Terra Magazine

› Terra Magazine › Colunistas › Luciano Borges

Sábado, 1 de março de 2008, 07h57

Marcos Marinho comenta a arbitragem no Paulistão

Luciano Borges

Quando os times grandes começam mal do Campeonato Paulista, eles aumentam as críticas aos árbitros. Para o presidente da Comissão Estadual de Arbitragem, Marcos Marinho, este é um dos motivos da avalanche de críticas que seus comandados enfrentaram nesta semana.

Mesmo assim, o homem forte do apito paulista admite que o nível das arbitragens não é dos melhores neste início de temporada. "Estou decepcionado, para falar a verdade", disse em entrevista a Terra Magazine.

Por isso, vai dar aulas de reforço para corrigir o ponto que ele considera o mais vulnerável: faltas e cartões.

Veja também:
» Assista à entrevista com Marcos Marinho

Coronel da reserva da PM, Marinho é um cara que fala baixo. Raramente sobe a voz ou demonstra estar irritado em público. Para quem já comandou o policiamento dos estádios e hoje dirige os "homens de preto", ele mantém sempre a fleuma em público.

Mesmo quando é criticado abertamente pelo técnico Vanderlei Luxemburgo, do Palmeiras, que o acusou até de armar um complô para expulsá-lo no jogo contra o Rio Preto. Marinho ouviu Luxa pedir sua aposentadoria e, quase ao mesmo tempo, reclamar falta de diálogo com os juízes. A resposta pública foi curta e fina: "Não me importo com o que ele disse. E não está na hora de me aposentar", afirmou.

Mas quem convive com o homem forte do apito no futebol paulista, sabe que ele é implacável no trato com os juízes que comanda. Marinho chamou o juiz daquele jogo, Paulo Roberto Ferreira, para uma conversa em sua sala, no quinto andar do prédio da FPF. Foi, como sempre, franco e duro.

Primeiro, ouviu de Paulo Roberto que ele nunca conversou com Luxemburgo para vender ao técnico alguma apólice de seguros. Aceitou os argumentos, publicados ontem no Blog do Boleiro, no Terra Magazine.

Depois, criticou a decisão do juiz de expulsar o treinador do Palmeiras porque ele reclamou com o quarto árbitro utilizando um palavrão. "Ele deveria ter chamado a atenção, com muita calma e educação. Assim, passaria a responsabilidade para o Luxemburgo", disse Cel. Marinho.

Por causa do cartão vermelho, Luxemburgo saiu do campo falando que sabia que seria expulso. E não desmentiu a informação de um repórter de que teria sido procurado por Paulo Roberto que lhe ofereceu a tal apólice.

Publicamente, Marinho defendeu o árbitro. Internamente, espera agora que o técnico prove a existência do esquema para tirá-lo do jogo. E apoiou Paulo Roberto, que se dispôs a provar com documentos que não trabalha sequer na agência bancária onde Luxa é correntista.

O presidente da Comissão Estadual fez mais: colocou no sorteio dos trios de arbitragem para a partida deste domingo, entre Corinthians e Palmeiras, um juiz que nunca apitou clássicos na carreira. Com isso, não atendeu aos pedidos públicos dos dois clubes que queriam um apitador da Fifa.

Em outubro de 2005, o Cel. Marinho foi convidado pelo presidente da Federação Paulista de Futebol - o advogado palmeirense Marco Polo Del Nero - para assumir o cargo em meio à maior crise da arbitragem das últimas décadas.

O escândalo envolvendo o ex-árbitro Edílson Pereira de Carvalho, que confessou ter provocado resultados para atender a um grupo de apostadores e, para isso, ter cooptado colegas de profissão, colocou todo o Departamento de Árbitros sob suspeita.

O novo comandante chegou, criou um ranking, estabeleceu regras, lançou novos nomes, afastou discretamente gente da velha guarda e vem tentando padronizar o comportamento dos árbitros dentro de campo. Há dois anos, a FPF realiza pré-temporadas e períodos de reciclagem.

Talvez por esse motivo, o Cel. Marcos Marinho se diga "decepcionado" com o desempenho de seus comandados nas primeiras 12 rodadas do Campeonato Paulista. Já disse isso a eles. E vai reforçar o trabalho com mais aulas e treinos simulados.

