
Claudio Martini
A pré-história tem feito poucas aparições sérias no cinema (o excelente A Guerra do Fogo, de Jean-Jacques Annaud e a seqüência clássica de 2001: Uma Odisséia no Espaço, de Stanley Kubrick), e nenhuma memorável nas HQs (com exceção do gênero humor, com B.C. , de Johnny Hart e Brucutu, de V.T. Hamlin).
Porém, agora os quadrinhos já possuem um homem pré-histórico em posição de destaque. E ele se chama Lucy. No final do ano passado, Lucy (Lucy - L'Espoir, Capitol Editions) surgiu nas livrarias francesas, trazendo uma história de amor, violência e sobrevivência nos vales da África Oriental, há 3.200.000 anos.
Os responsáveis por esta criação excepcional e corajosa são o roteirista francês Patrick Norbert e o surpreendente desenhista Tanino Liberatore.
O italiano Tanino Liberatore já havia surpreendido o mundo das histórias em quadrinhos nos anos 1980 quando deu vida a um andróide criado por Stefano Tamburini: Rank Xerox, depois rebatizado de Ranxerox e finalmente de Ranx (por exigência e sob ameaças da indústria de fotocopiadoras Rank Xerox). Em um mundo do futuro retratado com maestria e muito realismo, acompanhamos as aventuras ultra violentas e indecentes do brutamontes robotizado e Lubna, sua namorada ninfeta.
Liberatore tem uma obra muito forte mas de poucos títulos. Nos anos 1980 e 1990, só três livros de Ranxerox apareceram: Ranxerox em New York (editado no Brasil como um especial da revista Animal), Feliz Aniversário, Lubna e Amém! (este escrito em colaboração com o ator francês Alain Chabat, após a morte de Tamburini em 1986). Outros dois livros completam sua obra: Les Femmes de Liberatore, com ilustrações de mulheres em diversas técnicas de desenho, e VideoClips, uma coletânea de histórias curtas. Também fez a capa de um disco de Frank Zappa, The Man of Utopia, e criou o figurino do filme Asterix e Obelix: Missão Cleópatra.
Depois de muitos anos dedicando-se apenas a fazer ilustrações, Lucy marca o retorno do artista aos quadrinhos. O realismo que em Ranxerox já era de tirar o fôlego, se torna quase palpável em sua nova obra. Com a ajuda do computador e do grande formato do livro, podemos estar ao lado de Lucy e seu companheiro Adam, enfrentando linces, águias e babuínos. Podemos sentir as gotas de chuva e os respingos de sangue das lutas. Podemos compartilhar as emoções de ternura, medo, desamparo dos personagens. Podemos acompanhar os primeiros passos do futuro homem, fazendo ferramentas e se comunicando.
Como os Australopithecus anamensis e os Kenyanthropus platyops não falavam, a história é contada em quadros por um narrador, o que tira um pouco da dinâmica dos quadrinhos. Mas o roteiro é conduzido com elegância, criatividade e suspense por Patrick Norbert.
Liberatore, que com Ranxerox já havia deixado sua marca no futuro, agora deixa sua marca no passado, junto com as pegadas gravadas em cinza vulcânica por Lucy.
Site do livro, com preview de várias páginas: www.lucy-bd.com.
Terra Magazine