Terra Magazine

 

Sexta, 29 de fevereiro de 2008, 07h33

Cau Gomez: da montanha ao mar

Claudio Leal

Sorriso fisgado, alegria mambembe. O cartum do desenhista Cau Gomez, 36 anos, imprime ao riso do brasileiro as tintas do cidadão que monta, diariamente, um circo de lona rasgada. Homem e mulher trôpegos que resistem ao País - e a suas alegrias improvisadas.

Cau, 20 anos de profissão lavrados na estrada Minas-Bahia - que pode muito bem cruzar com estradas de outros países e mundos - integra a Seleção Brasileira de Cartum. Seus desenhos já foram impressos nas revistas Playboy, Palavra e Entrelivros, nos jornais O Estado de S. Paulo, O cometa, Jornal do Brasil e Courrier International (França); ganhou o reconhecimento de craques como Ziraldo e Angeli. Atualmente, trabalha no jornal A Tarde, em Salvador. Em boa vizinhança: seu companheiro de prancheta é o cartunista Osmani Simanca.

Ainda petiz, deu os primeiros traços na imprensa de Minas Gerais. Uma honra: ilustrava as crônicas do escritor Roberto Drummond. De resto, como bom mineiro, tirava leite das montanhas. Milagres diários.

- Comecei com 16 anos, no Diário de Minas. Na época, fui salvo porque o jornal era carente de fotografias e eu fazia mais de dez desenhos por dia, pra ilustrar as páginas. Com essa prática de interpretação de texto, comecei a aprimorar meu desenho.

Na década de 90, se radicou em Salvador. "No início, as formas das montanhas mineiras me marcaram. A Bahia me apresentou ao mar", define. Antes mesmo de pisar nos gramados de todos os santos, fez uma caricatura do então governador Antonio Carlos Magalhães para a Playboy. De corar anjos barrocos. Anos mais tarde, ACM entrou em sua sala, num jornal baiano. Apontado como autor das bem-traçadas, sentiu o ar ficar quente.

Aos interessados em captar detalhes de processos criativos: Cau faz valer a crença de que a imaginação de pintores e escritores está unida ao desconforto físico. Mirando o papel ou a tela do computador, ele enrola os cabelos, flerta com o teto, olha desconfiado para o próprio esboço, repensa milimetricamente seu traço. Volta a trançar os cabelos e, num daqueles momentos em que a inspiração parece vir do Diabo (a quem não venderia a alma), desce-lhe a forma, a concepção final.

- Numa época, eu tinha mais claro o que me levou ao cartum. Hoje, isso é mais difuso. Meu trabalho me deixou ligado ao jornalismo impresso, mas acho que o desenhista não tem que ficar preso numa mídia só. Tem que circular em várias mídias. Já fiz muros em bares, aproveito qualquer superfície. E temos que recorrer à tinta, ao scanner...

Seus 20 anos de carreira podem ser experimentados na edição 61 da revista Gráfica (www.revistagrafica.com.br), desde fevereiro nas bancas. A Gráfica reúne destaques brasileiros e estrangeiros em design, fotografia, ilustração e artes gráficas. Vencedor de prêmios internacionais (Espanha, Cuba, Itália, Portugal, Grécia...), Cau Gomez mereceu um Portfólio. "Sair nessa revista é um belo sonho", diz. A publicação destaca ainda Alfredo Sábat, Saul Steinberg e Oscar Reinstein.

Em seu colete, Cau tem vários sensores para evitar a estagnação. Explica:

- Estou experimentando a tinta a óleo. Quando me sinto preso a uma só técnica, isso gera chateação, porque acho que estou estagnado num tipo de linguagem. O ruído que você consegue com esses diversos materiais, esse ruído gráfico, é válido.

O que ele chama de ruído pode ser entendido ainda como a opção pela técnica híbrida. Assim constrói suas charges; acrescenta uns toques e retoques que conferem ao desenho editorial os elementos do cartum. Habilidade aprendida em algum ponto entre o mar e a montanha.

 
Reprodução
Um sorriso, por Cau Gomez

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