Afinal, ele não trabalha sete dias por semana à toa. "Vivo arbitragem. Mesmo nos poucos dias de folga, em que não vou a jogos das Séries A-1, A-2 ou A-3, ou mesmo em partidas de divisões de base, eu fico com o rádio ligado. Minha esposa reclama, mas não posso chegar aqui na segunda-feira caindo de pára-quedas", diz.

Por isso, quer a recíproca dos árbitros que, nesta semana, proporcionaram dias de agitação.

Terra Magazine: O senhor teve uma semana agitada.
Cel. Marinho:
Tive não. Ainda estou tendo. Não esqueça que tem Corinthians e Palmeiras neste domingo.

As críticas aos árbitros estão fortes?
Não mudou nada em relação ao ano passado. Está meio igual. Eu interpreto que os times grandes não estão indo bem. Por isso aumentaram as críticas. Do ponto de vista técnico, os erros estão menores do que no ano passado. Melhoramos bastante nos fundamentos, como correr, como se colocar em campo, o preparo físico. Está faltando melhorar no item "interpretação da lei".

Como assim?
Os critérios dos árbitros estão desiguais. Tem lances que são para cartão e nem todos estão advertindo os jogadores. Este problema já vinha vindo de anos anteriores. Eu achava que ia melhorar, mas piorou. Os árbitros também estão muito preocupados em administraros jogos, terminar com 22 atletas em campo. Isto não é problema do árbitro. Estou vendo árbitro pedindo para o jogador maneirar aos 35 minutos do segundo tempo. Ele fica fazendo aquele gesto que significa "este é o último". Está errado e já cobrei deles.

Que nota você dá para o desempenho dos árbitros no Campeonato Paulista?
(pensa) Dou nota seis para eles. Alguns estão muito bem, mas por tudo o que estamos fazendo nos últimos dois anos e meio, esperava muito mais deles. E já disse isso a eles. Não houve avanço. Estou um pouco decepcionado com isso.

O que o senhor pretende fazer para melhorar este desempenho?
Depois da décima terceira rodada, vamos levar todo mundo para mais treino de campo. Já acertamos com o Nacional, conseguimos o campo e as equipes de garotos que vão servir de "sparrings". Vamos trabalhar especificamente faltas e aplicação de cartões. O problema é a regra 12. Estou entregando a cada árbitro um DVD feito pela Fifa com todas as orientações, utilizando lances da última Copa do Mundo. É para reforçar o que a gente fala nas aulas.

Ainda falta padronização de critérios. Como o senhor lida com isso?
Eu tenho conversas pessoais com cada árbitro. Você não vai me ver criticando ninguém em público. Às vezes, há a punição. Vou citar um caso. Depois da sexta rodada, nós passamos para os árbitros que todo pênalti é cartão amarelo. Passa a ser considerado uma atitude anti-desportiva. Mas nem todos fazem. No jogo entre Santos e Guarani, o Rodrigo Guarizo não puniu o volante Marinho Guerreiro que derrubou um adversário na área. Acontece que ele já tinha recebido um cartão amarelo e o Guarizo não o expulsou. Depois, aqui na Federação, eu perguntei para ele porque tinha deixado de punir o jogador. Ele explicou que achava muito pesado dar o cartão vermelho. E eu disse que ele tinha errado, comprometido o trabalhão que estava sendo muito bom. Suspendi o Rodrigo por 15 dias.

Mas o fato dele ter errado ali é suficiente para estragar a atuação no jogo todo?
Sim. Ele estava apitando bem. Depois disso, um jogador do Guarani cometeu falta que mereceria expulsão e ele não deu porque já tinha aliviado o Marcinho. Quer dizer, ele deixou de cumprir as regras e se perdeu no jogo, foi criticado pela imprensa. Tudo porque não cumpriu uma determinação dada quatro rodadas antes.

Na quarta rodada, depois do clássico contra o Corinthians, os dirigentes do São Paulo vetaram o nome do Sálvio Spinola Fagundes Filho.
Ele não apitou mais jogos do São Paulo. O veto funcionou? Pode escrever aí: ele ainda vai apitar jogo do São Paulo neste Campeonato. O São Paulo fez um pedido formal. Para nós, foi só um registro. Mas temos que ter bom senso. Não adianta dar murro em ponta de faca. Mas o Sálvio é juiz Fifa, experiente. Dá para falar que ele é ruim? Ele está sendo observado pela Fifa como um dos juízes para a Copa do Mundo de 2010. Ele esteve agora na Espanha, para um trabalho com juízes do mundo todo. O Sálvio terá dois anos duros pela frente. A Fifa exige condicionamento físico superior aos testes aplicados até aqui.

