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Segunda, 3 de março de 2008, 11h39

Jaime Guzmán, monumento à ditadura de Pinochet

Juan Guillermo Tejeda
Santiago, Chile

A forte personalidade de Jaime Guzmán o situa como um político chileno excepcional: exerceu com clareza uma liderança carismática sobre uma direita dispersa e abatida, apoiou com força a candidatura presidencial de Alessandri, que resultou derrotado por Allende e, quanto este se tornou presidente, dedicou suas energias a combater o governo da Unidade Popular. Parecia incrível que aquele miúdo advogado de fala tão católica, com uma jaqueta cinza e um discurso de direta medieval com matizes fascistas - admirava Franco - e integralistas, houvesse um dia sido colaborador da revista "Fidúcia", e pudesse conquistar tamanha influência sobre a sociedade chilena.

Obteve êxito em empreitada. Encabeçou a resistência a Allende, se bateu com valentia e decisão contra as sombras do marxismo, e se transformou assim em uma figura fundamental da ditadura pinochetista. Jaime Guzmán foi um político não tradicional, um polemista brilhante e um negociador de enorme habilidade. Durante os anos de Pinochet seu papel foi, mais que o de ator, o de um auditor fiscal ideológico. Seu feitio era o de mandar naqueles que mandam, exercer influência, traçar a cenografia da obra mais do que desempenhar papéis específicos. Uma de suas obras foi a Constituição de 1980, uma peça profundamente antidemocrática.

Os trabalhos acadêmicos de Renato Cristi, Carlos Ruiz e Pablo Ruiz-Tagle mostram não apenas a raiz conservadora, integralista, de suas idéias, mas também o feitiço que estas idéias exerceram sobre a direita chilena durante a ditadura de Pinochet. Poderíamos afirmar que tanto o pinochetismo como a democracia vigiada e o espaço público desvalorizado que vieram depois são obra de Guzmán.

A figura de Jaime Guzmán é excepcional por ele ter sido capaz de fazer uma leitura - errada ou não - que exerceu amplos efeitos sobre a realidade nacional, unindo a sua visão teórica a uma decidida e bem sucedida ação prática. Fundou a UDI, o partido mais nítido de nossa direita, e preparou o desembarque dos poderes fáticos no novo contexto democrático.

Jaime Guzmán foi, por fim, uma pessoa austera, de convicções religiosas profundas, pouco amigo de aparências enganosas, de costumes atípicos. Sua trágica morte, ocasionada por um atentado terrorista no início da transição, comoveu profundamente a classe política e o país.

Entende-se perfeitamente que seus partidários desejem erguer um memorial em sua homenagem: tal é o nome escolhido para o monumento que vai ser inaugurado brevemente em Vitacura. No entanto, é necessário pensar que este monumento é, a um só tempo, uma homenagem à pessoa de Guzmán e à ditadura de Pinochet. Ambas as leituras estão fatalmente ligadas. A vida política de Jaime Guzmán consistiu basicamente em preparar, administrar e finalmente amarrar o legado de uma ditadura. Ditadura violenta, cruel e, segundo ficou claro depois, corrupta, que deixou uma profunda ferida de executados, desaparecidos à força, exilados, reprimidos, torturados. Décadas se passaram até que toda aquela desordem pudesse ser reordenada.

E a pergunta que surge é: seria correto que, em uma sociedade democrática, seja erguido um monumento a uma figura púbica que se identifica cabalmente com uma ditadura? Está o Chile disposto a erguer estátuas a quem, independente dos motivos e sob qualquer ótica, tenha forjado um regime tão contrário aos valores compartidos desta sociedade? Faz sentido destinar áreas de espaço público a este tipo de homenagem? Que sinais estamos enviando às gerações mais jovens? Será este talvez o primeiro de uma série de monumentos a ídolos da ditadura? A excepcionalidade da figura de Jaime Guzmán e suas notáveis qualidades pessoais não nos devem fazer esquecer seu papel estruturador no pinochetismo. Guzmán é uma figura histórica, que sem dúvida será estudada a fundo nos anos vindouros. Mas isso não faz dele necessariamente um exemplo.

Os seguidores de Guzmán podem certamente erguer os monumentos que considerem convenientes - estariam perfeitamente em seu direito ao fazê-lo. Mas o sensato seria que o fizessem em espaços privados e, ao que se saiba, as ruas de Vitacura continuam a ser espaço público. Enquanto na Espanha foram retiradas das ruas e praças todos os monumentos que louvavam as figuras ditatoriais, no Chile começamos recentemente a instalá-los.

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