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Sexta, 22 de fevereiro de 2008, 08h05

Meu encontro com Beaumarchais na "casa" de Molière

Deolinda Vilhena

Começo a me preocupar. Afinal a cada vez que falo sobre a Comédie-Française faço rasgados elogios. Vão acabar achando que sou paga para isso ou que tenho um percentual na bilheteria dos seus espetáculos. Na verdade esses elogios são apenas o reconhecimento do trabalho que lá vem sendo realizado, iniciado em 2001 por Marcel Bozonnet e desde 2006 levado adiante por Muriel Mayette.

Belo exemplo dessa nova política é a montagem de Christophe Rauck para a peça de Beaumarchais, O casamento de Fígaro. Saí do teatro constatando que a "Velha senhora" no esplendor dos seus 328 anos soube, sem constrangimento, deixar para trás uma imagem ligeiramente empoeirada ao acreditar na nova geração de atores, diretores, cenógrafos, figurinistas, sem contudo esquecer o seu papel: manter vivo o repertório do teatro francês e mundial, aumentando-o sempre que possível, graças a novas entradas de autores.

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Em 99% das vezes que fui à Comédie-Française saí de lá feliz com o que vi. Devo confessar que tenho um certo "xodó" pela Maison de Molière. Talvez pelo respeito que ela tem com os grandes do teatro e ao mesmo tempo pelo respeito que os franceses têm por ela, a Comédie-Française é quase um símbolo nacional. Para mim é a prova concreta de que o antigo e o novo podem coexistir e assinar belas parcerias.

Depois, como dizia Joãosinho Trinta, quem gosta de miséria é intelectual, eu gosto de riqueza, de luxo, de beleza. E isso a Comédie tem de sobra. O prédio é deslumbrante, a localização é sem igual, a dois passos do Louvre, e a três passos do Palais Garnier, os ouros e os vermelhos da Sala Richelieu são de "babar" e o público é digno de um estudo sociológico.

Encontra-se de tudo por lá, do chinês que não fala uma palavra de francês, a senhora de 80 anos que há mais de 70 freqüenta a sala, aos jovens em idade de vestibular que por lá passam para rever os clássicos de leitura obrigatória nos exames do "baccalauréat".

Dessa vez encontrei até Patrick Bruel, misto de ator e cantor dos mais populares da França, que nas horas vagas disputa torneios internacionais de poker, acompanhado da novíssima namorada, pois a "presse people" anunciou sua recente separação há poucos dias. Talvez por isso ele tenha sido tão antipático quando ousei fazer a fotografia...

Mas além de Patrick Bruel havia uma garotada muito da mal educada. Adoro ver jovens em teatro mas detesto gente mal educada... Durante o intervalo quase baixei um decreto proibindo o lema "cultura para todos" para adotar um outro "cultura para bem educados", mas com medo de ser linchada me calei. Posso parecer antiga mas acredito que uma boa dose de compostura é indispensável.

BEAUMARCHAIS, INSOLENTE, SUBVERSIVO E ATUALÍSSIMO
Pierre-Auguste Caron de Beaumarchais é a grande figura do teatro francês da última metade do século XVIII. Um bom herdeiro de Diderot e de Voltaire, de quem edita as obras completas, Beaumarchais se inscreve na linhagem do livre-pensamento do século das Luzes. Filho de um relojoeiro da burguesia parisiense culta e ele próprio um relojoeiro que se tornará nobre graças ao casamento, era ainda autor, homem de negócios, agente secreto de Luís XV e professor de harpa das filhas do mesmo rei, de forma que conquistou facilmente seu passaporte para entrar na vida da corte.

O fracasso de suas primeiras peças, "Eugénie", representada em 1767 e "Os Dois amigos", é apenas um acidente de percurso. O sucesso viria com "O Barbeiro de Sevilha", cujo êxito incentivou o autor a escrever a continuação, nasceu assim "O Casamento de Fígaro" ou "Um Dia Louco".