O senhor realmente não se importa com o que o técnico Vanderlei Luxemburgo falou?
Ele pode falar o que quiser. Não vai interferir em nada no nosso trabalho. Ele vai ter que provar que houve combinação para ele ser expulso no jogo contra o Rio Preto. O que houve, e isso falo claramente, foi uma recomendação com relação à situação dos treinadores na área técnica. Pedimos aos árbitros que primeiro conversem com eles. O quarto árbitro precisa transferir para o treinador a responsabilidade. Eles sabem que o certo é ficar no banco e se levantar para dar instruções e voltar. Aqui, nós deixamos que eles permaneçam em pé o tempo todo. Agora, técnico não pode apitar jogos. Imagine se os árbitros chegassem no banco de reservas para criticar um jogador ou o esquema tático do time do treinador. Ele iria permitir?

Luxemburgo e Emerson Leão se manifestaram pedindo um encontro com os árbitros. O que o senhor acha?
Concordo com eles. Acho bom esta integração entre árbitros e treinadores. Vamos levar esta idéia ao presidente da Federação (Marco Pólo Del Nero). É importante este diálogo. Mas ele não pode sobrepor as leis do jogo. Esta conversa deve ser feita dentro das regras do futebol.

Estas reclamações de dirigentes e treinadores servem como vacina? Elas inibem os juízes?
Sei que alguns deles usam esta estratégia, este tipo de pressão. A gente trabalha com o juiz para que ele não faça nada por causa disso. Nem a favor nem contra quem reclama. É só seguir a regra. Agora, árbitro não é alienado. Ele lê os jornais, acompanha os jogos. Eles sabem o que acontece. Eles não entram de pára-quedas nos jogos. Aliás, nós os estimulamos a estudarem os times dos jogos que vão apitar, saber detalhes dos jogadores, até dos esquemas táticos. É o que o Rodrigo Braghetto está fazendo.

Aliás, os dirigentes de Palmeiras e Corinthians pediram um árbitro da Fifa. Não foram atendidos.
O Rodrigo é bom árbitro. Ele está bem tecnicamente e, psicologicamente, está equilibrado. É o momento dele. O Braghetto é um cara focado, rigoroso na aplicação das regras e não tem medo de dar cartão.

Mas ele ainda não apitou um clássico dessa importância.
Ele é um árbitro experiente, está muito bem este ano. Estou precisando colocar árbitros como ele para apitar clássicos, para preparar para o futuro. Em 2006, colocamos o José Henrique de Carvalho para dirigir Santos e Corinthians. Até teve um lance do gol que ele não anotou e a bola entrou. Mas depois ele se firmou e, desde o ano passado, está muito bem.

Mas não é delicado colocar um "novato em clássicos" para apitar Palmeiras e Corinthians?
Esse é o momento. Se o cara agüentar, passar neste teste, ele passa a ser mais utilizado no futuro. O Campeonato Paulista é um laboratório.

Com relação ao árbitro Paulo Roberto Ferreira, o senhor conversou com ele sobre o episódio da "venda de apólice de seguros"?
Conversei aqui na Federação, na última quarta-feira. Não tem nada. Ele nunca falou com o Vanderlei Luxemburgo fora dos campos de futebol e trouxe até documentação para mostrar que ele é corretor de seguros, terceirizado, que presta serviços em uma agência bancária. E que ele nunca atendeu ou procurou o Luxemburgo.


Luciano Borges é editor-chefe do Bandsports e autor do Blog do Boleiro.


Fale com Luciano Borges: borges.luciano@terra.com.br

Opiniões expressas aqui são de exclusiva responsabilidade do autor e não necessariamente estão de acordo com os parâmetros editoriais de Terra Magazine.

Terra Magazine


Exibir mapa ampliado

Tags

O que Luciano Borges vê na Web

Favoritos

Busque outras notícias no Terra

Terra Magazine América Latina, Veja a edição em espanhol

Argentina Chile Colômbia Equador Estados Unidos México Peru Venezuela