Terra Magazine

› Terra Magazine › Cultura

Quinta, 21 de fevereiro de 2008, 07h49

Mas é uma gramática?

Redação Terra
Bibliografias para o ensino de Gramática podem cometer erros, alerta Sírio Possenti
Bibliografias para o ensino de Gramática podem cometer erros, alerta Sírio Possenti

Sírio Possenti

Sacconi é um franco-atirador no campo da língua - da gramática e dos livrinhos de dicas etc. Perdi meu exemplar da gramática dele, mas lembro que tratava dos advérbios de forma nada canônica, sem obedecer à nomenclatura gramatical brasileira, uma das grandes besteiras em vigor e que os gramáticos inexplicavelmente aceitam (espero que a memória não me traia exatamente quando quero elogiar alguém...).

No seu 1000 erros de português da atualidade corrigidos e comentados (divertidamente) pelo autor do best-seller NÃO ERRE MAIS (Ribeirão Preto, Nossa Editora, 1990), faz propostas interessantes. Vou transcrever uma de suas seções:

Devo escrever diesel ou dísel?
Em português, escreva dísel; em inglês, diesel. Muitos, todavia, preferem escrever apenas em inglês. Permita-me, então, caro leitor, a liberdade dessa pergunta: nossa língua oficial é a portuguesa ou a inglesa?
Anote mais estes aportuguesamentos interessantes: estresse, drinque, escripte, eslôgã, esmôquim, espíquer, esprei, esqueite, estêncil, estriptise, flerte, frilance, frízer, gangue, grogue, guei, gurmê, ianque (p. 61).

Na página anterior, dedica uma pequena seção à palavra "pizza". A chamada é: "Píteça? É de comer?" O texto diz: "É o que nós, brasileiros, comemos na piteçaria: píteça. Quem escreve pizza, pizzaria, não escreve em português. E o italiano não é nossa língua oficial... Escreva píteça, porém pronuncie pítiça (o e soa i em sílaba átona)".

Espero que o leitor concorde, pela amostra, que o homem é mesmo um franco-atirador.

Mas ele se repete demais: apela muitas vezes para o tópico de nossa língua oficial, por exemplo, embora na capa esteja a expressão "best-seller", em destaque, que ninguém é de ferro na hora de faturar. Também é um pouco incoerente. Por que escrever píteça, mas estriptise e escripte, e não estripetise e escrípete? Por que, em um caso, a sílaba travada recebe uma vogal (píteça) e nos outros, não (estriptise, escripte). Ora, se estriptise e escripte, então pitça. Se píteça, estripetise e escrípete.

Em suma, Sacconi segue sua cabeça, o que não é ruim. Seria bom, aliás, que outros estudiosos também fizessem suas propostas de análise e que a escola e a sociedade aceitassem mais facilmente a diversidade lingüística (pelo menos certas variantes) e diversas explicações, diversas gramáticas.

Mas Sacconi também pode fazer mal à saúde... e deve ser lido com cautela. Vejamos algumas razões.

A IstoÉ começou a publicar, em fascículos, a partir do último final de semana (17/2/2008), a Novíssima gramática ilustrada Sacconi. A principal novidade são as ilustrações. Não, não se trata de fotos de Said Ali ou de Camões. São desenhos mesmo. Alguns têm mesmo o jeitão das charges e das tirinhas, com pretensões humorísticas. Normalmente, gramáticas são sisudas, e sua cara contribui para a idéia de que se trata de conteúdo inacessível aos mortais comuns. Essa caixa não vai ter a cara tradicional das gramáticas. Vai ter todos os defeitos dos livros didáticos e da nova mania das gramáticas simples e bem-humoradas...

A gramática começa mal, com um erro básico. A primeira afirmação é "Fonema é cada um dos sons da fala". Erro grosseiro, que não leva em consideração a diferença crucial entre o estudo dos sons de que os falantes se "servem" para falar, objeto da fonética, e o das unidades distintivas elementares, objeto da fonêmica ou fonologia.

Já contei aqui (acho), que um professor que freqüentei antigamente dizia que um cara vira lingüista quando entende o que é um fonema. E já escrevi - aqui e em outros lugares - que até hoje não vi nenhum desses especialistas em distúrbios da fala ou conselheiros de campos conexos (fonoaudiólogos, neurólogos, psicólogos etc.) empregar adequadamente o conceito de fonema. Eles dizem, por exemplo, "falar / não falar um fonema", "pronunciar / não pronunciar um fonema" com a maior cara de pau.

Não, fonema não é um som. Um som é um fone. O fonema é outra coisa, e, para compreender o que seja, é preciso considerar outro nível de funcionamento da língua que não é o mais "concreto", o dos sons.

Simplificando um pouco, a história dos estudos fonológicos fornece duas definições de fonema, cada uma delas ligada a uma concepção do que pode ou não existir na mente humana, no caso, do falante. Uma definição que admite entidades mentais (eventualmente diferentes das "concretas") concebe o fonema como uma entidade psicológica - nos termos de Saussure, seria uma imagem acústica. Ou seja, não se trata do som, mas de uma representação que o falante faz do som.

Um valor lingüístico pode não equivaler a nada concreto. A forma mais simples de tratar disso é considerar que o falante comete uma espécie de engano, que ele pensa que duas ou mais entidades são uma só. Por exemplo, em "casa", que é o exemplo de Sacconi, os dois "aa" são diferentes, como sons: o átono não é igual ao tônico. Pela definição de Sacconi, o fonema /a/ não apareceria duas vezes nessa palavra, já que o "a" tônico é um som e o átono é outro, diferente. Mas, para os falantes, trata-se do mesmo, ou seja, eles têm de ambos a mesma imagem acústica.