As peças de Beaumarchais testemunham o crescimento do poder da burguesia, de quem ele expressará, por intermédio de seu dublê Fígaro, o desejo de ascensão social e reconhecimento político numa sociedade sitiada. Pode-se creditar, em parte, a repercussão dessas peças, representadas respectivamente em 1775 e 1784, à crítica aos privilégios da aristocracia, quase às vésperas da revolução francesa, que explodiu em 1793 e levou o rei Luís XVI à guilhotina. Afinal, é inegável que as aventuras do criado Fígaro refletem bem o espírito contestatório da época e as aspirações do Terceiro Estado, que iria fazer a Revolução.

A ação de "O Casamento de Fígaro" começa quando o Conde demonstra suas intenções em restabelecer o "droit du Seigneur", tradição medieval que garantia ao proprietário da casa o direito de usufruir da primeira noite das empregadas que se casavam. Fígaro, irritado, dispõe-se a fazer de tudo para impedir que isso aconteça. A trama central é o ponto de partida para o autor trazer à tona numerosos incidentes e relações pessoais mal explicadas, revelando hábitos e comportamentos condenáveis da sociedade monárquica. A confusão é tanta que todos imaginam-se traídos e agem dispostos a se vingar da suposta traição.

Em amante da liberdade, Beaumarchais denuncia maliciosamente a censura, sendo um representante da burguesia que se eleva por seu próprio mérito, despreza a superioridade pretensamente natural da aristocracia, como vemos na fala de Fígaro ao Conde: "Por ser um grande fidalgo, o senhor se acredita um grande gênio (...) O que fez para possuir tantos bens? Deu-se apenas ao trabalho de nascer e nada mais".

"O Casamento de Fígaro" acabou por se transformar no maior sucesso teatral do século, ajudado por um escândalo. Censurada por Luís XVI a peça esteve proibida por três anos antes de sua criação em 1784. A coroação final virá dois anos depois quando Mozart assinará a ópera "As Bodas de Fígaro". Em 1816, será a vez de Rossini colocar em música "O Barbeiro de Sevilha".

O segredo do sucesso dessas duas peças é provavelmente a linguagem de Beaumarchais, a ironia que autoriza todas as insolências, a simplicidade de estilo, e ainda a jovialidade de duas comédias divertidas, cheias de espirituosidade, dentro da tradição da "commedia dell'arte" italiana.

A censura será uma constante na vida de "O Casamento de Fígaro". As proibições se sucedem desde o Primeiro Império até o regime de Vichy, talvez por causa da famosa tirada que acaba transformando em zombaria a hipocrisia dos regimes onde reina a censura:

"Desde que eu não fale em meus escritos nem da autoridade, nem do culto, nem da política, nem da moral, nem das pessoas no poder, nem dos donos dos créditos, nem da Ópera, nem dos outros espetáculos, nem de quem quer que defenda alguma coisa, eu posso imprimir tudo livremente, sob a inspeção de dois ou três censores."

Mas Beaumarchais é muito mais do que um autor de teatro. Seu amor pela liberdade e a recusa da opressão de um povo por outro o levam a convencer Luís XVI a fornecer, através dele, um apoio militar importante e secreto aos insurrectos americanos (1776-1778) na sua guerra pela independência contra a Inglaterra, rival da França.

Devemos também a Beaumarchais a criação do Direito de Autor. No século XVIII, o teatro não é regulamentado; as trupes remontam as peças sem pedir a autorização dos autores, e os editores editam freqüentemente cópias. Revoltado com a situação Beaumarchais funda no dia 3 de julho de 1777 a Sociedade dos autores dramáticos, esboço de uma organização que terminará por triunfar em 1791, quando a Constituinte institui o direito de autor.

Tudo isso faz desse homem paradoxal em tudo uma figura apaixonante que vale a pena descobrir. Deixo como dica o filme de Edouard Molinaro, "Beaumarchais, o insolente", com Fabrice Luchini - tema da próxima coluna - no papel principal.

