diz tudo.
O objetivo da obra, seu limite justificador, é o puro visual: a palavra torna-se imagem e a ilustração, negada, afirma-se como o próprio desenho do mundo.
3. "Os Olhos do Gato", de Moebius e Jodorowsky, é arte seqüencial em estado puro, quando a limitação dos materiais utilizados (a obrigatoriedade das páginas, o inevitável das tintas, traços e papéis) torna-se recurso que ultrapassa o sensível, servindo-se dele como se já não fora obstáculo, sombra, dilação. E, negada a linguagem em sua materialidade, solicita um mundo que a habite.
4. Não há calhas.
As páginas todas e cada página em seu todo participam o texto e condicionam por completo nossa leitura. Assim, o tempo da obra (para além da afirmação de um sujeito da leitura, vivo e independente do texto) é determinado pelo espaço em que se resolve a narrativa, e o texto-imagem controla e saboreia olhos e ouvidos do leitor.
5. Não há ilustração em "Os Olhos do Gato", pois a palavra escrita não descreve, serve antes como reforço da simultaneidade, como meio para diluir o paralelismo e para mostrar a unidade entre campo e contracampo, entre dentro e fora, ou, ao pé da letra, entre a página direita e a página esquerda.
Trata-se de uma história cuja força estética depende dos recursos da banda desenhada, subsumidos então como elementos de liberdade artística. O texto pode assim transformar a dissociação no espaço das páginas em apresentação da simultaneidade dos eventos.
6. Ao tematizar um jogo que exercita, fazendo objeto seu o brincar de ver, multiplica-o à beira quase da vertigem. Desse modo, torna-se metalírica do quadro, da arte seqüencial, do olhar, como um voyeur superior ao medo de ser observado.
A janela, lugar da visão de quem não enxerga, é estilizada, disfarça-se, é moldura, quadro aplicado sobre quadro, cidade habitando outra cidade, como um deus tatuado nas costas de um outro deus.
7. A auto-referência destrói a representação. Assim, duas abstrações caras a qualquer uso referencial da linguagem perdem seu sentido. Não há proposições nem há fatos. Há, ao mesmo tempo, experiência da linguagem e existência do mundo.
Linguagem e Mundo são agora o mesmo porque soberana a narrativa que os enuncia, com sua linguagem que é também fato, com seu mundo que é apenas linguagem, com proposições, portanto, que literalmente mostram o que dizem e dizem algo porque põem o mundo diante de nós.
8. Toda análise além do puro ver parece-nos agora um exercício banal. Quando o ver se impõe, talvez o silêncio devesse ser proposto como exigência ritual.
Não somos porém infensos à futilidade. Ademais, analisar também nos delicia e nos inventa lugares, leituras, perspectivas. Além disso, a perspectiva (em qualquer sentido do termo) não é técnica, mas sim outro atributo da linguagem. Favorece nosso distanciamento ou aumenta nossa fragilidade, exceto quando nos põe a enxergar do ponto de vista de um gato que perdeu os olhos.
Moebius e Jodorowsky situam-nos, porém, em um lugar ainda mais sufocante, pois reiteram nossa impotência de observadores, propagando a cena em nossos olhos, em ângulo sempre direto, em ângulo por onde se vê ressaltado nosso "olhar a página", centro agora absoluto da perspectiva.
9. Banda desenhada que se nega, falsos são os seus requadros.
O requadro é contenção, protege o leitor. Will Eisner, em Quadrinhos e Arte Seqüencial, salientou muito bem que ultrapassar o requadro é técnica que atualiza a potência ameaçadora ou olímpica de uma figura.
Mas, com que proteção pode contar o leitor, se a narrativa apenas simula ter um requadro seguro?
10. O requadro é falso porque seus limites dissolvem-se em amarelo. Tal dissolução, assim para o leitor como para a imagem, protege e permite a contaminação dos olhares. Em suma, a página não é requadro ou moldura, sendo o fato material de sua demarcação outro ardil que a leitura tão-só repõe, enquanto inaugura a evidência de estar o limite em nossos olhos, irremediavelmente amarelos e perdidos.
Terra Magazine
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Reprodução
Os Olhos do Gato, de Jodorowsky e Moebius, obra que para João Carlos Salles ainda não foi superada entre os HQs
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