Um exemplo que mostra ainda mais claramente que o fonema não coincide com o som é o caso do /t/: não só "pensamos" que se trata da mesma unidade em "tudo" e em "tenho" (é fácil mostrar que diante do u tem características acústicas e articulatórias diferentes das que tem diante de e), mas também pensamos que é o mesmo que dizemos em "tinha", mesmo que nossa pronúncia seja (tchinha). Ora, os sons t e tch são muito diferentes um do outro. Apesar disso, trata-se do mesmo fonema. (O que ocorre com o /t/ ocorre com o /d/: pense em "vida" e "devo" e em "vida", pronunciado (djívida)).

Às vezes, depreender um fonema exige a consideração de materiais mais "complexos". Por exemplo, para poder afirmar que no final de "mal" há um fonema /l/, diferentemente do que há em "mau", um fonema /w/, embora todos pronunciem as duas palavras do mesmo jeito, com os mesmos sons, tem-se que considerar questões morfológicas: por exemplo, aceitar que há alguma identidade entre "mal" (mesmo que o som final seja (w), (maw)) e "maledicente", palavra em que ocorre o som (l), e não (w). É interessante para uma gramática poder dizer que se trata do mesmo fonema e dar uma explicação para as diferentes pronúncias. Por exemplo, que /l/ vira (w) em final de sílaba, o que explica sua vocalização em mal e também de maldade, malfeitor etc., e também em Brasil, alto, papel...

Para quem não acredita em realidades psicológicas desse tipo - isto é, que os falantes tenham fonemas "na cabeça" - a solução é dizer que um fonema equivale a uma classe de sons, isto é, basicamente, que não corresponde a um som, mas a vários. Para dar exemplos claros, o fonema /l/ corresponde pelo menos aos sons (l) e (w); o fonema /t/, aos sons (t) e (tch), o fonema /a/, aos sons (á) e (a) etc.

A definição de fonema é um dos erros de Sacconi, produzido já na entrada. Espero que faça coisa melhor na saída...

Mas há outros problemas. Vou mencionar dois, brevemente. Eles decorrem de uma decisão discutível, a de não separar claramente as entidades, as análises e as regras da língua falada e da escrita.

Por exemplo, Sacconi ensina o que é um dígrafo. Claro que a conexão desse conceito com o de fonema pode ser claramente estabelecida. É algo que decorre do fato de letras não representarem necessariamente fonemas. Dito de outra forma, não há uma relação biunívoca entre letras e fonemas, de forma que a cada letra corresponda um fonema e, dado um fonema, sua representação seja sempre feita pela mesma letra. Uma dessas faltas de regularidade é a representação de um fonema por duas letras, o dígrafo. Os exemplos mais claros são ch, nh e lh, cada dupla de letras representando um fonema.

Sacconi faz distinções claras. Por exemplo, explica a diferença entre o que ocorre numa sílaba como lh (em que há um dígrafo) e em uma como a primeira de hálito. Informa que não é pelo fato de a seqüência ser pronunciada (a) que temos aí um dígrafo; no caso, trata-se apenas de uma reminiscência etimológica. Ou seja, não é o caso de dizer que o som (a) possa ser grafado "ha", com um dígrafo.

Dito isso, faz uma observação bem menos inteligente a propósito de casos como bomba, em cuja primeira sílaba, segundo sua análise, há dois fonemas, /b/ e /õ/. Uma análise alternativa diria que não existe o fonema /õ/, que ele de fato é o fonema /o/ modificado por uma nasal; ou seja, haveria menos fonemas do que Sacconi pensa que há.

Dito isso, vejamos o que diz o gramático em um box: "As vogais nasais estão aqui representadas grosso modo, visto que nesta fase do aprendizado consideramos como dígrafos os conjuntos am, an, em, en, im, in, om, on, um, un em final de sílaba (e não em final de palavra)".

Primeiro, não está especificado em lugar nenhum, numa introdução, a quem a gramática se destina, em que nível de aprendizado estaria seu leitor. Segundo: que bela atitude essa de ensinar errado para corrigir depois!!! Arrisco uma avaliação: ele acha que crianças, ou iniciantes, não conseguem entender esses conceitos, mas quer que os aprendam mesmo assim. Para que isso seja possível, ele os ensina de forma errada. Depois ele faz um livrinho que corrige os erros que ele mesmo ensinou... Parece um pai dizendo ao filho que ele nasceu de um repolho.

No tópico dos encontros consonantais, Sacconi ensina que "encontro consonantal é o encontro de duas ou mais consoantes em uma só palavra". Errado! O ambiente em que se define encontro consonantal é a sílaba, não a palavra. Para ele, em escreve, o encontro consonantal é scr. Mas, de fato, só há um encontro consonantal nessa palavra: cr.

Também há afirmações dessas de boteco. Por exemplo, para explicar que os gramáticos ou lingüistas se servem de uma convenção para representar os fonemas, que é colocá-los entre barras, escreve: "todo fonema vem entre barras oblíquas". Vem de onde, Sacconi? Do Pingüim?


Sírio Possenti é professor associado do Departamento de Lingüística da Unicamp e autor de Por que (não) ensinar gramática na escola, Os humores da língua e de Os limites do discurso.

Fale com Sírio Possenti: siriopossenti@terra.com.br

Opiniões expressas aqui são de exclusiva responsabilidade do autor e não necessariamente estão de acordo com os parâmetros editoriais de Terra Magazine.

Terra Magazine

Busque outras notícias no Terra

Terra Magazine América Latina, Veja a edição em espanhol

Argentina Chile Colômbia Equador Estados Unidos México Peru Venezuela