Uma das cenas mais deliciosas do filme mostra Beaumarchais, tradutor da declaração da independência dos Estados Unidos da América, fazendo estremecer Luís XVI ao lhe ensinar a existência do "direito mais sagrado do povo...: o direito à felicidade". No elenco atores como Michel Serrault, Míchel Piccoli, Jean-Claude Brialy, e Sandrine Kiberlain. Belo programa para a tarde de sábado.

Um "casamento" mais do que feliz
Christophe Rauck pertence à nova geração de diretores que chamo de "les incontournables" ou seja, aqueles sem os quais não se pode mais viver. Aos 44 anos, este discípulo de Ariane Mnouchkine assumiu dia 1° de janeiro a direção do Théâtre Gérard-Philipe, um dos mais importantes Centros Dramáticos Nacionais da França, localizado em Saint-Denis, subúrbio ao norte de Paris. Vale dizer que a escolha de Christophe Rauck foi feita em comum acordo entre o prefeito da cidade, Didier Paillard, pelo Conselho Geral de Seine-Saint-Denis e pelo ministério da Cultura. Rauck foi nomeado por unanimidade, por ser um diretor talentoso, mas acima de tudo por ser um eterno defensor de um teatro popular de qualidade.

Rauck faz piruetas com o texto de Beaumarchais, com uma direção precisa, engraçada e cheia de fantasia, que contém toda a verve de Beaumarchais bem como suas tomadas de posição corajosas e que ainda hoje mexem com o espectador

A relação patrão/empregado tão bem descrita pelo autor é levada à cena com virtuosidade e interpretada com amor. A força do texto está presente o tempo todo, entre risos aqui e acolá por vezes ele se faz duro e cruel. Tudo se agita, questões se colocam, e o teatro aparece em todo seu esplendor. A Sala Richelieu parece invadida por um novo frescor.

A crítica aplaude o sucesso do jovem diretor em seu primeiro espetáculo para a Comédie-Française, muitos são os elogios a uma direção firme e ligeira, todas falam do elenco "harmonioso", outros lembram a griffe de Christophe Rauck "dinamismo e modernidade", quase todos têm ligeira preferência pela segunda parte, dizem que se a primeira parte ainda guarda um tom por vezes próximo ao convencional a segunda é cheia "energia e de imaginação."

Em bom chefe de trupe, e em bom aprendiz de Mnouchkine, Rauck soube extrair o melhor de seus atores: Martine Chevallier (Marcelina); Anne Kessler (Suzana); Michel Robin (Brid'oison); Christian Blanc (Antonio); Laurent Stocker (Fígaro), Michel Vuillermoz (O Conde); Elsa Lepoivre (A Condessa); Benjamin Jungers (O Pajem); como se a interpretação de cada um fosse pontilhada pela juventude de uma trupe a serviço da inteligência de um texto.

A revista Nouvel Observateur de 10 de janeiro de 2008 não poupou elogios : "Hourra! Eis o belo espetáculo que se esperava desde o começo da temporada teatral. Esta nova versão da obra prima de Beaumarchais rivaliza em juventude e inteligência com a, inesquecível, de Jean-Pierre Vincent de 1987. Chave do sucesso, o diretor, Christophe Rauck. Não há um ator que não seja exuberante. Todos são aclamados. As três horas de espetáculo passam como um relâmpago."

Quanto ao público ele lota as 862 poltronas da Sala Richelieu a cada apresentação de "O Casamento de Fígaro", afinal é muito fácil dizer "sim" a um casamento tão bem sucedido!


Deolinda Vilhena é jornalista, produtora cultural, mestre em Artes pela ECA-USP, mestre e Doutora em Estudos Teatrais pela Sorbonne Nouvelle-Paris III

Opiniões expressas aqui são de exclusiva responsabilidade do autor e não necessariamente estão de acordo com os parâmetros editoriais de Terra Magazine.

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