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Terça, 26 de fevereiro de 2008, 07h47

A Morte de Hamelin

João Carlos Salles

O centenário da morte de Octave Hamelin passou em branco. Viveu, é verdade, já um tanto fora de seu tempo, ou melhor, reativo às tendências mais fortes do trabalho intelectual. O necrológio de Hamelin, feito em setembro de 1907 por seu grande amigo Émile Durkheim, é um documento único, dorido, do laço íntimo entre dois grandes homens, que se admiravam e se compreendiam, conquanto representassem duas linhas de força na vida universitária francesa.

Durkheim foi um grande chefe de escola, fazendo valer a sociologia não apenas como um campo de saber discernido por uma qualquer taxonomia, mas como uma medida comum para o trabalho de uma comunidade científica, constituída por método, critérios e resultados. Como um líder, um chefe de escola, também se afigurava exemplar, dando mostras de aplicação bem sucedida e farta do método dessa ciência específica, capaz de separar a coisa social e discernir-lhe as leis - no caso, o sentido mesmo do ser social, força material e sobretudo ideal que nos afasta de nós mesmos e antes nos define.

O trabalho de Durkheim é assim exemplar do modo como um saber depende da constituição de uma comunidade, pela qual passa doravante a ser sustentado e à qual confere identidade. Foi assim, com um volume considerável de textos e em diversas frentes de batalha, o líder de um programa de investigação produtivo, um certo positivismo florescente e bastante forte, a ponto de não ter sido derrotado na academia, mas sim pela primeira guerra mundial, que desagregou a escola e dizimou muitos de seus herdeiros, inclusive o filho de Durkheim.

Hamelin era um docente, um professor universitário, e Durkheim (esse seu próximo, esse seu outro) compreende sua vida e sua morte sob o signo do sacrifício. Comecemos, primeiro, por sua morte.

No Necrológio, Durkheim cifra todo episódio da morte, que evita descrever, em uma frase: Hamelin teria morrido sacrificando-se por outrem. Depois, no prefácio ao livro Le système de Descartes, esclarece: ele morrera vítima de seu sacrifício. Tentou salvar duas pessoas que se afogavam e, não sabendo nadar, também foi engolido pelas ondas.

A apresentação de Durkheim conferiu para alguns um tom heróico ao gesto de Hamelin, quando em verdade podemos bem ler, nas entrelinhas, como sendo mais importante, a força irrecusável de um compromisso social, de uma simpatia pelo outro, que deveria compelir-nos, a qualquer um de nós, seres sociais, a semelhante gesto, arrastados todos pela coerção irresistível de um dever moral. O sacrifício é então banal e elevado, sendo vergonhoso recusá-lo e depois, pior ainda, suportar sua recusa.

Mais curiosa é a descrição da vida desse "homem de sensibilidade feminina", no qual caráter e inteligência se igualavam, ao tempo que a firmeza da vontade se aliava à elevação da razão. Por que, então, sacrifício?

Ora, esse intelectual resistia às pressões do tempo por impulsionar a própria carreira, sendo avesso às honrarias e ao sucesso mais imediato. Quando Liard o chamou a trabalhar na Escola Normal Superior, recusou humildemente. Somente com esforço, Durkheim conseguiu fazê-lo sair de Bordeaux, enfrentando principalmente as resistências do próprio Hamelin, para além das dificuldades acadêmicas de acesso à Escola Normal e, enfim, à Sorbonne.

Hamelin, diz o necrológio, devotava-se inteiramente a seus alunos. Bem ao contrário do perfil ora vigente, Hamelin consagrava-se de modo tamanho ao ensino, cuidava tão atentamente da formação dos estudantes, que adiava a redação de seus trabalhos pessoais. Assim, demorou vinte anos para concluir sua tese de doutorado, embora o resultado, hoje esquecido, seja simplesmente magnífico, Les éléments principaux de la représentation. Pude testemunhar o imenso respeito que um Gilles-Gaston Granger tem por essa obra (e com ele, creio, uma intelectualidade antiga de profissionais franceses da filosofia), embora esse não pareça o caso da nova geração.

O esquecimento da obra (e do estilo de trabalho) parece natural e lamentável. Inimigo dos diletantismos e da argumentação fácil, seu trabalho parece condensar o melhor da argúcia analítica da filosofia francesa, além de um devotamento, de um sacrifício constante às artes artesanais do espírito: "oara ele - escreve Durkheim - pensar era a coisa séria da vida: ele tinha horror a todos que fazem da reflexão um jogo ou um instrumento de sucesso, e sob sua influência nossos liceus estavam povoados de jovens professores irmanados desse espírito"

Os que amam a artesania do trabalho intelectual, os professores de vocação, os nostálgicos da reflexão, os intelectuais universitários autênticos e, por isso mesmo, ameaçados, não apenas de morte, mas de extinção coletiva, esses perderam, há um século, "um amigo insubstituível".

João Carlos Salles é professor do Departamento de Filosofia da UFBA e publicou os livros A Gramática das Cores em Wittgenstein e O Retrato do Vermelho e outros ensaios.


Fale com João Carlos Salles: joaocarlos.salles@terra.com.br

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